Maternidade

Perda gestacional

Antes de engravidar do meu filho mais velho, perdi um bebé. Hoje é o dia internacional da perda gestacional e estas coisas dos dias internacionais têm como objectivo sensibilizar para temáticas importantes e quebrar tabus, pelo que aproveito a deixa. Este é daqueles assuntos que todos reconhecem ser dolorosos e então fica remetido à surdina que não ajuda ninguém a curar.

Dar voz à minha história é explicar que acho que superei tudo bem. Não vos vou maçar com descrições dramáticas das vezes que chorei aquele bebé e o que senti quando depois tive o meu bebé arco-íris (o que chamam a bebés que vêm após perdas) porque não é sobre o depois que vos quero falar, é sobre o durante e porque arco-íris não é o meu estilo.

Passei por isso e passou. Mas doeu. Muito. Estava grávida de 9 semanas e já tinha partilhado a notícia com a família e amigos. Contei essencialmente porque me apeteceu e porque não percebia o porquê de esperar para partilhar. Ainda não percebo, todos os que souberam foram-me essenciais.

Tive uma hemorragia, fui para a maternidade, fizeram uma ecografia, não detectaram batimento cardíaco, mas explicaram-me que o ecógrafo das urgências não era o melhor para gestações ainda tão curtas e mandaram-me para casa esperar, pois podia estar a abortar, mas também não. Que voltasse daí a cinco dias ou se me sentisse mal, disseram. Vim absorta, não quis acreditar e tive esperança de que tudo estivesse bem. Voltei à maternidade passados três dias, farta de esperar. Encaminharam-me para o piso das ecografias e depois de entrar numa sala escura, de ter cumprimentado o médico e não ter obtido resposta, deitei-me numa marquesa e ouvi a sentença após segundos de análise: «esta gravidez foi interrompida». O quê? Interrompida? Por quem? O médico disse só que o feto não tinha batimento cardíaco e mandou-me sair. Até hoje não percebo a malvadez desta falta de tacto, não aceito que lidem assim com uma pessoa num dos seus piores momentos. [Fiz queixa deste médico, infelizmente não chegou a lado nenhum porque o médico faleceu meses depois.]

Fui então encaminhada de volta para as urgências onde me falaram melhor, explicaram o que se passaria a seguir, mas onde também ninguém quis perder muito tempo por não saber o que dizer. Eu fiquei demasiado presa à quantidade infinita de vezes que diziam que eu tinha abortado — as palavras são só palavras e às vezes não querem dizer nada, mas quando se está numa sala fria a saber que a vida que criámos dentro de nós estava finda, as palavras interessam e gostava que alguém se tivesse abstido de repetir aquilo vezes sem fim porque eu não fiz nada, simplesmente aconteceu. Num segundo tinha um projecto, no seguinte não. Num segundo era mãe, noutro não. Num segundo planeava onde pôr um berço, no seguinte contorcia-me de dores com as contracções ao lado do sítio escolhido.

Acho que falta formação aos técnicos para saberem lidar com estas situações. Posso ter tido azar e ter lidado com as pessoas erradas, mas pareceu-me mais ser o assunto errado. É preciso tratar o assunto com a importância que tem e não o desvalorizar sobre pena de aumentar o sofrimento de quem por lá passa em vez de o minimizar.

Odiei o tabu, o não se falar sobre isso, odiei passarem-me a mão no braço e ouvir que é muito comum, ainda és nova, vais ver que engravidas logo, depois nem te lembras. Eu prometia não esquecer e não queria pensar em engravidar de novo, nem sequer deixar de pensar no que tinha acontecido, queria falar sobre isso, explicar pelo que passei e ultrapassar. Evitar não deixa curar.

Todos me diziam que era comum, mas não é assim tão comum falar sobre isso. Na altura senti-me sozinha.

Passa, mas não se esquece.

A quem está a viver isso: sim, acontece com frequência. Não estás sozinha. É tabu, mas não devia ser.

Ah e não, não foi nada que fizeste.

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Tudo e Nada

Maria Bitaites Internautas

Depois de ter feito o post das Marias Bitaites – Edição Gémeos, muitos me pediram para fazer a versão reunião de pais e grupos de mães no Facebook. Pronto, foram só duas pessoas, mas foram duas pessoas de quem eu gosto muito, por isso valem por muitas, certo? Ora, de reuniões de pais não percebo. Não estou especialmente entusiasmada com essa fase da vida, acho que vou ter muito material, mas a verdade é que para já vivo na ignorância.
Já relativamente a grupos de mães no Facebook………… Eu boto o olho em tudo e raramente comento algo, a maioria das vezes simplesmente remeto-me ao silêncio gozador. Mas que já vi cenários de horror, já. E por isso aceitei o repto.
Aqui estão então as Maria Bitaites Internautas:

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Coisas que irritam Tudo e Nada

No is no

Aqui há uns anos, quando o Obama foi eleito Presidente dos Estados Unidos li uns artigos sobre racismo na América e lembro-me de pensar «não, nós não somos assim racistas». Em conversa com alguém muito tempo depois apercebi-me da dura realidade: somos igualmente racistas, simplesmente nos EUA fala-se disso, aqui não. Quando o Trump foi eleito apesar de existirem gravações dele a dizer que apalpava as mulheres pela rata (entre outros episódios), eu pensei «nós, não somos assim misóginos, machistas». Estão a ver onde é que vai dar, não estão?
Nós últimos dias, a propósito da questão da acusação de violação do Ronaldo, ver a propagação de comentários «é, achava que ia beber chá para o quarto», «ó Ronaldo, usavas vaselina para não fazer dói-dói», «acabou-se o dinheiro e agora quer mais», muitas vezes de mulheres e muitas vezes acompanhados de demonstrações claras de nem terem procurado saber os contornos do caso, é desanimador e faz-me concluir que sim, somos.
Aquando de decisões como as do acórdão da «sedução mútua» nunca falta quem os censure munido de argumentos como «eu tenho uma filha e não é este mundo que quero para ela» como se fosse preciso ser-se mulher, ter filha, mãe ou namorada para se ser feminista e como se o futuro que deixamos aos filhos fosse o único móbil para defender um mundo melhor para hoje. Hoje uso eu esse argumento: é isto que querem ensinar às nossas filhas? Se subires ao quarto, é porque tens de dormir com ele, quer queiras quer não! Se usares decotes, já sabes que os homens se podem usar do teu corpo. Se gostares de sexo, tens de gostar de tudo. Se disseres que sim, não podes mudar de ideias, não vale de nada dizer não. É assim? E é isto que queremos ensinar aos nossos filhos? Se ela aceitar ir contigo para o quarto, podes servir-te do corpo dela como quiseres. Se ela aceitar ir jantar, já sabes que está no papo e podes ser violento para o concretizar. Se ela disser sim a um beijo, considera-a disponível para tudo. Se ela estiver de decote, é porque quer que a comas. É assim?
Não sou daquelas pessoas que defende que o mundo está cada vez pior. Continuo a defender que o mundo em que os meus filhos nasceram é incomensuravelmente melhor do que aquele em que eu nasci: o desenvolvimento, o progresso da tecnologia ao serviço da nossa saúde, locomoção, felicidade, a quebra de barreiras importantes, a conquista de liberdades e a defesa dos direitos civis nos países desenvolvidos melhoraram o mundo nestes últimos 30 anos. No entanto, ao ver estas reacções lembro-me que ainda falta muito.

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Love is all you need

(Des)sintonia

Vejo muita gente à procura do tal. Tanto me elogiam a sorte. Perguntam-me como é que aguentamos. Leio sobre a sintonia do casal, sobre a partilha. Farto-me de ver floreados que todos querem. Esqueçam a sintonia. Nós não temos sintonia. Nós discutimos. Nós pomos pausa em discussões para dar banhos, para dar jantar, para viver. Nós entramos em conflito sobre a maneira como educar, como reagir. Nós cobramos tarefas, tempo, saídas, trabalho. Nós somos rancorosos e teimosos. Nós funcionamos. Nós acordamos e esbarramos no corredor a trocar de turnos. Nós somos uma máquina oleada de logística. Nós planeamos. Nós fazemos listas. E nós perdoamos. O cansaço, as rotinas, o trabalho, a vida. Não sei nada sobre relações duradouras, sobre amores para a vida, sobre companheirismo. Não sei nada sobre os outros, sobre a vida. Só sei sobre nós. Sei que todos os dias, ele acorda antes de mim, trata de tudo e depois sai para trabalhar. E sei que volta todos os dias. E a mim custa-me vê-lo sair não (só) porque fico sozinha, tantas vezes sem ajuda, mas porque fico sem ele.
No fim-de-semana vínhamos em viagem e eu disse-lhe «adoro uma música que está sempre a dar, mas não consigo dizer qual é, não sei nem uma única palavra.» Ele respondeu «vê se é esta» e pôs no telemóvel. Eu disse «olha que não… não me parece». Era. Chegou o refrão e ri-me «é esta, é». Ele sabia e fez um sorriso delicioso de quem tem sempre razão— gosto destes sorrisos porque geralmente são meus. Vinte minutos depois estávamos em casa e eu a bufar porque ele se lembrou de ir andar de bicicleta com o miúdo em plena hora de almoço. PLENA HORA DE ALMOÇO. Eu fiquei sozinha com os gémeos a arrumar malas e a fazer o almoço. Mas depois pensei: esta pessoa conhece-me tão bem que descobre a que me refiro por mero pensamento e acalmei-me. Acham mesmo? Sabem de que é que me serviu ele ter descoberto a tal música? De nada, passei-me na mesma e barafustei like a motherfucker. Isto é muito giro ter a nossa alma gémea, mas quando a coisa aperta uma pessoa tem simplesmente vontade de a esganar como às almas menos gémeas.
As normas do amor mandam nunca nos deitemos chateados. Eu também já fui jovem e inocente e dizia o mesmo, mas agora digo-vos se se chatearem, deitem-se. De manhã as parvoíces deixam de fazer sentido, o dia traz lucidez e o descanso tira importância a pormenores que são mesmo detalhes. Eu deito-me chateada, tem dias que ainda acordo amuada, eu discuto, eu grito, eu digo que estou cansada. Mas deito-me todos os dias apaixonada, todos os dias me levanto enamorada. Que se lixe a sintonia, eu quero a confusão, eu quero o cansaço, eu quero a verdade. Eu gosto disto assim. E dele também. A todos os que perguntam como é que aguentamos: ele sabia que eu tinha mau feitio bem antes dos três, agora é só um bocadinho mais. Isto das relações é como as mães: não há perfeitas, só há as reais. E também como a mãe, a minha é a melhor do mundo.

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Tudo e Nada

Tem calma

Basicamente uma pessoa anda aí e pensa que há mães como há mulheres, todas diferentes, mas vai-se a ver e afinal só há dois tipos: mãe-galinha e a mãe-relaxada. E ou se é uma ou se é outra. A mãe-galinha é demais: é tudo em bom, mas demais. Ama tanto que sufoca, preocupa-se tanto que exagera, cuida tanto que não dá espaço. A mãe relaxada deixa tudo andar, não se preocupa, vive a vida. E, como em tudo nesta merda da maternidade, ou se é uma ou outra.
Volta e meia, alguém me diz a propósito de alguma coisa com os meus filhos que tenho de ser mais relaxada, mais descontraída que não ando a aproveitar. Quando alguém me diz que eu «tenho de ser» de determinada maneira fico logo com comichão, apetece-me mandar essa pessoa à merda, mas aguento-me porque sei viver em sociedade. Eu devo ser relaxada? Mas quem é que disse que eu não sou relaxada? E… quem é que disse que eu quero ser relaxada? E o que é ser relaxada? E quando é que devo ser relaxada? E como… vocês percebem. Depois a sentença: «Estás em stress com tudo, tens de deixar a vida levar, o teu stress passa para eles, sabes, por isso é que eles não dormem/comem/cagam/falam”. Ora, fica o disclaimer: eu não sou relaxada, não sei ser e não quero ser. Nunca fui. Não sei ser assim com os miúdos porque não sei ser assim com ninguém. O meu pai abeira-se de uma cena mais alta (e fá-lo tantas vezes só para se me meter comigo) e eu passo-me, fico com dores de barriga porque tenho medo de alturas. O meu marido todos os dias faz 200 km e tem que me mandar mensagem SEMPRE que chega e sai, mesmo se estivermos amuados, já fiz pausa em discussões para perguntar se ele chegou bem. Se tenho alguém de quem gosto no ar fico com o coração apertado até os saber em terra. Sempre. Sou assim, acho que herdei isto.
Isto para dizer, se há suspeitas de os meus filhos terem alguma coisa sim, eu vou ler tudo o que há na net sobre isso. Sim, vou preocupar-me, mesmo que não seja nada. Sim, consome-me. Mas não sei ser de outra maneira e não estou a tentar.
Por outro lado, eles têm febre ou fazem uma alergia alimentar e eu não vou a correr para o pediátrico até para espanto dos médicos, como já aconteceu. Vigio e velo, mas não entro em pânico. E caem e eu não grito logo. E sacudo o pó de feridas, dou beijinho e digo para seguirem com a brincadeira depois de quedas aparatosas no parque.
Ser relaxada e ser mãe-galinha para mim é dia-a-dia, é tão normal como ser trabalhadora e preguiçosa, que sou. É possível ser-se um pouco de tudo, não somos apenas uma coisa só porque perante determinado cenário somos de certa forma.
Não digam a ninguém que está preocupado com alguma coisa, especialmente se for grave, para relaxar. É que toda a gente sabe que tem o efeito contrário, por isso eu vou achar que estão a fazer de propósito só para irritar.
Se uma pessoa confidencia que está preocupada com algo, menorizar o problema tentando-lhe dizer que tem que se acalmar não é de amigo. Dizer «isso não é nada, vocês estão a exagerar» não é de amigo. Não digam que mandam relaxar porque querem as pessoas calmas, não se enganem. Se querem ser amigos digam «de que é que precisas?» ou oiçam. Às vezes quando uma pessoa está preocupada a desabafar está só à procura de ser ouvida, não de ser aconselhada.

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Maternidade

Aproveitar é engodo

O que me irrita nesta cena do aproveita que depois eles crescem, a filosofia moderna da parentalidade e dos conselhos das recém-mães é que explora aquela fragilidade da melancolia de recordar um filho bebé.

Ter um filho é maravilhoso. Mas é uma altura de merda. Não conheço mais outra coisa na vida que seja tão de extremos, por isso é que é tão difícil. Porque é óptimo, nasce-nos o filho, sangue do nosso sangue, a nossa cria, um bebé, o ser mais fofo e lindo do mundo e nós, as mães, quais lobas, só queremos lambê-lo, mimá-lo, guardá-lo. Mas nasce-nos também a mãe, a maluca, a cansada, a quero estar aqui, mas quero fugir, a que tem saudades de comer cereais ao jantar a beber uma mini e ver uma série. Então nasce a cisão, o bom e o mau, duas metades da mesma vida, duas metades do mesmo espelho, dentro de nós, na nossa sala, na nossa vida. E por isso, às vezes estamos lá a olhar para aquele ser lindo, maravilhoso, nosso, porra, ainda é parte de nós, ainda há dias lhe cortavam o cordão umbilical que era da minha carne, mas não estamos, porque estamos a chorar o banho que não tomámos, a série que não vimos, a noite de copos a que não fomos, a reunião de trabalho a que faltámos, o cinema a que não fomos, o restaurante novo que não conhecemos, a barriga que nunca mais teremos, o estar sozinha sem se sentir só. Algures depois desta merda toda passar, um dia dias depois, ou meses ou até anos, vemos uma foto dessa altura que foi tirada no segundo bom, aquela foto dele a dormir, lindo, pacífico, tirada momentos antes de se chorar de novo encostada à parede da cozinha porque deixámos cair o telemóvel e ele acordou com o barulho, momentos antes que já não existem, que a memória apagou porque esquecemos tudo, nesse dia olhamos para a foto de paz daquele ser que amamos, que está maior, que já não é bebé, e queremos voltar e temos saudades. E as saudades vestem o casaco da culpa e dão à luz a ideia de que não aproveitámos, afinal, temos tantas saudades. Então mandamos aproveitar quem pode, esquecidas que não se aproveita só se vive e que as saudades são só saudades e temo-las de tudo. Eu também já fui assim. Perdi-me nas fotos do meu filho bebé e pensei que não o tinha cheirado, não o tinha aproveitado, que passei o tempo todo preocupada com ele, com o sono, com a vida. E prometi aproveitar, deitei-me grávida todas as noites e prometi aproveitar os meus filhos que nasceriam daí a pouco, comprometi-me a ser melhor, a aproveitar tudo até o que se esquece. E  depois eles nasceram e nasci eu de novo, a mãe, a maluca, a cansada. Que só os quer a dormir, que tem saudades de estar sozinha, sem estar só. E não aproveitei.

Um dia, esta, a mãe, a cansada, leu alguém mandá-la aproveitar, que eles crescem, que eles saem do colo, que eles depois não nos querem. E cansou-se desta vida de António Variações, só estou bem aonde não estou, só quero aquilo que não tenho, só sei que é bom depois de passar, só sei que devo aproveitar quando o tempo já partiu. Não. Eu aproveitei. Eu mimei, eu lambi as crias, eu adormeci-as ao colo, eu admirei-as. Mas eu também chorei, quis fugir, quis gritar. Tenho saudades deles mais pequenos, tenho saudades de eles se aninharem, tenho saudades de serem só meus, de os descobrir nos olhos acabados de abrir e de lhes dizer a mamã está aqui, a mamã está aqui, não vou a lado nenhum. Mas aproveitei, e não vou deixar que saudade nenhuma me tolde a vista. Gozei e não vou deixar que ninguém se aproveite da fraqueza da saudade para me dizer que não aproveito tudo. Eles crescem, felizmente. Aproveita. Tem um filho, ama-o, lembra-te que és capaz de tudo e o tempo faz o resto.

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Maternidade

Neste dia

Na primeira foto, em 2016, grávida de 40 semanas certas, confiante que o fim da seca da gravidez estava para breve e que iria conhecer o meu amor rápido. Não esperei muito mais, foi no dia seguinte. A ideia era tirar uma foto no ano seguinte, no mesmo dia, e mostrar a minha espectacular recuperação pós-parto, aquela que na altura estava empenhada em ter. A segunda foto, é a tal, no mesmo dia, em 2017. Grávida, de gémeos, de 21 semanas, na recuperação pós-parto menos aconselhável de sempre. A promessa ficou então para o ano seguinte, ou seja, para hoje. E como tantas outras promessas, fica por cumprir. Não há foto porque também já não há ilusões. Não há foto porque não recuperei como queria, não há foto porque não estou como antes queria estar hoje. Isto da aceitação é um processo e a maior parte do tempo não estou preocupada, sei que tenho tempo e gosto-me assim. É verdade que já fui mais magra, já tive a barriga lisa, mas também é verdade que não me gostava, queria mais disto e menos daquilo, vivia numa insegurança típica da idade e da falta de juízo. E a confiança também é bonita. Mas também tenho dias em quero lá saber se as maleitas de que me queixo foram consequência de fazer crescer três bebés, quero as barrigas lisas que vejo a banhos. Quando prometi fotos impossíveis achava que recuperar no pós-parto era sobre o peso, mas aprendi que é sobre não maldizer este corpo que nunca me deixou, nunca fraquejou. Pode estar dois números acima do habitual, três acima do que quero, mas nunca me deixa, nem quando a cabeça desliga e alma precisa de descanso. Um corpo que acorda automaticamente e embala, que sem lhe pedirem licença aguentou duas gravidezes no espaço de 9 meses, o corpo que fez nascer e alimentou três bebés e esteve em esforço, em risco. Recuperar nos pós-parto é agradecer. Não dá para fotos, mas dá para recordar. Há dois e um ano estava assim, grávida. Hoje estou feliz.

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Gémeos

Marias Bitaites — Twin’s Edition

Então e as Marias Bitaites aumentam ou diminuem com gémeos?

Acertaram: aumentam! E são mais simpáticas ou prestáveis? Não, no geral são acometidas pelo mesmo grau de falta de sentido das restantes.

Vamos a isso: Marias Bitaites — Twin’s Edition:

A obcecada com a ideia de que toda a gente quer ter um menino e uma menina

«Ai são um casal? Acertou mesmo!»

E agora: digo, não digo, digo, não digo? Será que se lhe disser já tenho um rapaz era vai achar que lixei as contas de boys vs. girls e obriga-me a tentar a segunda menina para equilibrar isto? Aiii, gente, isto de ter filhos é uma corrida para a composição de famílias com o mesmo número pessoas de cada género e eu não sabia….

 

A que acha que as gravidezes gemelares entram na definição de catástrofe

«Está grávida de gémeos? Ai que horror.»

Foi o que o primeiro espermatozóide que encontrou um óvulo disse quando percebeu que havia mais um. É que passou a vidinha a dizer que era só um óvulo e que ganhava quem chegasse primeiro, “and there can be only oooone” gritava ele no aquecimento, e vai-se a ver havia prémio para o segundo também e uma pessoa fica com o discurso motivacional estragado.

 

A que gosta de levantar o astral

«Olhe era pior uma doença!»

Tem dias que trocava bem uma constipaçãozita daquelas que é só ranho pelo coro dos pequenos cantores quando estão com a nena, mas não diga a ninguém.

 

A que teve quase-gémeos

«Eu sei o trabalho que dá, eu não tenho gémeos, mas tenho quase gémeos que eles têm muito pouca diferença, não chega a dois anos.»

É, de facto é a mesma merda. Eles tinham que mamar ao mesmo tempo e fizeram a introdução alimentar ao mesmo tempo, não foi? São gémeos, mas falta-lhes qualquer coisa, deixa cá ver se descubro o que é: SEREM GÉMEOS.

 

A que sabe tudo sobre gémeos porque conheceu uns em 1985

«Aquilo de os gémeos se darem bem é falso, sabia? Eu tinha uns colegas na turma que eram gémeos e não se podiam, andavam sempre à bulha.»

Eu também tinha uma colega com olhos verdes na turma que era badalhoca, if you know what I mean.

 

A poupadinha que não sabe fazer contas

«Olhe deixe lá, sempre poupa, assim é tudo ao mesmo tempo.»

Sim, temos poupado imenso: cinema, fins-de-semana fora, jantares fora e, claro, sono, afinal tínhamos imenso em dia então agora cortámos nisso.

(Pessoas, com gémeos não se poupa nada sem ser a gravidez! Não dá para poupar leite, fraldas, roupa, carrinho, cadeiras do carro, PORRA NENHUMA. Nem na paciência dá para poupar, continuo sem pacienciazinha para parvoíce, vejam lá!)

 

A que chumbou a estudo do meio

«— Ah são iguais?

— Não.

— Então não são gémeos!»

Pois não. Os gajos lá da maternidade disseram-me isso, mas eu disse logo para o meu Manel, olha, homem, eles não são nada iguais e ainda por cima são menino e menina, são lá agora gémeos, prefavor. Além disso, há dias uma senhora no minipreço também me disse o mesmo.

 

A geneticista de trazer por casa

«Os meus também dizem que são gémeos porque são muito parecidos.»

Sim, também ouvi dizer que São Paulo é cidade gémea de Coimbra. Say whaaaat?

 

A inspectora-geral de viação gemelar

«Ai este carro é frente a frente, porque é que não tem um lado a lado? São tão mais giros, assim podíamos ver os meninos.»

Ai, mas onde é que estava esta Doutorada em Puericultura quando eu precisei dela, heim? Olha, querida, comprei este PORQUE DEPOIS DE MEDIR A PORTA DE CASA, A PORTA DO ELEVADOR, O ESPAÇO NA MALA E A MINHA CARTEIRA FOI O QUE DEU.

 

A twin dreamer

«Sempre quis ter gémeos, sempre. Sempre mesmo desde pequenina que tinha duas bonecas e tudo e dizia que eram as minhas gémeas, a sério, queria tanto.»

Não vou dar ‘tá?

 

A que não cala a puta da boca

«Ai que giro, que giro, gémeos, sabe, olhe, deixe-me dizer-lhe, eu tenho uma prima em terceiro grau da parte do meu avô paterno que também tem e é um máximo. Isto foi assim, ela não conseguia ter filhos, fez imensos tratamentos e nada. Então, depois, naturalmente, sem tratamento, ela fica grávida. Muita felicidade, mas também cheia de medo que isto depois uma pessoa entretanto já tem idade e mais que idade e não é para ter filhos, está a ver? Então vai e faz a ecografia e tudo bem, a médica não diz nada. Então vai e faz a segunda eco ou terceira, ai já não me lembro, mas pronto, foi fazer outra eco e faz e descobre que são dois. E toda a gente acha que é por causa dos tratamentos, mas não é, é porque corre na família, a avó da nossa bisavó também tinha tido e diz que salta uma geração por século! Eu também podia ter tido, mas pronto calhou-lhe a ela. São mesmo giros os dois bebés. É….»

Por favor, porque é que eles não choram quando uma pessoa precisa? Juro, esta gaja diz mais uma palavra que seja e eu belisco a Leonor de propósito, a sério, desculpa, miúda, mas já me morreu um neurónio desde o início desta conversa.

 

A sensorial

«Eles sentem as coisas ao mesmo tempo?»

Sim. Há dias o irmão mais velho atirou um brinquedo ao ar e ambos choraram quando lhes caiu em cima. Eu fiquei tão emocionada e disse logo pó meu marido: «GÉMEOS, ELES SENTEM TUDO AO MESMO TEMPO. AI CA LINDO».

 

A detective de infertilidade

«Então e são naturais?»

Não. São sintéticos. Eu até sou pelo biológico, juro que sou, mas era tão mais caro… não dava mesmo. Então disse, vai do sintético, é plástico, mas pronto, também é plástico de longa duração, faz menos mal ao ambiente.

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Gémeos Maternidade

Quando a vida tem outros planos para os planos que tinha para a vida

Comecei a escrever o blogue porque quando engravidei dos gémeos tive medo e fiquei em pânico e não encontrei nada que me falasse a verdade. Leio muitos blogues, não lia muita coisa sobre maternidade, mas passei a ler desde que tive o Gonçalo e quando procurei como orientar uma casa com três bebés maioritariamente só via coisas lindas e textos enormes como a ligação dos irmãos é óptima. Não lia o que está por detrás das fotos lindas, a vontade de fugir e a verdade sobre gravidezes não planeadas. Depois criei o blogue e na dúvida de assumir ou não quem era, decidi mostrá-lo a toda a gente e agora tenho pudor de escrever determinadas coisas porque a grande maioria dos que me lê, conhece-me. Bastou-me contar a minha história e dizer que a gravidez dos gémeos não foi sequer planeada e que chorei quando os soube a crescer dentro de mim sem pedir licença para aparecer logo quem me dissesse que não devia dizer isso, que parecia mal. Pode parecer mal, mas ter um filho não planeado não é a mesma coisa do que ter um filho planeado. Não, não estou a dizer que se ama diferente, estou só a dizer que não é a mesma coisa. Ter gémeos não planeados com um filho com pouco mais de um ano, não é a mesma coisa que ter um filho planeado. Eu gostava de ter lido isto, por isso é que o escrevo. Hoje sei que chorei porque os amei assim que soube. Hoje sei que foi medo de não lhes poder dar tudo o que um filho meu merece. Filho meu não chora para se habituar e não fica na cama a gritar porque tem que aprender a dormir sozinho. Filho meu tem colo, tem mimo, tem leite, tem sestas ao colo e namoro de final de dia. Uma para dois, para três.

Foi de dias como hoje de que tive medo. Dias em que só parecem querer chorar, que tenho que ir tomar banho e fechar a porta para não os ouvir chorar se acordarem porque se os ouvir sairei mais uma vez a correr, molhada, a escorregar pelo chão, a pingar o soalho que depois terei que limpar, para pôr a chucha, ou acabar a trocar a fralda enrolada na toalha, não, fecho a porta, não demoro mais de 5 minutos, se chorarem choram 5 minutos, mas tem que ser, eu preciso de um banho, eu vou ficar louca. Foi destes dias de que tive medo, de deixar o cansaço vencer, de deixar chorar, não para se habituar, não para aprender, mas para esperar. E foi das noites como de anteontem, em que todos choravam, todos queriam colo e mimo. E foi das escolhas de todas as noites, do shiii por favor não acordes o teu irmão, em que a abanamos a cama, em que corremos para a sala, o mais longe para os irmãos não acordarem, não acordes os teus irmãos por favor, por favor. Ou de quando dou por mim a pedir a bebés um segundo, por favor eu só quero um segundo para acabar isto, ou quando abano a espreguiçadeira com mais força e tenho que me afastar e respirar e lembrar-me de que tu és bebé, tu não sabes, tu não tens culpa. As mães têm que ter colo sempre para os seus bebés, tem que aproveitar que eles crescem e depois não a querem, mas foi desta vontade de os ver grandes sem me quererem de que tive medo. Foi desta vontade absurda de dormir de que tive medo. Foi desta vontade de mandar tudo e todos à merda e fugir de que tive medo.

Mas aquilo que não li e hoje sei é que basta respirar fundo, um segundo de silêncio de todos,  reenquadrar e tudo fica mais fácil. Não acredito em Deus, mas acredito no carma. Não acredito em Deus, mas quando o Duarte nasceu sem respirar, naqueles segundos que pareceram horas de tortura prometi que se ficasse tudo bem e se os tivesse todos bem, seria tão sã quanto uma mulher, quanto uma mãe, consegue ser, e nunca me queixaria. Sabia bem que me queixaria, mas nunca a sério, nunca a sério. Prometi e prometo todos os dias em que grito que só quero um segundo e que fujo para o banho.

A todas as que procuram saber como é ter filhos não planeados: não é a mesma coisa que ter um filho planeado, não é. Mas não é mau. Tive medo de olhar para eles e culpá-los de me tirarem tempo do Gonçalo, tive medo de desejar que eles não existissem. Mas nunca os culpo, e já não há um mundo em que eles não existam. Às vezes penso “porque não esperaram mais um ano?” e outras em que lhes pergunto se não podiam ter vindo um de cada vez. E quando acordo de hora a hora à noite ou quanto tenho que adormecer com brown noises para poder dormir senão tenho o coro dos pequenos cantores, mas em mau, também não consigo ser positiva, mas a verdade é que tomo sempre banho a correr. Mesmo quando fecho a porta, tomo banho a correr. Mesmo quando digo, chega, nunca chega, nunca acho o off deste botão de lhes querer bem, de os querer com o melhor.

Esta gravidez não planeada foi a vida a borrifar-se na minha agenda e a fazer planos por mim. E, repito, não é mau. Nos últimos meses descobri uma mulher que não imaginava ter dentro de mim, descobri uma força que não conhecia e acho que cheguei a uma espectacular fase da vida em que verdadeiramente estou-me cagando para o que outros pensam e para o que deve ser. Quando planeei tudo planeei que ele só teria o melhor. O melhor é não ver televisão antes dos dois, é só fazer jogos didáticos, é brincar com a terra, ter contacto com a natureza. Mas depois chove e o shopping é fixe que não chove lá dentro e a Masha o Urso cala-o. Então fiz o que não deve ser, mas culpada, sempre com a carregar a mala da culpa, sempre em pensar que não era o melhor. E depois vieram os gémeos, aquele descuido que virou acontecimento, aquele não plano que virou evento. E eu descobri-me. Na loucura, no caos, apareceu a Ana, a mãe. Que sabe que não devem ver ecrãs antes dos 2 anos, mas que também acha que é melhor lanchar antes de tratar deles e por isso sim, eles vão ver patrulha pata para ficarem calados, dez minutos enquanto lancho. Porque se lanchar, serei melhor. Se lanchar brinco com eles na muda da fralda, se tiver fome vou fazer tudo a correr e deitar tudo a perder. No fundo é igual, mas sem culpa. No fundo, faço igual, mas com desculpa. No fundo, desespero tanto quanto desesperei antes, mas agora já sei.

Se tens uma gravidez não planeada lê isto e sabe que talvez alguns dos teus piores medos se concretizem. Outros nunca. Respira fundo, todos os dias e depois arregaça as mangas. Nunca me esqueço do que abdiquei e abdico todos os dias por eles, mas todos os dias tomo de novo essa decisão de consciência. Talvez fique mais fácil. Agora não é fácil, mas não é mau. Agora não é fácil, mas nunca é impossível. E todos os dias é bom. Todos os dias é muito bom. Não foram um plano, mas são uma vida.

 

[Este texto tem quase três meses, deixei-o a marinar para só o publicar quando tudo ficasse melhor. Hoje está tudo melhor. Hoje não foi um dia mau. Ou eu é que já não estou mal.]

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Maternidade Tudo e Nada

Os amigos desaparecem depois de teres filhos

Ouvi isto muitas vezes antes de ser mãe. Há uns tempos li este artigo sobre amizades que terminam depois de se ter filhos.

 

Um filho representa uma grande mudança na nossa vida, não tenho dúvidas sobre isto. As nossas prioridades mudam, os nossos horários são diferentes e claro, a nossa disponibilidade não é a de outrora.

 

Para mim qualquer relação dá trabalho, e a amizade não é excepção. Não é um trabalho de esforço, é um trabalho natural, mas envolve sempre cedências. E como tal, depois de ser mãe acho que há trabalho de ambas as partes para manter a amizade, mas não é impossível.

 

Os meus amigos não desapareceram. As minhas amigas não foram a lado nenhum (nunca vão). Quando fui mãe, elas estiveram lá, ainda que não ao meu lado, à distância de um telefone, com uma emoção genuína, que nunca esquecerei.

 

Desde então tive falta em muitos eventos, mas não sinto que tenha mudado nada. Dá trabalho? Claro que sim. A eles agradeço adaptarem-se aos meus horários, fazerem o esforço de me vir visitar sempre que podem, de me perdoarem não estar em cima de todos os acontecimentos, como antes. Eu tento não perder conversas de WhatsApp e organizar-me para estar com eles. Não é fácil, mas tento. O ano passado fui a uma despedida de solteira grávida dos gémeos. Custou-me, só me apetecia estar na cama a dormir, mas queria muito estar com elas e fiz o esforço. E adorei.

 

Nós na despedida. Eu ainda tinha medo de anunciar a gravidez e então colocava-me estrategicamente a esconder o pancil 🙂

O artigo que li falava do facto de os amigos não perceberem que os recém-pais quando têm tempo livre preferem passá-lo a dois ou a dormir em vez de ir sair com os amigos. Percebo bem isto. A verdade é que depois de ter filhos a vontade de sair à noite desapareceu, todo o meu tempo livre por mim era passado no cinema ou a dormir. Mas sempre que faço o esforço de sair, não me arrependo. E as minhas amigas percebem-me, não escondem que gostavam que eu pudesse participar em mais coisas, mas nunca me cobraram a mudança das minhas prioridades, perceberam e tentam sempre amenizar o impacto que isso tem nas nossas vidas. As amizades vivem dos momentos que passamos juntos, da vida que partilhamos, mas sobrevive fases mais distantes se houver esforço de compensar isso.

 

Claro que há coisas que só os amigos com filhos percebem, e com eles as nossas combinações passam a ser mais fáceis, é um facto. Eu e o meu marido temos a sorte de ter amigos bem próximos que estão na mesma fase da vida que nós. E na verdade até fizemos novos amigos depois de sermos pais, precisamente porque passámos a ter outras coisas em comum com outras pessoas.

 

No entanto, do círculo das minhas melhores amigas eu sou a única que já tenho filhos. É claro que às vezes gostava que elas percebessem melhor os meus dramas, mas nem por isso senti que não estão capazes de conselhos ou de perceber o que passo. Quando desesperei no pós-parto do Gonçalo foi com elas que falei tantas vezes porque embora não tivessem nenhum conselho milagroso típico de mãe, também não tinham nenhum julgamento: nunca me disseram que era por eu estar a dar de mamar assim ou pôr a dormir assado. Ouviram-me, disseram que não imaginam o que é, deram força e namoraram o meu bebé como tias babadas que são. Se eu as tivesse excluído de alguns queixumes, se tivesse pensado que elas nunca me entenderiam só por não serem mães, nunca tinha percebido que isso não é verdade.

GAM com quase 4 meses. Amigas de uma vida.

 

Há uns dias uma das minhas amigas mais antigas veio visitar-nos, ainda não conhecia os gémeos. Já tivemos mais de um ano sem nos ver, somos amigas há mais de 15 anos. Não caímos na farsa de ficar amigas com conversas de WhatsApp intermináveis com promessas de cafés que nunca acontecem e perguntas esporádicas de «está tudo bem?», não, falamos de tempos em tempos por WhatsApp como se nos tivéssemos visto naquele dia «viste aquele trailer?», «sabes quem é que se vai casar?» com a presunção de proximidade física típica de outras eras da nossa relação. Ela veio e passou cá a tarde, falámos enquanto os miúdos dormiam, enquanto lanchavam, enquanto lhe demos banho. Ela ajudou, tirou fotos, esperou e foi assim, em movimento, que fomos pondo a escrita em dia. Apesar de já não estar com ela com calma há meses sem ser em comemorações onde não há muito tempo, parecia que os tempos em que nos víamos todos os dias tinham sido ontem. Claro que se eu pudesse tinha ido ao cinema com ela como fazíamos antes e ela também o teria preferido, estou certa. Mas a minha nova realidade não impediu uma boa tarde entre amigas.

 

As amizades não têm porque acabar depois dos filhos. Mas é preciso ter vontade que isso não aconteça. Não sou a melhor amiga do mundo, tantas vezes me esqueço de coisas importantes, são muitas as conversas que perco e outras tantas as coisas a que tenho que falhar, mas tento ter sempre algum tempo e entendo os amigos como prioridade, nunca como item prescindível. Tiro tempo para os meus amigos, cuido deles como melhor sei e como melhor posso. Não posso esperar que a vida deles mude para me acomodar, tento incluir-me quando posso, excluir-me quando não dá e pedir adaptações sempre que sinto que não é demais. De cedência em cedência a coisa compõe-se e não sinto problema que a distância – que veio bem antes das crianças – não tenha há muito trazido.

 

Os amigos a sério ficam. Os amigos a sério nunca vão.

 

Quando os gémeos nasceram foram quinze dias para os cuidados intensivos. No fim-de-semana a seguir a terem nascido eu já estava em casa. Uma das minhas melhores amigas queria passar para me dar um beijo quando eu estivesse em casa e eu confessei-lhe que não me apetecia ver ninguém. Estava preocupada com eles, mas sobretudo triste por não os ter comigo e tinha um circo hormonal dentro de mim, só me apetecia chorar. Ela disse que não importava e que ficava para outra altura. Saí para ir ver os gémeos à UCIN, deixei o Gonçalo com os meus pais e irmã e quando cheguei a casa tinha um ramo de flores em cima da minha cama com um bilhete. Ela tinha ligado à minha irmã, pedido para passar enquanto eu estivesse fora porque não me queria ver para não se impor. Deu um beijo ao Gonçalo, ofereceu-lhe um presente e deixou-me flores e umas palavras. Chorei quando (a) li,  feliz com a surpresa, a receber o abraço que me quis dar e arranjou maneira de entregar, mas sem estar surpreendida porque conheço bem aquela amiga, pessoa com quem conto a toda a hora. Isto é amizade, daquelas que não vai a lado nenhum. É este o trabalho que dá, que não é grande esforço quando se gosta, mas que é tudo quando se precisa.

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