Depois do fim

Faço listas por tudo. Faço listas para tudo. Mas isto não dá para pôr numa lista, entendes? Não consigo escrever na lista “mentalizar-me que aconteceu” logo ali por baixo de «responder aos e-mails». Às vezes ainda o oiço. Quando a minha avó morreu demorei dois anos a apagar o número dela do telefone. Não sei porquê, mas deixei o numero dela ali, “Vó”. Olhava para ele quando precisava, sem precisar, pois sempre o soube de cor. Não posso pôr na agenda, não dá para estudar isto. Os dias nascem, a vida continua. Nós até ousamos ser felizes. Sorrimos. Gozamos a vida. Às vezes fazemos de conta que estamos a lidar bem com tudo, falamos dele, agimos em conformidade. Mas há coisas que não entram na rotina. Os clichés encaixam: as saudades matam, penso em si todos os dias, quem me dera que visse isto.     «Depois do fim Os meus mortos visitam-me regularmente. Demorei a dar por eles. Não tenho religião que me valhe ou guie, e acreditava que os mortos morrem no momento em que morrem, espera-os uma nuvem, uma labareda, ou só a terra onde se deitam a dormir para nunca mais. Demorei a exigir que não … Continue a ler Depois do fim