Gémeos Maternidade

Dos últimos dias: hospitais, médicos, mediquês e culpa materna


Dizem que a maioria dos blogs morre nos primeiros seis meses. Este aproxima-se vertiginosamente desse marco e eu ponderei matá-lo nestes últimos dias. Continuo a gostar da ideia e gosto de escrever e acho que é um bom palco para exercitar esse gosto, mas dá trabalho e eu não tenho tido agenda para esse trabalho. Depois lembro-me que tenho para cima de 20 posts quase escritos, sobre temas que acho que interessam, e vou encontrando pessoas que me dizem que gostam de me ler e da «minha história» e arranjo forças. Não te deixarei morrer, Três antes dos Trinta. Vamos a isso.

O acontecimento do último mês foi o internamento da Leonor. Quando os gémeos fizeram quatro meses fomos às vacinas e no centro de saúde entenderam por bem não vacinar porque os gémeos estavam com uma bronquiolite. Err… Bom, eles estavam ranhosos, o Gonçalo tinha estado e eu também e pensei que era só isso. Mas uma bronquiolite? Dificuldades respiratórias? Mais um chumbinho para a mala que carrego comigo para todo o lado, a Culpa Materna. Mala que ficou ainda mais pesada quando me apercebi que a minha primeira reacção foi pensar «Então e as vacinas que comprei? Posso guardar, certo?». Sim, claro que fiquei preocupada com eles, mas tinha dado 320 € pela vacinas e quase que chorei de imaginar que teria que as comprar de novo.

Voltámos para casa e mediquei e tratei-os como aconselhado. Cinco dias depois, o Duarte estava muito melhor (ele que inicialmente estava mais afectado) e a Leonor começou com uma tosse irritativa que a fazia vomitar o leite todo. Falámos com uma amiga Pediatra, que trabalha com o Pediatra que segue os nossos filhos, e por conselho de ambos seguimos para as urgências com a Leonor. Nas urgências confirmou-se que tinha muitas secreções e tentámos dar um biberão que pouco depois veio todo para fora. Decidiram então interná-la para que ficasse a soro. Depois de a puncionarem para introduzir o cateter do soro apanhei um dos maiores sustos da minha vida: a Leonor teve um ataque de tosse impossível, começou a ficar roxa, sem reacção e as enfermeiras voaram com ela. Fiquei a vê-las a afastarem-se a correr pelo corredor para a porem na máscara de oxigénio. Não foi muito tempo, ela voltou a si e ficou com cor exactamente no momento em que lhe colocaram a máscara, mas fiquei a vê-las afastarem-se, sem perceber o que se estava a passar ao mesmo tempo que percebia o que se passava. Senti que o mundo parou, o meu coração parou e era capaz de jurar que sustive a respiração durante aqueles segundos. A Leonor ainda repetiu estes episódios de ficar roxa mais umas quantas vezes e foi por isso que foi continuando internada. Depois normalizou, começou a conseguir expelir a expectoração e a aceitar o biberão. No final do 5.º dia de internamento perguntaram-nos se nos sentíamos confiantes para ir para casa e nós devemos ser extraterrestres porque dissemos que não. A Leonor ainda tinha vomitado nesse dia e tinha tido um episódio de dessaturação na noite anterior e tínhamos medo de que ambos se repetissem. Tínhamos a família do avesso, o Gonçalo a dormir com os avós alternamente o Duarte também a ir ficar com os avós para nós podermos trocar, o Pedro a ter de ir trabalhar, queríamos muito sair do hospital, mas achámos que fazia sentido ficarmos mais uma noite, e se de manhã a evolução se mantivesse boa, voltarmos para casa. E assim fizemos. Senti-me extra zelosa e algo croma, mas acho que foi a decisão sensata. Em casa não tínhamos oxigénio, nem soro e preferi ficar mais uma noite do que entrar em pânico a meio da noite e voltar às urgências. A equipa médica acolheu com surpresa a nossa decisão, mas disseram que fazíamos bem se nos deixava mais confortáveis.

Fiquei mais uma vez impressionada com a qualidade da equipa de médicos e enfermeiros que nos acompanharam. Simpatia, cuidado, carinho e competência. A partir do momento em que entrei nas urgências senti-me minúscula como se nada soubesse. Já o tinha sentido noutras ocasiões, mas com os nossos filhos tudo é exponenciado. Eu considero-me uma pessoa informada e uma mãe capaz, tenho formação superior, mas a partir do momento em que a coisa fica séria e há monitores, fios e palavras estranhas, sinto-me uma analfabeta, impotente e frustrada por não dominar nada do que se passa. A nossa amiga Pediatra não nos deixou durante todo o tempo, foi o anjo da Leonor, cuidou dela e de nós (trouxe-me lanche tantas vezes, deu-me boleias) e o mais importante: traduziu o mediquês. Eu sou tradutora jurídica, tirei direito e fui advogada por isso também falo essa língua estranha e intricada que é o direito e trabalho a passá-la para outra língua. Sei bem que quem está de fora também desespera de não perceber o jargão próprio do meio jurídico e desde que me dedico à tradução sou especialmente sensível a estrutura cerrada da linguagem que critico porque muitas vezes não é necessária e só serve para criar um afastamento entre as pessoas e os seus assuntos (há até quem diga que é intencional, para que haja necessidade de recorrer a um advogado). Por isso reconheço com facilidade esta linguagem à parte, o mediquês, que só o pessoal médico e de enfermagem percebe e aplaudo os que fazem o esforço de nos explicarem do que falam em termos que consigamos perceber sem ter de fazer 33 pesquisas no google. Devo dizer que não nos faltou gente acessível, profissionais que nos explicaram sempre tudo de forma prática e perceptível, mas acho que não é demais fazer um apelo para que nunca se esqueçam que não há momento de impotência e fragilidade maior do que quando estamos num hospital à espera de que nos digam o que temos. E se é mau connosco, é completamente desorientador com os nossos filhos. Atenção que a nós, pais, iletrados da medicina, também nos cabe participar e perguntar. Sinto que fico tão atrapalhada e quero tanto respeitar o espaço para que possam trabalhar bem que por vezes não pergunto tudo o que quero e esqueço-me de pedir que me expliquem o que estão a fazer. Não há que ter prurido em dizer que não entendemos isto ou aquilo, parece-me que muitas vezes os próprios médicos não percebem que não estão a ser entendidos, temos que os avisar.

É horrível aquela sensação de entrar no hospital, e não controlar nada de nada. Naquele momento, com senti na maternidade e noutras alturas em que lidei com emergências médicas, voltar a sentir a mesma admiração por aqueles que lá trabalham. Nada do que fiz ou farei profissionalmente se pode alguma vez assemelhar. Admiro muitas profissões, admiro muitas pessoas que se dedicam a fazer bem pelos outros, mas não nutro admiração maior do que aquela que sinto por médicos e enfermeiros. São os meus heróis. Se há médicos que têm o rei na barriga e acham que são maiores que outros porque são médicos? Oi, se há. Se percebo? Sim. Salvam vidas, gente. É capaz de ser algo que suba à cabeça.

Eu sei que desde o dia 1 que entrei no Pediátrico só me trataram bem. Senti que a minha filha teve ao dispor os melhores cuidados médicos e isso é mais do que muita gente pelo mundo fora pode dizer. Tento nunca me esquecer a sorte que tenho por os meus não terem doenças graves e por ter acesso a bons cuidados de saúde gratuitos. Não sou propriamente um arquétipo da solidariedade, mas acho que também não sou a pessoa mais egoísta do mundo, e é de facto impossível ficar indiferente ao que vemos num hospital pediátrico. A todos os que passam um inferno de tempo com os filhos no hospital, a minha vénia, não imagino o que seja. E a todos os que não precisam de recorrer a um hospital pediátrico, nunca se esqueçam que é (também) para isto que descontamos tanto neste país.

Uma última nota para mandar à fava aquelas pessoas que quando dizemos que os putos estão doentes respondem coisas como «ai eu não sei que isso é, a minha nunca esteve doente, nunca precisei de ir às urgências». Eu não sabia, mas desde que sou mãe percebi que isto às vezes parece uma corrida. Há medalhas para as mães cujos putos nunca estiveram doentes, queres ver? Ai, digam lá, acham que eu quero mesmo que eles fiquem doentes? Que raio de conforto é que esperam dar? Quando não há nada de bom para dizerem, não digam. Desejem as melhoras, é simples e eficaz.

A Leonor já está em casa há praticamente uma semana e está como nova. Está mais gordinha de novo, hoje já parece ter as suas bochechas de volta e quase já nem tosse. Já bebe o biberão todo de volta e quem a vê ninguém diria que esteve 5 noites no hospital. É uma forte.

Oh she’s little, but she is fierce.

 

 

 

5 Comments

  • Silvia Carvalho

    Ana, fico muito feliz por a Leonor estar bem! Já passou, foi só um grande susto. Àquelas mães que nunca tiveram que ir às urgências com os filhos, sorte a delas! Já basta sentirmos esta “culpa materna”, não precisamos de receber bitaites de “super mães”! Um beijinho muito grande

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  • Rita Pires

    Olá Ana
    Tenho vindo todos os dias à espera de mais peripécias do dia-a-dia e estranhei está ausência mas associei somente à correria do dia-a-dia.
    Fiquei triste por vocês. Claro que agora estão bem, ou melhor vá, mas fiquei triste. Ter os filhos doentes é das coisas mais difíceis de lidar, o sofrimento e a impotência… Espero que a pequena guerreira recupere o que falta rapidamente 🙂

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    • Ana Sousa Amorim

      Mas a ausência foi sobretudo pela correria do dia-a-dia! A Leonor já está óptima. Obrigada pela preocupação e pelo carinho <3

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  • manela

    Concordo totalmente com a tua análise do “mediquês”. O ” velho médico João Semana” utilizava o vocabulário corrente para se fazer entender… os novos e jovens “experts” da nossa praça esquecem muitas vezes que não estão a prestar provas perante um júri e pecam por falta de sensibilidade. Claro que há exceções… e para esses vai o nosso muito obrigada por todo o carinho demonstrado.

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