Maternidade Passear

Ir de férias e não levar o filho

Há cerca de um ano estava a embarcar para Punta Cana para uma semana tudo incluído sem filhos. O Gonçalo tinha 10 meses, quase 11, e decidimos passar férias sem ele.

Na altura houve muita gente que me disse que não conseguia fazer férias sem filhos. Uns porque não tinham onde deixar os filhos e outros porque não conseguiam deixar os filhos (devo dizer que a maior parte das vezes consegui ouvir um tom de «como é que consegues deixar o teu filho tão pequeno, não tens saudades, que espécie de mãe és tu?»).

Na altura em que marquei as férias não sabia que estava grávida, descobrimos entretanto e como a viagem estava paga não deixámos de ir. A minha obstetra disse que preferia que eu tivesse férias em Portugal, mas que, estando a viagem paga, não havia porque não ir. Fui grávida de 15 semanas e obviamente tive alguns cuidados: além dos alimentares que já tinha porque não sou imune à toxoplasmose, não bebi nada sem ser água engarrafada por causa do gelo, não estive junto de águas paradas por causa dos mosquitos e não andei de barco por causa da trepidação. De resto, não tive mais dificuldades.

Aquela mão na barriga para que deixar claro que estava grávida e não com o pior pós-parto da história

Preferia ter ido não estando grávida, porque poderia aproveitar mais. Estava naquela fase absurda de sono, só queria dormir e não podia beber à vontade (já nem digo álcool, com aquele calor um sumo de fruta com gelo ter-me-ia sabido muito bem), mas foi bom porque descansámos muito.

Foram as nossas primeiras férias sem filho (e as últimas, parece-me, pelo menos durante uns anos). Ir sem ele foi uma necessidade para nós e não tivemos problemas em assumi-la. Não está minimamente relacionado com o amor que temos por ele e ou a vontade que temos de estar com ele. Além disso, ir para um destino tropical com tudo incluído com um bebé de 10 meses pareceu-nos parvo. Teríamos que ter uma série de cuidados com a alimentação (ele ainda não comia tudo o que nós comíamos), teríamos que ter horários diferentes (não o quereria na praia na hora do cancro, ao passo que nós fazemos dias completos de praia, só saímos para almoçar), teríamos de o aguentar em voos de 8 horas e aquela paz de não ter que cuidar de ninguém e poder ler descansada não existiria.

Aquele 3 para 2 de que temos muitas saudades

Claro que só foi possível porque temos os avós com quem o deixar e em casa de quem ele já estava habituado a ficar.

Não é fácil, claro que me passaram sempre coisas pela cabeça como ele ficar doente e precisar de mimos da mãe ou o nosso avião cair e ele ficar órfão (sou hiper-dramática), mas tentei sempre ser positiva, esperar o melhor e preparar-me para eventualidades. Deixei indicações para praticamente tudo (até para a hipótese do avião cair, a verdade é essa), pedi para me ligarem fosse o que fosse, deixei indicações do número do pediatra, recordei o que fazer em caso de febre e outras maleitas (como se os meus pais e sogra nunca tivessem cuidado de um bebé, pedi desculpa pelo ridículo, mas falei de tudo na mesma), estabelecemos horários para falar (ajustámos os fusos e combinámos horas em que todos teríamos disponibilidade para conversar via skype) e fomos.

Fui descansada, não vou dizer que fiquei preocupada com ele porque não fiquei. O Gonçalo andava doido para andar, sempre a pôr-se em pé e eu fui convencida que ele ia dar os primeiros passos quando estivéssemos fora. Mas nem isso me angustiou, sabia que faz parte. A verdade é que ele não  está na creche, tinha passado a maior parte dos seus dias só comigo e com os avós e eu precisava muito de descansar, repor baterias e preparar-me para o maior desafio da minha vida: os três.

A verdade foi que o Gonçalo não começou a andar, mas sim a gatinhar. Quando estivemos fora começou a gatinhar e recebeu-nos de gatas a dirigir-se para a porta. Mas, ao contrário do que havia imaginado e sonhado durante os dias em que estivemos fora, não ficou feliz de nos ver. Amuou e não olhou para mim durante praticamente um dia após termos ido. Ficou chateado, como quem queria dizer «Então deixas-me?». Durante a semana que estivemos fora, portou-se lindamente, dormiu bem como habitual, comeu ainda melhor — o relato foi fantástico.

Eu diverti-me e aguentei muito bem até meio da semana. A partir de quarta-feira entrei em modo depressão. Chegou até a ser motivo de uma leve discussão com o meu marido que estava farto de me ouvir queixar que tinha saudades dele e que dizia que eu não estava a aproveitar (ele prefere não falar, mas eu sei que também estava a ficar angustiado).

E ver outros bebés? Ui que angústia!! Quando ouvia um bebé a chorar parecia o meu e ficava logo toda chorosa…

Mas adorei, diverti-me e correu tudo bem. Mesmo muito bem.

Infelizmente sei que nem todos têm a sorte de poder contar com os avós como eu. Mas também sei que há quem tendo não se sente capaz de lhes confiar os filhos tanto tempo. Salvaguardando o óbvio, que é que todas as famílias são diferentes e têm dinâmicas diferentes e que eu tenho muita sorte em ter uma grande sintonia com os meus pais e a minha sogra, também devo dizer que existe um quê de relaxamento da nossa parte que faz com que tudo funcione. Os avós têm a dinâmica deles e as regras deles e fazem como entendem e como funciona. Foi nessa premissa que deixámos o Gonçalo e acho que é um dos motivos pelos quais funcionou. Não deixei indicação nenhuma (sem as de emergência que indiquei) nem proibição alguma. Expliquei as rotinas, como ele dormia, como fazia, mas disse sempre que deviam fazer como achassem que funcionava melhor.

A todos os que sentem que precisam de tempo sem filhos e até têm vergonha de dizer: eu percebo. Há uma pressão social para não admitirmos isto e até vejo alguma crítica dos que o fazem como se fossem insensíveis ou frios. É parvo. É tão bom ter saudades deles.

 

Ficam então as minhas dicas para férias sem filhos:

  • Escolham um destino que tenha internet com facilidade, gratuita e se não houver gratuita certifiquem-se que existem pacotes de internet e comprem. Preferíamos ter ido a Cuba, mas a verdade é que na ponderação entrou a falta de acessibilidade à Internet e achámos que tínhamos mesmo que ter Internet para receber actualizações constantes. É verdade que queríamos férias sem ele, mas sabíamos que íamos morrer de saudades e íamos querer receber milhares de fotos e vídeos.
  • Confiem em quem deixam as crianças. Se escolheram deixar é porque confiam, se confiam, confiem por inteiro. Como expliquei, não acho que funcione (ou que seja sequer justo) impor coisas a quem nos toma conta das crianças. Tudo tem limites, e não estou a defender que se deixe fazer tudo, mas em casa a televisão pode estar proibida e em casa dos avós não, por exemplo. Eu não faço finca-pé de praticamente nada (só a nível alimentar é que tenho as minhas picuinhices). Acho mesmo que há relações dos pais com avós algo desequilibradas mais porque os pais não são capazes de abrir mão de certas coisas do que propriamente vontade dos avós em chatear (como vejo tantas vezes descrito).
  • Se são do meu estilo e pensam em todos os cenários terríveis e acharem que ficam mais calmos por deixar todas as hipóteses salvaguardas, façam isso mesmo, não liguem aos que dizem que é drama e que é pensar no pior e traz azar. Não digo deixar um testamento, mas falar com uma pessoa de confiança e dar-lhe indicações de como resolver determinadas coisas caso o pior aconteça, a mim acalma-me e fi-lo sem sensação de telenovela. É como um seguro de viagem ou saúde, a ideia é não usar, mas se acontecer é melhor ter.
  • Não pensem que os miúdos vos vão esquecer, rejeitar ou nunca esquecer que os deixaram. Eles são esponjas, adaptam-se e podem amuar, mas depois passa-lhes. Com amor tudo se faz. Eu expliquei ao Gonçalo, embora ele fosse pequeno, que íamos e quando voltámos disse-lhe que fomos de férias, que foi bom e que tínhamos morrido de saudades dele. Disse-lhe isto várias vezes até que ele ao final de umas horas lá começou a voltar a ele e a ficar todo mamã de novo. Passado dois dias estava como sempre.
  • Levar a tralha toda atrás para casa dos avós pode ser um drama, mas pode ser importante para manter o ambiente. No nosso caso, como o Gonçalo já tinha dormido em ambas as casas, não levámos nada demais sem ser roupa, banheira e pouco mais (um brinquedo ou outro). Mas vivemos todos próximos uns dos outros e deixei a chave de nossa casa para a hipótese de lhes faltar algo.
  • Ponderem se faz bem ao miúdo ver-vos via skype. No nosso caso ele não quis saber de nós, ignorava o skype. A internet foi importante para nós vermos vídeos e fotos, e falarmos com os nossos pais e com a minha irmã e não tanto para «directos».
  • Vão sem peso na consciência. É possível eles serem o melhor do mundo e precisarmos de férias deles, sim. Sim, não trocava a minha vida por outra, não queria voltar atrás, mas adoro estar sem eles. Não há mal nenhum nisto.

Como também não há mal nenhum em não querer fazer férias sem eles por não se sentirem capazes e não sentirem que precisam. Não há mal nenhum em nada, todos somos diferentes. Digo isto porque também me irrita esta vontade constante de dizer aos pais o que devem fazer, o Gonçalo devia ter um ou dois meses quando começaram a dizer-me que devíamos deixá-lo para fazer algo, que a vida não são só filhos e que é importante os pais retomarem a sua vida, mimimimi. Cada um sabe de si. Nós precisávamos, meses antes talvez não fizesse sentido ir tanto tempo, mas naquela altura já precisávamos de uma semana sem ele. Como precisamos agora, mas a logística não nos permite. Melhores tempos virão e talvez ainda volte às férias sem filhos!

4 Comments

  • Paula Almeida

    Até o meu filho fazer mais ou menos dois anos as férias para fora foram sempre sem ele. Deixei sempre com a minha sogra que confiava plenamente. Morria de saudades, mas para ele era cansativo e nós precisávamos desse tempo, do descanso. Nunca me senti culpada.

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    • Ana Sousa Amorim

      Precisamente. É bom para todos, na verdade. Quando voltamos, voltamos renovados. 🙂

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  • Joana Silva

    Concordo com tudo! Sou mãe de um menino com 12 meses (lindo, claro!!) e este ano decidimos passar uma semana de férias sem ele. Vamos para a Grécia e achamos que não fazia sentido ele vir connosco. Não ia ser bom para ele, nem para nós. Fica com os meus pais, que também adoram a ideia de poderem passar mais tempo com o netinho 🙂
    Parabéns pelo blogue!

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    • Ana Sousa Amorim

      Obrigada:) Sim, é mesmo isso. Já foram ou ainda vão! Boa viagem e aproveitem 😉

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