Gémeos Maternidade

Quando a vida tem outros planos para os planos que tinha para a vida

Comecei a escrever o blogue porque quando engravidei dos gémeos tive medo e fiquei em pânico e não encontrei nada que me falasse a verdade. Leio muitos blogues, não lia muita coisa sobre maternidade, mas passei a ler desde que tive o Gonçalo e quando procurei como orientar uma casa com três bebés maioritariamente só via coisas lindas e textos enormes como a ligação dos irmãos é óptima. Não lia o que está por detrás das fotos lindas, a vontade de fugir e a verdade sobre gravidezes não planeadas. Depois criei o blogue e na dúvida de assumir ou não quem era, decidi mostrá-lo a toda a gente e agora tenho pudor de escrever determinadas coisas porque a grande maioria dos que me lê, conhece-me. Bastou-me contar a minha história e dizer que a gravidez dos gémeos não foi sequer planeada e que chorei quando os soube a crescer dentro de mim sem pedir licença para aparecer logo quem me dissesse que não devia dizer isso, que parecia mal. Pode parecer mal, mas ter um filho não planeado não é a mesma coisa do que ter um filho planeado. Não, não estou a dizer que se ama diferente, estou só a dizer que não é a mesma coisa. Ter gémeos não planeados com um filho com pouco mais de um ano, não é a mesma coisa que ter um filho planeado. Eu gostava de ter lido isto, por isso é que o escrevo. Hoje sei que chorei porque os amei assim que soube. Hoje sei que foi medo de não lhes poder dar tudo o que um filho meu merece. Filho meu não chora para se habituar e não fica na cama a gritar porque tem que aprender a dormir sozinho. Filho meu tem colo, tem mimo, tem leite, tem sestas ao colo e namoro de final de dia. Uma para dois, para três.

Foi de dias como hoje de que tive medo. Dias em que só parecem querer chorar, que tenho que ir tomar banho e fechar a porta para não os ouvir chorar se acordarem porque se os ouvir sairei mais uma vez a correr, molhada, a escorregar pelo chão, a pingar o soalho que depois terei que limpar, para pôr a chucha, ou acabar a trocar a fralda enrolada na toalha, não, fecho a porta, não demoro mais de 5 minutos, se chorarem choram 5 minutos, mas tem que ser, eu preciso de um banho, eu vou ficar louca. Foi destes dias de que tive medo, de deixar o cansaço vencer, de deixar chorar, não para se habituar, não para aprender, mas para esperar. E foi das noites como de anteontem, em que todos choravam, todos queriam colo e mimo. E foi das escolhas de todas as noites, do shiii por favor não acordes o teu irmão, em que a abanamos a cama, em que corremos para a sala, o mais longe para os irmãos não acordarem, não acordes os teus irmãos por favor, por favor. Ou de quando dou por mim a pedir a bebés um segundo, por favor eu só quero um segundo para acabar isto, ou quando abano a espreguiçadeira com mais força e tenho que me afastar e respirar e lembrar-me de que tu és bebé, tu não sabes, tu não tens culpa. As mães têm que ter colo sempre para os seus bebés, tem que aproveitar que eles crescem e depois não a querem, mas foi desta vontade de os ver grandes sem me quererem de que tive medo. Foi desta vontade absurda de dormir de que tive medo. Foi desta vontade de mandar tudo e todos à merda e fugir de que tive medo.

Mas aquilo que não li e hoje sei é que basta respirar fundo, um segundo de silêncio de todos,  reenquadrar e tudo fica mais fácil. Não acredito em Deus, mas acredito no carma. Não acredito em Deus, mas quando o Duarte nasceu sem respirar, naqueles segundos que pareceram horas de tortura prometi que se ficasse tudo bem e se os tivesse todos bem, seria tão sã quanto uma mulher, quanto uma mãe, consegue ser, e nunca me queixaria. Sabia bem que me queixaria, mas nunca a sério, nunca a sério. Prometi e prometo todos os dias em que grito que só quero um segundo e que fujo para o banho.

A todas as que procuram saber como é ter filhos não planeados: não é a mesma coisa que ter um filho planeado, não é. Mas não é mau. Tive medo de olhar para eles e culpá-los de me tirarem tempo do Gonçalo, tive medo de desejar que eles não existissem. Mas nunca os culpo, e já não há um mundo em que eles não existam. Às vezes penso “porque não esperaram mais um ano?” e outras em que lhes pergunto se não podiam ter vindo um de cada vez. E quando acordo de hora a hora à noite ou quanto tenho que adormecer com brown noises para poder dormir senão tenho o coro dos pequenos cantores, mas em mau, também não consigo ser positiva, mas a verdade é que tomo sempre banho a correr. Mesmo quando fecho a porta, tomo banho a correr. Mesmo quando digo, chega, nunca chega, nunca acho o off deste botão de lhes querer bem, de os querer com o melhor.

Esta gravidez não planeada foi a vida a borrifar-se na minha agenda e a fazer planos por mim. E, repito, não é mau. Nos últimos meses descobri uma mulher que não imaginava ter dentro de mim, descobri uma força que não conhecia e acho que cheguei a uma espectacular fase da vida em que verdadeiramente estou-me cagando para o que outros pensam e para o que deve ser. Quando planeei tudo planeei que ele só teria o melhor. O melhor é não ver televisão antes dos dois, é só fazer jogos didáticos, é brincar com a terra, ter contacto com a natureza. Mas depois chove e o shopping é fixe que não chove lá dentro e a Masha o Urso cala-o. Então fiz o que não deve ser, mas culpada, sempre com a carregar a mala da culpa, sempre em pensar que não era o melhor. E depois vieram os gémeos, aquele descuido que virou acontecimento, aquele não plano que virou evento. E eu descobri-me. Na loucura, no caos, apareceu a Ana, a mãe. Que sabe que não devem ver ecrãs antes dos 2 anos, mas que também acha que é melhor lanchar antes de tratar deles e por isso sim, eles vão ver patrulha pata para ficarem calados, dez minutos enquanto lancho. Porque se lanchar, serei melhor. Se lanchar brinco com eles na muda da fralda, se tiver fome vou fazer tudo a correr e deitar tudo a perder. No fundo é igual, mas sem culpa. No fundo, faço igual, mas com desculpa. No fundo, desespero tanto quanto desesperei antes, mas agora já sei.

Se tens uma gravidez não planeada lê isto e sabe que talvez alguns dos teus piores medos se concretizem. Outros nunca. Respira fundo, todos os dias e depois arregaça as mangas. Nunca me esqueço do que abdiquei e abdico todos os dias por eles, mas todos os dias tomo de novo essa decisão de consciência. Talvez fique mais fácil. Agora não é fácil, mas não é mau. Agora não é fácil, mas nunca é impossível. E todos os dias é bom. Todos os dias é muito bom. Não foram um plano, mas são uma vida.

 

[Este texto tem quase três meses, deixei-o a marinar para só o publicar quando tudo ficasse melhor. Hoje está tudo melhor. Hoje não foi um dia mau. Ou eu é que já não estou mal.]

7 Comments

  • Paula

    Eu tive uma gravidez não planeada de gémeos, um casal, mas os meus esperaram mais um ano. (Nunca em momento algum, nem nos sonhos, ponderei ou imaginei ter gémeos.) Quando nasceram a irmã estava a dias de fazer 3anos. Foi assustador porque a mais velha é um furacão, birras, gritos e choro. A minha sorte é que os repetidos (nome carinhoso) são uns anjinhos e passam o dia a dormir e a mamar.

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    • Ana Sousa Amorim

      Repetidos é excelente 🙂 Também nunca imaginei ter gémeos, tem dias que ainda nem acredito! Muitos beijinhos e felicidades

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  • Tânia

    Revejo-me em tudo o que disse!
    Fui mae com 29 anos de uma princesa Francisca e 9 meses depois descobri que estava grávida novamente! É uma gravidez que não foi planeada, mas acredito que vai ser amado/a de igual forma como a Francisca. Quando descobri não foi fácil, tudo me passou pela cabeça.
    Agora vai começar uma nova aventura daqui a alguns meses.
    Beijinho
    Tânia

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    • Ana Sousa Amorim

      Sim, vai ser amado/a de igual forma, mas as dificuldades são maiores e não há nada de mal em admitir isso. Força, mesmo, somos capazes de tudo. Muitos beijinhos

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  • Cláudia Santos

    Olá Ana! Os meus foram planeados, mas no singular. 😊 o susto de virem aos pares faz com que esses nossos receios aumentem. Há dias que parecem semanas, tal o cansaço e as dificuldades, mas depois começamos a ver o tempo que já passou (e os nossos têm muito pouco tempo de diferença) e apercebemo-nos que afinal até passa rápido e não tarda “não querem saber de nós”. 😄

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