Tudo e Nada

Sobre a festa do primeiro aniversário dos gémeos

Então sobre ontem: decidimos fazer uma festa de aniversário aos putos daquelas mais para adultos do que para crianças, embora parte do nosso grupo de amigos já se tenha reproduzido por muitos. Assumo sem pudor que o único motivo pelo qual avançámos com a festa foi pela conhecida síndrome «segundo filho» que nos leva a fazer as mesmas coisas que fizemos ao primeiro ainda que não haja vontadinha nenhuma. Decidi marcar cabeleireiro para contrariar a falta de cuidado dos últimos tempos. Já estava de pratas no cabelo quando me avisaram que a coisa ia demorar 4h. Portanto, ia sair dali à hora a que a festa começava. Não sabia se devia chorar ou rir. Enchi-me de coragem e mandei sms ao marido que pensou que estava a gozar. Ao menos levei o computador para trabalhar e não se perdeu tudo. 4h depois, bastante mais pobre e com um cabelo que não gosto porque quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré e nos outros balayages é chique, em mim ficou só parecido com madeixas dos anos 90 mas em mau, saí do cabeleireiro, corri para casa, e arranjei-me em exactamente em 10 min e 19s. Não cronometrei ao segundo, mas pus o Sinnerman da Nina Simone a tocar e vesti o casaco no preciso momento em que a música terminou. No Thomas Crown Affair é o tempo que leva a assaltar um museu, na minha vida foi o tempo que consegui roubar para me vestir e pintar, sempre sempre a safar. Depois de entrar no carro e de me enganar duas vezes num caminho que conheço desde os 15 anos, constatei que se calhar não posso passar tanto tempo sem andar de carro porque fico com a capacidade de andar na cidade de um turista. A viagem demorou dez minutos, aí ao oitavo o meu corpo disse-me «Ana, aparentemente sobreviveste 30 anos sem saber que para fazer coisas, nomeadamente conduzir, é necessário respirares, pelo que enfiares-te numa cinta que parece querer que os teus órgãos se unam para sempre é parvo». Tive de estacionar longe, porque os lugares perto estavam ocupados pelos convidados da minha festa, como é óbvio e irónico, e tentei correr para a porta. Aqui pensei: foda-se, eu tenho de ser estudada. Acho que sou um exemplo perfeito dos efeitos da privação de sono. A sério, eu era uma pessoa com uma boa capacidade de tomar decisões, acho mesmo que a perspicácia era uma das minhas melhores qualidades. Agora, só tomo decisões de merda. Tenho três filhos que não param quietos e decidi vestir uma saia lápis. Muito justa, o que não abona a favor da minha elegância, e com elasticidade que permite um diâmetro de ação tão reduzido que andar fica difícil, correr uma utopia. Juntei-lhe saltos altos. Objecto de estudo, definitivamente. Assim que pus o pé na festa pensei que o meu corpo ia entrar em paragem cardiorrespiratória, mas a primeira pessoa que me viu disse «estás tão linda» e a seguir o meu filho mais novo chorou quando olhou para mim, o que decidi entender como um elogio. Do depois nada mais há a dizer porque a tristeza torna-me poeta, o caos com a mania que sou engraçada e a felicidade muda.

2 Comments

  • Mamã Coruja

    Corajosa, para colocar uns saltos altos e uma saia justinha com 3 filhotes pequenos. Correr atrás deles deve ser uma missão impossível!

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