Tudo e Nada

Isto de ter filhos que chegam antes do tempo

O episódio de ontem de This is Us — que francamente já anda muito chachada — vale pela maneira brilhante como falam da prematuridade. Há uns meses, uma pessoa que não conheço, em conversa de circunstância, perguntou se os gémeos eram prematuros (porque muitos são). Respondi-lhe que sim e que estiveram 15 dias na UCIN. Respondeu-me que isso não era nada, a Pipoca Mais Doce tinha tido a filha um mês. Eu sempre soube que não era nada, mas também nunca entendi escalas de sofrimento e acho mesmo que só quem não teve os filhos nos cuidados intensivos é que é capaz de dizer algo desta forma da boca para fora. Os meus filhos nasceram a dias de serem bebés pré-termo, uma fase da prematuridade já muito boa. Nasceram com um bom peso para gémeos e prematuros. Estiveram dias na incubadora e uns meros quinze dias na UCIN. 15 dias passam a voar no Caribe, por exemplo. Ao décimo uma pessoa fica farta da comida do resort, mas fica triste quando chega a hora de voltar e o bronze desaparece em dias. Aqueles 15 dias foram uma vida. Sei de cor o caminho para lá, podiam vendar-me à entrada da maternidade e eu chegava sem chocar em parede alguma até à porta que diz UCIN. O cheiro a desinfetante que colocava nas mãos antes de entrar lembra-me o momento em que conheci os meus filhos. Lembro-me de todos os pormenores da sala onde estavam e se soubesse desenhar sabia fazer o retrato perfeito da mãe do nosso vizinho de sala embora nunca mais a tenha visto. Acho que há uma proteção qualquer associada à maternidade que me envolveu de uma certa inconsciência e me fez crer sempre que tudo ia correr bem. Eu tinha uma gravidez de risco e mesmo tendo tomado certas precauções, nunca esperei nada de mal. Mesmo na manhã em que me romperam as águas e percebi que talvez a coisa estivesse mesmo a acontecer, quando me disseram que estavam a tentar atrasar o parto e talvez conseguissem pelo menos que eles fizessem 35 semanas eu pedi o computador, o livro e preparei-me para ficar uma semana internada à espera. Fiquei 8 horas. Só quando os tiraram de dentro de mim e eu perguntei se os podia ver e me explicaram como se eu tivesse três anos que eles eram prematuros e iam para os cuidados intensivos é que eu percebi. Eles eram meus, mas não estavam comigo. Eu sei que eles estavam onde estavam melhor. Eu sei que era do que eles precisavam. Mas eu fui mãe e não tinha filhos. Eu fui levada para uma enfermaria e o meu marido chegou-me de lágrimas nos olhos a dizer que eles eram minúsculos. Eu pedi fotos e estranhei quando ele me disse que não conseguiu. Não conseguiu, como? No dia seguinte, mais de 24 horas depois, percebi. Eles eram horríveis. Eu vi os outros bebés de 800gr cheios de fios e arrepiei-me. Eu vi-os. Mas a primeira vez que olhei mesmo para um bebé prematuro foi quando olhei para os meus. Não tinham pestanas. Não tinham sobrancelhas. Tinham fios. Não choravam. Nesse dia fazia qualquer coisa como um ano, três meses e uns dias que eu tinha tido um filho que veio parar ao meu colo com minutos. Que mamou. Que chorou. Que abriu os olhos e levantou a cabecinha quando lhe trocava uma fralda na maternidade para espanto das enfermeiras que disseram «ai que tu estás cheio de pressa de crescer». Os meus filhos estavam separados de mim por um vidro e tinham um tubo enfiado pelo nariz porque se dependesse deles não comiam. Isto agora é bastante simples de lembrar, mas na altura era chocante. Era chocante não ter vontade de lhes pegar, afinal, eles eram meus. Mas a primeira vez que lhes peguei nos cuidados intensivos tive tanto medo de os partir, de lhes puxar um fio, de eles deixarem de respirar e eu nem sentir que não me lembro de aproveitar, só de me doer imenso a cicatriz da cesariana porque eu estava tensa. Ao terceiro dia tive alta. Foi fácil combater o sentimento de «devia ficar aqui na maternidade para estar próximo deles» porque tinha outro bebé em casa à minha espera que não via há 4 dias porque ele estava doente e achámos por bem não o levar à maternidade. O Pedro foi buscar-me e fomos diretos para casa da minha sogra onde ele estava. Há três dias tinha sido operada e tinha uma sutura que parecia uma faca espetada no baixo abdómen, mas saí do carro toda ligeira e subi mesmo não sendo preciso. Voei para ele e nunca hei de esquecer o que seguiu. Entrei no escritório e ele estava sentado ao colo da minha sogra. Eu disse «olá, meu amor» e ele olhou para mim, naquilo que me soube a desilusão, e olhou para o lado. Não quis vir ao meu colo (que ofereci, embora o Pedro me pedisse para ter cuidado e o meu corpo também). Não me sorriu. Estava chateado de eu o ter deixado aqueles três dias (ou os últimos meses). O meu coração partiu-se. Não tinha casa: não tinha nenhum dos meus filhos nos braços e falhava a todos. Àquele que não tinha como explicar o que se passava. Aos outros porque estava ali, longe deles, porque não extraía leite, porque estava a encomendar comida para almoçar como se nada se tivesse passado. Naquele momento nasceu a mãe de três que sou, a malabarista que serei, o resto da vida, sempre dividida, sempre a ponderar concessões. Senti-me como quando comecei a trabalhar e perante a minha primeira tarefa mais difícil no escritório pensei «eles acham que eu sei de direitos reais e eu fiz aquilo em erasmus». Não sabia minimamente como me safar. Eu sou de ação, queixo-me que me canso, mas estou sempre a pensar na solução. E aquilo estava a custar-me horrores, mas foquei-me no final. E como há uns anos, estudei. Li sobre como aumentar a extração de leite. Pus o despertador para as 2h e 5h da manhã para extrair leite. Voltei a trocar a fralda ao Gonçalo mesmo quando ele chamava pelo pai. E li sobre esta coisa de não sentir os meus filhos bebés, mas antes ratinhos. Não chorei um único dia daqueles dias em que todas as manhãs e todas as tardes fui para os cuidados intensivos. Mas ontem, quando via a reação do Toby na série pensei «este era eu». Podem ter sido só 15 dias, mas doeram. Custa-me ainda hoje pensar que quando vi os meus filhos não lhes quis pegar (mas peguei). Passa. E não sei se é ou não normal, mas é a nossa história. Hoje olho para eles e acho que nem consigo ver os bebés que eram. Mesmo depois de virem para casa eram tão pequenos e sem movimento que assustava porque parecia que não queriam reagir. Agora olho para as fotos e já não assusta. Olho para eles e só me lembro do aperto que foi pensar que podia correr tudo mal. Mas não correu, está tudo bem e são feridas que deixam marca, mas que saram. Afinal, foram só 15 dias, não foi nada.

4 Comments

  • Anónimo

    Também sou mãe de gémeos. Que nasceram de 31 semanas e estiveram semanas na neo.
    Senti todas essas coisas que descreves te, apenas com a diferença que o dia em que voltei para casa sem elas foi um dos pirores dias da minha vida!!
    Ao inicio sentia me mesmo mal, porque pensava que o nascimento delas dwveria ser a mekhor coisa de sempre, a aqueles dias de neo foram verdadeiramnete dolorosos!

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  • Sara

    Também sou mãe de gémeos. Nasceram de 35s, só um foi p a incubadora. 16 dias na Neo. O outro gémeo teve alta comigo ao fim de cinco dias. Nunca verti uma lágrima. Também sempre acreditei que tudo correria pelo melhor; mesmo tendo feito uma cesariana todos os dias guiava até ao hospital (o pai tinha de ficar em casa com o outro gémeo). Mas hoje custa me lembrar que não tinha vontade de pegar

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    • Ana Sousa Amorim

      e tu a mim… estas lembranças são dolorosas, mas são só isso. Falei muito com mães de gémeos que me relataram precisamente essa sensação de ter uma relação mais intensa com o gémeo que teve alta e apesar do transtorno que causa acho que faz parte e passa. Somos humanas, mas somos animais. E aquele contacto inicial é tão importante para o bebé como para a mãe. Mas o importante é ultrapassar a experiência da Neo com vida. O resto faz-se em casa. Beijinhos e muito obrigada pelo comentário que tão tardiamente devolvi

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  • Anónimo

    Mas hoje custa-me olhar para trás e lembrar que não tinha vontade de pegar no bebé cheio de fios, cateter e sonda. E a crua verdade é que até hoje tenho uma ligação maior com o gémeo que veio comigo para casa…
    Olha, já me fizeste chorar!

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