Tudo e Nada

O mais difícil de ser mãe

#1
O medo. Não vale a pena serem comichosos e vir falar de mães helicóptero e não deixar os miúdos viver que aviso já que não falo de ser chata, exagerada e cagufas. O mais difícil de ser mãe é o medo e não é medo pouco, é o pior, dos grandes. Eles nascem e nesse momento o nosso coração como órgão independente morre. Ele bate, mas só se outros baterem. Antes de ter filhos não tinha medo. Agora tenho medo que me morram. E temo-o tanto que nem me permito imaginá-lo, a minha mente é um sistema operativo em falência total com esse absurdo. Não há nada igual. A definição de puro terror é essa. Às vezes pergunto-me como vivem as mães com esse medo. Como acordam. Como adormecem. E depois lembro-me: fazem como eu, vivem com ele, ignoram-no, alimentam-no só na medida em que nos ajuda a tomar decisões e depois dizem-lhe que desapareça que temos muito que fazer. Mas está lá. E para mim é o mais difícil de ser mãe.
[às vezes estou a fazer uma coisa corriqueira e sem que o controle vejo o meu filho outra vez à porta da cozinha, roxo, sem respirar, engasgado na banana, e tremo das pernas, e apetece-me gritar e lembro-me de novo que foi um se, só um se, que nunca será é, mas o medo, já vos digo, o medo é pior de ser mãe]

#2
Depois do #1 tudo o resto é só o resto, nem parece merecer partilhar pódio. Há o pior e depois o resto. Mas continuando, acho que em segundo está ver irmãos a discutir. Já tive mordidelas muito feias, empurrões, pontapés, lançamento de objectos e insultos vários e são todos facas no meu coração. São comportamentos que sei ser até normais, sem frequência que preocupe e acho não podia pedir melhor relação entre os três, mas que há desentendimentos há e não há vez nenhuma que ainda que sem culpa não me sinta culpada, e mesmo sem ter falhado, não me sinta em falta. É uma merda. Nada sabe a bem, os dois lados são meus e eu sou dos dois, primeiro consolo ou repreendo? É ser mãe do agressor e do agredido. Dói a alma. Mais do que eles, tenho visto. E pronto, este é o dois.

#3
A três é a última ou a primeira das coisas que interessam mais ou menos: As noites. Já se sabe que a estas coisas não se faz publicidade, mas vou só adiantar que agora nem se está mal e adormecer então está perfeito, é não mexer. Mas este corpinho foi massacrado por noites em cima de noites em cima de noites dantescas, de torturar o mais rijo dos soldados. E as coisas que a gente vê quando fica a ver vermelho de sono, de raiva, de sono, de dor, de puro sono, de privação de não conseguir dar um passo sem que doa uma parte do corpo, o que a gente vê fica tatuado na alma. Ora um, ora outro, hoje é um que quer leite outro que que quer mimo e durante dias e dias fomos escravos do sono que nunca conseguíamos que fosse seguido. Tudo o resto é fácil perante isso. Fraldas? A sério? É a merda que vos assusta? Se fosse para dormir, até com uma fralda carregadinha de cocó ao lado eu dormia (e dormi). As birras? Também odeio, mas pronto, faz parte. Agora dar colo às 3h da manhã a um puto que está com medos depois de ter dado biberão e posto a arrotar outro, de pé há horas, sem dormir? Foda-se, foi tropa. Por isso é isso, não dormir.

E assim fica feito o mais difícil de ser mãe, até ver, por mim.

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