Tudo e Nada

Convulsão febril

Convulsão febril. Já ouviram falar? Penso que a definição científica da coisa é f-o-d-a-s-e. Há dias saí de casa para ir às compras e deixei os miúdos com o pai e quando voltei ele tinha umas olheiras tão fundas que parecia ter envelhecido dez anos e a voz sumida. Eu estava no fórum na fila para pagar numa loja — que coisa tão idiotamente corriqueira de se estar a fazer quando se fica sem chão — e recebo uma chamada que me lembro de incluir «vem imediatamente» «mas ele está bem?» «vem, por favor». Não sabia que era possível correr a chorar. Uns infindáveis 20 minutos e muitos semáforos vermelhos depois, cheguei a casa e vi o que nunca se quer ver: as luzes do inem à nossa porta. O meu filho mais velho teve uma convulsão febril. Num momento estava ótimo, no seguinte inerte nos braços do pai, a espumar e roxo, sem respirar. É uma reação benigna e não deixa sequelas, mas aparece mascarada da personificação do pior medo dos pais. Está tudo bem, ele está ótimo, foi só um susto e uma noite no hospital e agora já levamos a tabuada estudada: acontece a uma % diminuta de crianças até aos 6 anos, é uma reação do cérebro ainda imaturo à subida abrupta da temp, 1/3 das crianças que faz pode repetir noutro episódio de febre e por isso há que estar preparado (sem criar pânico à febre). Ficou o receio de que se repita, a memória qual cicatriz de uma cirurgia, e também ficaram algumas certezas: não há nada como o medo de perder um filho [nada]; escolhi o homem ideal para ser pai dos meus filhos [mais uma vez, o meu herói]; a minha amiga C. é o mais próximo de anjo que conheci [foram tantas as coisas que fez por mim só neste dia, uma pessoa que tira tempo antes de dormir depois de ter feito urgência (a de trabalho mesmo e a em minha casa) para me mandar artigos sobre a matéria é mesmo especial]; os meus vizinhos são boas pessoas e estenderam-nos a mão quando mais precisávamos como quem cuida dos seus, vivo em Coimbra porque vivermos a metros da família que nunca nos falha faz a diferença e estranho mundo este em que um hambúrguer do Mac via Ubereats me chega mais rápido que o INEM.

Rico filho, para com estes sustos, eu quero chegar aos 80 anos e assim fica difícil. #

Deixo as ligações que me foram enviadas pela pediatra sobre a matéria. São fidedignas, podem confiar. As recomendações que recebemos no hospital vão ao encontro destas (e foi receitado o medicamento referido para aplicação aquando de uma convulsão). É importante lembrar que cada caso é um caso e a opinião/avaliação médica é crucial. Eu não sou médica, não tenho QUALQUER formação na área da saúde, estou só a repassar informação que me deram e em que confio.

Fiz um papel com o resumo destas recomendações e com a nossa morada por extenso (e explicação) e coloquei num quadro à porta de casa. Parece exagero, mas a infelizmente já não é a primeira vez que precisamos de ligar para o INEM e na hora nem quem sabe bem a morada consegue dizê-la. Assim só temos de ler, além de que os miúdos podem estar com outra pessoa que não nós.

Outra coisa que fiz, por recomendação médica, foi criar o «kit convulsão» e espalhá-lo pelos sítios onde ele anda (escola, casa dos avós e mochila). Coloquei o medicamento a aplicar aquando da convulsão, um supositório Benuron e as referidas recomendações num pequeno envelope almofado.

Comprei termómetros novos e tenho dois de reserva porque o que tinha nem tinha pilhas (para verem como a febre era um não assunto cá em casa).

É o máximo de preparação que uma pessoa pode ter para uma coisa perfeitamente inesperada. É o que me acalma, não me acalmando nada.

Acho que todas as pessoas que passaram por isto percebem o nível de susto. A todos os que não passaram, espero que não o conheçam!

5 Comments

  • Cláudia Cecílio

    Olá, Ana!

    Olha (e desculpa tratar-te já assim por tu), vim dar com o teu blogue porque andava a fazer uma pesquisa sobre escrita (acabei o meu primeiro livro) e o teu blogue foi mencionado na página de alguém (não me recordo agora) e cá vim dar.

    Acho que é muito importante apoiarmo-nos uns aos outros e não quis deixar de te escrever, só no sentido de dizer:”Hei, eu estive aqui (to be continued..

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    • Ana Sousa Amorim

      Olá, Cláudia! Obrigada pelo comentário que eu só vi agora (não mantenho o blogue assim tão atualizado!).
      Que livro escreveste, onde posso encontrá-lo?
      Obrigada pelas palavras, fico contente de me teres encontrado.
      Estou mais assídua no instagram, mas espero voltar ao blogue em breve. Fica por aí (se já não tiveres desistido).
      Beijinhos

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  • Cláudia Cecílio

    Que chatice, esta coisa não me deixou escrever mais, tenho que continuar noutro post…seja!
    Não quis deixar de dizer “Hei, eu estive aqui!” (tipo aquelas frases das casas de banho) porque partilhamos o gosto pela escrita, pelos vistos, e quero dar-te os parabéns, primeiro, por escreveres, depois, pela forma como o fazes. You go girl!
    Ah, e claro, só podias ser uma mulher do norte 🙂

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  • Cláudia Cecílio

    3 antes dos 30, um blogue que manténs alimentado e, estou certa, 524237 outras coisas que fazes todos os dias.
    Parabéns e não pares.

    All the best 🦾

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