Tudo e Nada

Da liberdade de se estar triste

Não há direito a estarmos tristes. Não é crítica, até porque frequentemente apanho-me na mesma armadilha, afinal é por amor que o fazemos: vejo que a tristeza é recebida sempre com ataques. É urgente combatê-la. Desejamos ânimo. Muitas vezes recordamos as comparações que nos põem sempre em lugar de privilégio, quase ingratos por oposição. Lembramos as coisas boas, como se os outros as tivessem esquecido. Dizemos piadas, sedentos de sorrisos e gargalhadas. Mas a tristeza não vai. A tristeza costuma ser imune a tamanhas façanhas.

Ninguém diz «eu sei, deixa a tristeza entrar». Não quero me julguem masoquista, má nas horas livres, sem empatia. Por isso não o digo também. E não partilho quando a tristeza me toca. Não quero receber ânimo, já sei que não se fica. Fecho a tristeza na minha casa, instalo-a no sofá da sala. Deixo-a entrar. Convido-a para um café. Pergunto-lhe «então, que te traz cá?» às vezes cansada de saber a resposta, outras com curiosidade genuína de quem se surpreendeu com a campainha. Mas deixo-a entrar porque mesmo quando lhe dou ânimo, quando tenho calma, quando lhe digo piadas, quando a enxuto com o bem que tenho e o bem que quero, ela entra e até faz mais mossa do quando a assumo, quando a desconstruo, quando lhe explico que em casas felizes há sempre dias sem luz.

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