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Ana Sousa Amorim

Maternidade

How long? Forever

Às vezes (não muitas que não sou muito delicodoce, nem aqui nem no dia-a-dia) olho para os meus filhos e penso como são irremediavelmente a melhor coisa da minha vida, a coisa melhor que já fiz. Nada, absolutamente nada que fizer daqui para a frente será tão bom como os meus três. São o meu melhor trabalho e não me terminam, mas quando a melancolia ataca é impossível não pensar que devia poder encapsular este tempo em que a vida não nos incomoda, em que as preocupações se eles vão ser ou não boas pessoas não nos assolam, em que o medo de eles serem bullied ou bullies não entra e em que eles são só perfeitos e eu completo-me só assim sem me lembrar da vida que sou para lá deles.  Esta capacidade de apreciar o que tenho é o melhor que eles me deram: eu, eterna insatisfeita, corredora de sonhos e desapaziguadora de planos perenes, às vezes só quero dizer “não mexe, está perfeito, vamos ficar assim para sempre”.

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Séries Tudo e Nada

This is me

Há dias perguntavam-me como é que eu tinha tempo para ver séries. No fundo, não tenho. Ontem, às 9h30 adormeci o último bebé acordado e estava livre. Trabalhei quase uma hora, às 22h20 estava toda lampeira no sofá pronta ver o regresso de This is Us quando descubro que os cabrões da Fox Life trocaram o prime time para as 23h10. Ora, era óbvio que devia pegar neste corpinho admoestado por semanas de privação de sono e atirar com ele na cama, mas liguei de novo o computador, continuei a trabalhar com a desculpa que compensava de manhã e dormia um pouco mais como se eu tivesse licença dos meus filhos para dormir até tarde. A Leonor, depois de ter feito uma noite de pausa no seu mestrado em «aterrorizar as noites dos meus pais», pediu desculpa por vacilar e dormir uma noite de doze horas. «Não se preocupem, não volta a acontecer». Quando terminei a série, corri para a cama, deitei-me e estava no parlapié com o Pedro a dizer que sim senhora, adoro a série, sim senhora há coisas que já não são o mesmo, mas sim senhora aquilo é tv de qualidade, quando a Leonor diz «queres ver o que é tv de qualidade, mãe?» Esgar. Chucha. Esgar. Chucha. Choro. Chucha. Trago-a? Leite? Gritos. Gritos. Ok, porra, trá-la antes que ela acorde os irmãos. Grande merda, devia ter vindo para a cama quando pude. A série não é assim tão boa. Disse para o Pedro: «Olha vai para o sofá da sala, isto vai ser difícil e tu precisas de descansar». Muito embalo, passeio e transferências para a cama sem sucesso depois, ponderei se não estaria com a fralda suja e eis que descobri que estava cheia de chichi no body (não perceptível debaixo das calças e collants). Ai filha, desculpa, a mãe troca-te já a roupa. O Pedro volta da sala porque a bem dizer também não se consegue adormecer quando existe alguém a gritar como no Psycho e trocamos a fralda debaixo de várias ordens de desespero um para o outro. Terminamos a operação e agora ela está tão possuída pelo demo que urge dar-lhe um biberão para acalmar a franga. A menina malha os seus 210 ml de leite por entre tosses e ranhos e no fim aceita finalmente ficar na cama ao lado da nossa sem chorar, a ver TV. Pedro vai para a sala, eu tento dormir com a luz da TV, ela que adormeça quando lhe apetecer. Antes de adormecer só penso «não sei como é que os irmãos não acordaram com o chavacal que ela montou». AI CARALHO, PORQUE É QUE PENSAS ESSAS COISAS, ANA, PORQUÊ? Aproximadamente dois segundos depois recebi uma SMS do Duarte a dizer «lol, mãe, lol» e por SMS quero obviamente dizer através de gritos histéricos de quem não come há três horas, mas sente que passaram 20. E depois de lhe dar o biberão que constatámos, adivinhem lá? Que o puto também estava molhado! Ora, mais uma troca/tortura básica capaz de acordar a terra, lá adormeceu. Não trocámos nem uma palavra, ele voltou para o sofá, nem ousei sequer pensar no mais velho e no estado semi-comatoso em que é preciso uma pessoa estar para não acordar com aquele nível de putedo, porque já acredito em tudo e acho que os meus filhos me lêem os pensamentos. Deitei-me eram quase duas da manhã e desmaiei. Pouco depois, meio a dormir desliguei a TV pois a miúda já tinha adormecido também. Passei a noite a acordar para lhe pôr a chucha. Conclusão: this is me, até vejo séries, mas claramente não devia.

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Tudo e Nada

2018

Adoro balanços de fim de ano. Sou uma pessoa que funciona por objectivos por isto aproveito esta altura — e a dos meus anos — para alinhar as coisas. Ou era. Porque nos últimos anos o lema foi «going rogue». Sou organizada e pessoa de regras, mas a melhor que instituí foi se as listas ficarem por fazer, que fiquem, se a organização se furar, que fure e se o caos quiser entrar, abrir-lhe-ei as portas. Não vos vou dizer que foi o ano que quis. Teve muitas coisas boas. Superámos imensa coisa. Ajudaram-me muito para poder descansar uns quantos dias e passear outros. Tenho fotos lindas. Mas não se fotografa a saudade. Não saí do país. Não dormi. Não fui a um único concerto, nem a uma peça de teatro. Fui só quatro vezes ao cinema. Faltei a ajuntamentos vários de amigos. Tenho três livros há meses na mesinha de cabeceira que quero mesmo ler e nem os abri. Continuo com a dissertação por entregar. Ainda não fiz a minha Master Class do Aron Sorkin. Chorei rios de água. Desesperei. Tive vontade de atirar os meus filhos à parede porque nalgumas noites de cansaço vi tudo vermelho. Mas joguei ao esconde-esconde com a loucura e continuo a ganhar, sei onde ela está e deixo-a lá. Agarrei-me ao sol que nasce sempre, mesmo nos dias mais feios. Saí para dançar duas noites apenas, eu que adoro tirar o pó dos ossos. Passei 6 noites fora com o meu marido sem filhos, precisava de 20. Discuti muito com ele, mais do que em toda a nossa vida e às vezes por coisas que não valiam dois segundos. Não mandei aquela pessoa que me disse que eu precisava de emagrecer «pelo Pedro também» à merda e às vezes lembro-me. Assim como não mandei a pessoa que no shopping me disse para não tirar fotos à Leonor de capacete e tapar o arnês com roupa. Já sei que me vão mandar não pensar nestas pessoas, mas quando uma pessoa está frágil, esconder as lágrimas por comentários estúpidos custa. Por isso em 2019 vou mandar mais pessoas à merda e chorar menos, prometo. Prometo também tentar não trabalhar aos fins-de-semana e namorar mais. Não quero mais filhos, mas quero mais destes.

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Tudo e Nada

Sabes lá, porra, sabes lá

Já me disseram uma vez quando me queixava da logística que sabiam como era e eu não disse, mas pensei para mim «sabes lá, porra, sabes lá». É, eu já tive só um filho, e as coisas mudam, mas fiz uma viagem de carro 13h com ele, outra de avião, viajámos sem ele, saíamos de casa quase todos os dias e jantava fora frequentemente com ele e sem ele. Com dois bebés quando tenho um almoço de família preciso de dois minutos no espelho da casa de banho a dar-me uma pequena pep-talk com muitos «tu consegues, Ana, é só sair de casa, não é andar de avião, são 4 km, não é esta merda que te vai deitar abaixo e ter o esgotamento”. A logística de ter gémeos é um inferno que devia dar para colocar no CV como demonstração de grande capacidade de conformação, logística, mediação de conflitos, e por aí fora. Já nem falo do dinheiro (lágrimas), mas da logística, o não poder pegar num ao colo e correr para dentro do restaurante sozinha, porque há outro à espera no carro  é daquelas coisas que só mesmo quem passa é que sabe. Eu nunca sonhei com este mundo, aliás, nunca levei a sério as vezes infinitas que o meu pai dizia que eu ou a minha irmã íamos ter gémeos atendendo à genética que possuíamos, e quando pensava nisso só pensava «ui, não é para mim». E de facto, não é. Porque a verdade é que em vez de fazer face às adversidades, suar e dizer asneiras, eu eliminei-as. É difícil viajar? Não viajamos. É difícil jantar fora? Nunca o faremos. É difícil almoçar todos os fins-de-semana com amigos? Passará a ser de quatro em quatro meses. Foi o caminho que encontrámos para manter a sanidade e não aceito que ninguém o critique porque os sapatos podem ser bonitos, mas quem anda com eles sou eu. Sabes lá, porra, sabes lá.

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Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba

Passar-me da marmita com fases naturais dos filhos

Ora, eu já sabia que as crianças têm uma tendência incrível para aprender a dizer não e a repeti-lo ad aeternum. E lembro-me de ver determinadas pessoas passarem-se com os nãos constantes das crias e pensei, cheia de ideias positivas sobre a mãe que ia ser e ainda não era, que eu ia aceitar e perceber que é só uma fase. Pois, disse nunca e agora pumba. Diálogo de há dias:
– Gonçalo, anda lá, porque é que não queres sopa, é a mesma do almoço e está óptima…
– Não.
– Então e queres arroz?
– Não.
– E queres fruta?
– Não.
– E se eu puser os carrinhos a dar?
– Não.
– Queres ir brincar então e não jantas?
– Não.
– Queres ir dormir?
– Não.
– Bolas, filho, o que é que tu queres?
– Não.
[ponho os carrinhos, come a sopa toda]
[não foi bolas que disse, mas a minha mãe pediu-me para deixar de dizer as asneiras com F e com C, por isso coiso]
[olha, não vos consigo deixar assim na dúvida, desculpa, mãe, mas foi foda-se que disse]

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Tudo e Nada

Sobre a festa do primeiro aniversário dos gémeos

Então sobre ontem: decidimos fazer uma festa de aniversário aos putos daquelas mais para adultos do que para crianças, embora parte do nosso grupo de amigos já se tenha reproduzido por muitos. Assumo sem pudor que o único motivo pelo qual avançámos com a festa foi pela conhecida síndrome «segundo filho» que nos leva a fazer as mesmas coisas que fizemos ao primeiro ainda que não haja vontadinha nenhuma. Decidi marcar cabeleireiro para contrariar a falta de cuidado dos últimos tempos. Já estava de pratas no cabelo quando me avisaram que a coisa ia demorar 4h. Portanto, ia sair dali à hora a que a festa começava. Não sabia se devia chorar ou rir. Enchi-me de coragem e mandei sms ao marido que pensou que estava a gozar. Ao menos levei o computador para trabalhar e não se perdeu tudo. 4h depois, bastante mais pobre e com um cabelo que não gosto porque quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré e nos outros balayages é chique, em mim ficou só parecido com madeixas dos anos 90 mas em mau, saí do cabeleireiro, corri para casa, e arranjei-me em exactamente em 10 min e 19s. Não cronometrei ao segundo, mas pus o Sinnerman da Nina Simone a tocar e vesti o casaco no preciso momento em que a música terminou. No Thomas Crown Affair é o tempo que leva a assaltar um museu, na minha vida foi o tempo que consegui roubar para me vestir e pintar, sempre sempre a safar. Depois de entrar no carro e de me enganar duas vezes num caminho que conheço desde os 15 anos, constatei que se calhar não posso passar tanto tempo sem andar de carro porque fico com a capacidade de andar na cidade de um turista. A viagem demorou dez minutos, aí ao oitavo o meu corpo disse-me «Ana, aparentemente sobreviveste 30 anos sem saber que para fazer coisas, nomeadamente conduzir, é necessário respirares, pelo que enfiares-te numa cinta que parece querer que os teus órgãos se unam para sempre é parvo». Tive de estacionar longe, porque os lugares perto estavam ocupados pelos convidados da minha festa, como é óbvio e irónico, e tentei correr para a porta. Aqui pensei: foda-se, eu tenho de ser estudada. Acho que sou um exemplo perfeito dos efeitos da privação de sono. A sério, eu era uma pessoa com uma boa capacidade de tomar decisões, acho mesmo que a perspicácia era uma das minhas melhores qualidades. Agora, só tomo decisões de merda. Tenho três filhos que não param quietos e decidi vestir uma saia lápis. Muito justa, o que não abona a favor da minha elegância, e com elasticidade que permite um diâmetro de ação tão reduzido que andar fica difícil, correr uma utopia. Juntei-lhe saltos altos. Objecto de estudo, definitivamente. Assim que pus o pé na festa pensei que o meu corpo ia entrar em paragem cardiorrespiratória, mas a primeira pessoa que me viu disse «estás tão linda» e a seguir o meu filho mais novo chorou quando olhou para mim, o que decidi entender como um elogio. Do depois nada mais há a dizer porque a tristeza torna-me poeta, o caos com a mania que sou engraçada e a felicidade muda.

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Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba

Ser desleixada com a minha aparência

Lembro-me de estar grávida e estar a ver um daqueles artigos beras que tenho vergonha de admitir que abro com fotos de celebridades na rua de fato de treino todas descabeladas e pensei «não vou deixar de me arranjar». Arranjar-me é especialmente importante para mim que trabalho em casa e sei a importância de não deixar de ter determinados comportamentos sob pena de virar ermita. E, no início, esforcei-me. Depois de ser mãe houve dias em que sucumbi ao pijama o dia todo e cheguei a descer de pijama para ir ao lixo, mas não me sentia minimamente desleixada. No entanto, logo logo após os gémeos percebi que desleixe ia passar a ser uma questão de sobrevivência em determinadas alturas. Quando o trabalho aperta, tenho de escolher prioridades e francamente as unhas não são uma delas. Aí, entra a engole-sapos: cabelo tão sujo que faz comichão preso num totó que me deixa o pescoço gelado como a minha alma, lenço antigão para aquecer o pescoço, camisolão de «andar por casa» que me lembra que noutra vida viajava, olhos que não vêem maquilhagem há tanto tempo que me perguntaram se estava doente, unhas dos pés feitas com gelinho preto há três meses (que decidi que sairá por via de crescimento, pelo que parece que tenho as unhas sujas de terra na medida em que só sobra o final tipo manicure francesa mas com preto) e unhas das mãos cortadas com corta-unhas quando topo que já ando a arranhar os putos. Não quero dar ar de mártir, «olha aquela, tadinha, agora não tem tempo, ficou feia» porque continuo a ir ao cabeleireiro, à manicure e à depilação, simplesmente não vou tanto como ia (e queria). Jamais me imaginei neste ciclo de nem-olho-para-o-espelho, sei-lá-o-que-tenho-vestido, tenho-o-cabelo-tão-oleoso-que-quase-fica-preso-sem-puxo, tanga-agora-só serve-para-descrever-uma-coisa-fraca, vou-só-lá-abaixo-não-preciso-de-pôr-soutien-claro-que-tinha-de-encontrar-4-pessoas-conhecidas. Disse que ia continuar igual, a cuidar de mim e que nunca me ia desleixar e agora pumba. [e não há mal nenhum, feliz assim, não há truque melhor para levantar o astral: quando me pinto outra vez, porra, ninguém me atura, sinto-me uma estrela!]

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Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba

Nunca vou deixar a prole ver vídeos no youtube no tablet ou telemóvel

Então hoje é é dia de «Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba»! Trago o mais sugerido e mais frequente nas minhas conversas com pares (mães e pais que andam ali no red line da loucura): «Nunca vou deixar a prole ver vídeos no youtube no tablet ou telemóvel». Aaaaaaah pumba, pumba, pumba, pumba. Eu sou uma reincidente nesta, deve ser paga pelo ar de nojo com que repudiei estes comportamentos. Antes de ser mãe cada vez que via algum miúdo quase bebé num espaço público de telemóvel em punho achava que aquilo era a lei do menor esforço. E jurei não o fazer. Agora, saio de casa abastecida de bateria no máximo para controlar o meu pequeno ditador, ai, filho, e a minha lista de sugestões no youtube são 34 vídeos de versões do babyshark. Sucede que nesse mundo ideal que eu vivia eu, que até nem era menina abençoada por uma paciência fora de série, ia encher-me de pachorra e ia estar sempre ali a contrariar a cria, nunca a ia querer quieta e calada. Mas depois fui mãe e a modos que aprecio acabar uma refeição fora de casa em paz ou lanchar com calma sem gritos. E depois nasceram os gémeos e gosto de dar banho aos ditos sem um puto de dois anos abraçado às minhas pernas, pelo que o ponho um pouco a colar o pistão com vídeos no youtube. A coisa servia unicamente como entretém momentâneo por isso nunca pensei muito a fundo sobre o que lhe colocar. Quando percebemos que ele gostava de carros, começamos a colocar-lhe vídeos de carros para ver e devo dizer que há dias estive a ver com ele o vídeo abaixo que ele descobriu e surgiram-me algumas perguntas sobre o mesmo que deixo aqui na esperança de alguém conseguir esclarecer:

  • Quem é que faz estes vídeos? A sério, quem é que programa uma corrida de condução defensiva entre o Rato Mickey, o Super-Homem, a Pantera Cor-de-Rosa, o Fido (é o Fido, não é?) e o Homem-Aranha ao som de grandes hits tais como «Mary had a little lamb»? Tudo isto feito sob o «mundo» do GTA. Porquê? Como é que surgiu esta ideia? Um programador vira-se para o outro e diz «uau, já sei, vou meter aqui uns quantos bonecos desses que os putos gostam a conduzir carros de forma agressiva quase a terem acidentes vários com música de putos e vai ser um sucesso épico»? E será que o outro respondeu: «ai espera, tens de pôr o Super-Homem a tocar um tamborzinho e o Homem-Aranha a tocar viola, os putos curtem isso»? A sério? É muito estupefaciente, só pode.
  • Este vídeo tem mais de 50 000 000 visualizações. Eu ando cansada para xuxu e por isso fui confirmar e parece que aqueles zeros que eu ali pus compõem o seguinte número por extenso: cinquenta milhões. Portanto, mesmo diminuindo isto logo para um décimo por entender que em média cada puto vê isto pelo menos dez vezes (porque é incrível e repetido então é topo), isto é muito puto a consumir este tipo de coisas chanfradas, na volta as mães perfeitas que nunca precisam de mostrar uns vídeos aos miúdos por cinco minutos de paz têm razão…

Pronto até tinha mais questões, mas agora o vídeo que o miúdo estava a ver acabou e eu tenho de ir lá pôr outro. É que sim, disse nunca e agora pumba.

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Tudo e Nada

Luto

Antes de o saber só na teoria e não na prática, achava que da definição de luto constava «fase». E as fases entendem-se passageiras. Mais ou menos demoradas, mas que passam. Agora que se instalou, por mais que lute, sei a verdade: não é fase, é para sempre, fica como não fica a vida, que se vai. O início é doloroso em permanência: o choque e a faca afiada espetada com pontaria no nosso ponto mais nevrálgico não deixam paz. O durante, longo como é tudo o que não tem fim, é apaziguador e simulado. Faz as vezes de normalidade, mascara-se de dia a dia e quando acorda escarafuncha para doer muito em pouco tempo.

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Tudo e Nada

Um ano de blogue

Fez há dias um ano que decidi criar este boteco e escrever sobre o que me apetece. Continuo satisfeita com a decisão, tenho conseguido deixar de ter vergonha de fazer uma das coisas que mais gosto: escrever (e fazer piadas!). Já conheci pessoas através do blogue e passei a falar mais com outras que já conhecia e, portanto, o balanço é bom e estimo continuar.

Não temam que me torne uma blogger como às bloggers, na verdade, já estive quase, quase para me deixar enamorar pelo estrelato, mas aprendi a dura lição da realidade: no dia seguinte a ganhar uns quantos seguidores novos no Instagram fui ao hipermercado e reparei em muitos olhares indiscretos. Pensei logo “Ai não posso, as pessoas reconhecem-me, deve ser da página!! Tenho de ir ao cabeleireiro, não tarda vou às tardes da Júlia.”. Levei as compras todas a perceber o que havia sucedido, tinha a camisa toda aberta e andei a passear o meu soutien novo de renda pelos corredores de pensos higiénicos e enchidos. Não foi o Insta que me fez render olhares, foi mesmo o meu mamaçal a chamar a atenção, já devia ter aprendido que não há uma alma amiga que diga «então e esse botãozinho maroto?»…

Para comemorar o primeiro aniversário não há passatempos, nem códigos de desconto, mas aproveito para responder a uma das coisas de que mais me falam: o nome da blogue. Estive indecisa entre vários nomes tristes, porque originalidade para nomear coisas é algo que não me assiste. Escolhi Três antes do Trinta não, ao contrário do que alguns já me disseram, por achar que é raro ter três filhos antes dos trinta (porque sei bem que não é, é pouco comum no contexto das minhas relações, mas não é geral), mas sim porque eu ter três filhos antes dos trinta continua a ser uma das maiores surpresas da minha vida. Nunca fui uma pessoa maternal, nunca entendi a maternidade como obrigatória e quando era mais nova dizia até que não sabia se queria ser mãe. Entretanto, cresci, apaixonei-me e percebi que queria ter filhos, mas na verdade sempre disse que só seria mãe depois dos trinta, tinha planeado a coisa como planeio tudo na vida. O meu filho mais velho foi planeado, mas foi algo antecipado depois de perdermos um bebé que não tinha sido planeado (mas muito desejado). Percebi que estava preparada na altura pela maneira como fiquei feliz quando descobri que estava grávida e depois triste quando o perdi. Fui mãe de filho único com um pós-parto de loucos, senti-me enganada pelas visões românticas da maternidade e estava decidida a esperar no mínimo três anos para lhe dar um irmão (isto se conseguisse dormir até lá). Mas a vida deu-me a volta e engravidei sem o planear (sim, eu sei que tendo sexo uma pessoa arrisca-se, mas quando determinados métodos conceptivos falham como as notas de 500 é surpresa) e logo de gémeos. Portanto, em menos de nada, eu, que não me imaginava mãe antes dos trinta, que nunca sonhei ter três filhos, acabei mãe de três aos 29 anos. E foi assim que a coisa surgiu. As pessoas têm sempre tendência de ver críticas em todo o lado e até no nome do blogue já conseguiram pegar: eu não sou defensora da maternidade antes dos trinta, ou crítica da maternidade mais tarde, o nome é sobre mim e não sobre os outros.

 

Entretanto, passado um ano, já somos uns quantos por aqui, pela página de Facebook e pela página de Instagram e alguns perguntam-me o que quero da coisa e eu continuo sem saber. Os mais cuscos estão convencidos que já choveram artigos vários de fraldas e afins e que cada vez que falo de alguma coisa recebo imenso guito. Amigos, não, nada, continuo a pagar tudo o que consumo e é certo que já tive imensas propostas imperdíveis, mas foram só duas e incluíam vender a alma a 33 posts em troca de artigos que eu não ia ali abaixo levantar nem que me pagassem. [Uma nota para dizer que adoro que «as agências» adorem o meu blogue, mas não tenham conseguido sequer perceber que sou de Coimbra e odeio pessoas, pelo que um evento num shopping na grande Lisboa não entra na minha definição de i-m-p-e-r-d-í-v-e-l] Por esse motivo, continuo a ser uma mera influenciadora dos meus filhos e mesmo esses não fazem nada do que eu lhes digo.


Vamos a mais um ano! Prometo se continuar por aqui mais um ano faço um giveaway à grande: três miúdos lindos uma semaninha em vossas casas… Mal podem esperar, não é?

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