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Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos

Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos

Ai eu não me lembro do tempo antes de ser mãe

Há umas semanas inaugurei uma rubrica no blogue e disse que ia sair todas as segundas, mas desde então quase todos os dias foram segundas-feiras, daquelas chuvosas e frias, pelo que me baralhei e só hoje posso retomar o «Frases feitas / Clichés / Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos».

Conforme algumas pessoas me sugeriram, a escolhida de hoje é: «ai eu não me lembro do tempo antes de ser mãe».

Já partilhei que não sou moça de saudosismos, isto é, quando me perguntam que fase da vida repetia eu respondo nenhuma porque gosto do aqui e agora (e do amanhã e depois). Porém, isso não significa que não tenha tido uma existência perfeitamente competente e muito feliz antes de ser mãe, de que me lembro muito bem e da qual tenho muitas saudades. É que calhando, o tempo antes de ser mãe representa mais de 5/6 da minha vida e, embora eu não seja pessoa de achar que temos memórias de quando éramos bebés, lembro-me razoavelmente de grande parte desses anos. E não sofri amnésia com o parto.

Ponto 1: é sonsice. Então não te lembras de não ser mãe? Não te lembras de sair do carro e bater a porta e passado exactamente 6 segundos estares a entrar no shopping sem teres de ameaçar um ser do teu sangue de castigos vários para o retirar da cadeira do carro calado, quieto e sem espernear? Eu lembro-me. Lembras-te de ter apaixonado pelo teu marido, namorado, parceiro, o quer que seja que vocês são e fazer coisas com ele, nomeadamente (mãe e pai não leiam esta) sexo com barulho (eu avisei), ou não? Eu lembro-me.

Ponto 2: é ofensivo para toda a gente da tua vida. Os teus pais, irmãos, amigos, marido, etc. existiam antes de seres mãe e ajudaram a construir a tua vida, dizeres que não te lembras da vida antes é ignorar a sua importância.

Ponto 3: é possível amarmos os nossos filhos sem termos necessidade de eliminar a nossa existência toda para lá deles. Não é uma demonstração de amor dizer que não nos lembramos e não temos saudades do antes, eu pelo menos não o entendo como tal. Isto parece aquelas mulheres que não estão satisfeitas com o facto de serem a última mulher do marido, mas têm também de saber quantas houve antes e eclipsar todas as memórias e lembranças das ditas.

Eu não sou tão mau-feitio que não consiga ver que às vezes o que as pessoas querem dizer é «isto é a melhor coisa da vida e já não imagino a minha vida sem ser mãe» o que de facto é perceptível, mas o tom «ai não me lembro, isto preenche-me mais que tudo, não há nada para lá disto» deixa-me com espasmos. Eu cá imagino muita coisa bem mais simples sem ter três filhos. Eu não quero, eu não desejo, mas imaginoooooo. Porra, se imagino. Só o dinheiro que podia gastar em, sei lá, viagens, imagino-o tanto a voar dos bolsos de pediatras, farmacêuticas, creches, lojas de roupa para putos directamente para aquela agência de viagens que tem umas fotos da Maldivas ou Maurícias, imagino mesmo. Mas sou genuinamente pela liberdade, e se vocês acreditam nisso força em dizê-lo (quem não acredita, não há necessidade). Agora que me dá tremeliques, dá.

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Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos

Se ganhasse o Euromilhões continuava a trabalhar

Já sabem que gosto de partilhar irritações, deixa-me mais leve e segundo a minha nutricionista eu preciso de perder peso, por isso tudo ajuda. Juntei umas quantas e inauguro hoje uma rubrica intitulada

«Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos».

[sim, vou passar a ter rubricas, sempre quis, deixem-me]

Nesta estreia debruçar-nos-emos sobre uma irritação que me tem acompanhado nesta última semana em que estive enterrada em trabalho e que oiço muita gente proferir sem consciência do estado de nervos em que me deixam quando o dizem: «Se ganhasse o Euromilhões continuava a trabalhar».

Ontem estive a trabalhar até às 3h da manhã a embalar a minha filha na espreguiçadeira com o pé, enquanto o meu marido dormia com o mais velho que também está doente e rezava a todos os santinhos em quem nem acredito para que o meu outro filho continuasse a dormir porque se acordasse não iria conseguir acabar o que tinha para fazer. E então porque passei e passo eu por isto? Plimplim. Money. Guito. Xelim. Sucede que a) não nasci rica b) não casei rica e preciso de dinheirinho para bancar esta casa. Assim sendo, tenho de vergar a mola. Se me saísse o Euromilhões continuava a vergar? Claro, adoro o que faço e precisava de ter uma ocupação. OPA, CARALHO, CLARO QUE NÃO, CLARO QUE NÃO QUE NÃO TRABALHAVA SE TIVESSE 10 000 000 € NA MINHA CONTA BANCÁRIA. Ocupação? Ocupação? Eu ando há eras para terminar a minha dissertação de mestrado, querem melhor ocupação? Tenho quase todos os filmes nomeados para os óscares deste ano para ver. Tenho pelo menos 3 séries altamente recomendadas para iniciar. Tenho 4 livros comprados que quero muito ler e ainda nem lhes toquei. ESTE ANO NÃO SAÍ DO PAÍS. E saía-me aquela quantidade de guito assustadora com zeros à direita, em vez de à esquerda como eu costumo ter, e eu ia continuar a trabalhar? A vergar a molinha que nem póbri? A andar atrás de clientes para me pagarem facturas todo o santo mês? Como dizer: NÃO. NO. NÉPIA. NUNQUINHA. Só espero que o Euromilhões nunca tenha saído a uma alma que diz uma coisa destas porque NÃO É JUSTO.

Há muita gente que diz isto para dar um ar de pessoa supé terra a terra, que não é materialista e no fundo não liga a dinheiro. Epá, enjoo. Tudo tanga. Eu não sou materialista, a sério que não, se fosse o meu marido não levava com queixumes de horas em aniversários «porque é que não me escreveste uma carta de amor em vez de uma prenda banal, porquê, porquê, já não me amas, antes escrevias…» Mas sou realista. E este computador onde vos escrevo está quase a parir e a sua troca exige capital. A renda da casa não se paga sozinha e deixo todos os meses em grandes superfícies o equivalente ao meu primeiro ordenado. Também gosto de laurear a pevide e não há agência de viagens que aceite valores morais como pagamento. Pelos motivos supra expostos: preciso de ganhar dinheiro e essa é razão pela qual trabalho. Não é para aquecer, não é porque gosto, nem é para ouvir dizer que sou uma excelente tradutora, é mesmo porque, como dizer, o saldo bancário não se alimenta sozinho. E se por sorteio esse saldo ficasse gordo eu iria trabalhar? Hell no, sista. Isso faz de mim materialista? Não.

 

PS – sim, jogo, não me limito a sonhar, todas as semanas ponho a minha chavinha à roda e sonho com o dia em que me sai e eu posso dar uso à minha lista mental perfeitamente definida de como, onde e quanto gastar porque eu sou uma pessoa com planos para todos os cenários. E vão por mim, eu rica é daqueles cenários que já passava a realidade que eu sinto-me com talento inato para a coisa.

Pronto e esta foi a primeira edição da rubrica «Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos» que passará a sair todas as segundas perto de si num Instagram, Blogue ou página de Facebook se eu tiver tempo e material. Agora que penso nisso, talvez esta tenha sido uma edição única, mas, olhem, pelo menos, já cumpri o meu sonho de dizer que tenho uma rubrica.

Entretanto também tenho outra agendada que sairá em breve (ou no próximo ano, nunca se sabe) que se chama «Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba».

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