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Gémeos Maternidade

A estadia dos gémeos na UCIN

Faz hoje 12 dias que os gémeos tiveram alta da UCIN. Passaram lá 15 dias certinhos, no domingo em que fizeram duas semanas, tiveram alta.

A janela do quarto onde os gémeos estavam, a dos golfinhos.

Quando descobri que estava grávida de gémeos e fui sendo informada de todas as particularidades e riscos de uma gravidez gemelar, percebi que existia uma forte probabilidade de eles nascerem prematuros.

Falei com uma amiga que teve gémeas e que teve uma das meninas na UCIN e foi uma conversa muito importante para conhecer a realidade dos cuidados intensivos. Ela contou-me pormenores de logística, quais as coisas que lhe custaram muito, a maneira como lidou com tudo e o que me aconselhava a fazer caso os gémeos fossem para os cuidados intensivos.

Às 32 semanas tive uma consulta na maternidade e estava tudo óptimo, tinha zero ameaças de parto prematuro e falámos de agendar a cesariana para a semana em que faria 37 semanas. Sem perceber, e sem razão, comecei a convencer-me de que tudo correria normalmente, que os gémeos nasceriam de termo e não necessitariam de ir para os cuidados intensivos.

De qualquer forma, acho que por mais preparados que estejamos é algo para o qual nunca nos preparamos verdadeiramente.

Às 34 semanas, no dia 2 de Dezembro de manhã, quando percebi que estava a perder líquido amniótico, fiquei muito preocupada. Inicialmente ainda se acreditou que conseguiríamos adiar o parto mais dias, mas depois tudo avançou rapidamente e acabei por seguir para a cesariana na madrugada do dia seguinte.

Os gémeos nasceram e foram para a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Foi difícil, eu não os pude ver logo, segui para a enfermaria para um quarto com duas outras mães que estavam com os seus bebés e eu estava sozinha, a processar o parto (que teve as suas complicações), o facto de os meus filhos estarem na incubadora e longe de mim. Foi tudo tão rápido que não tive oportunidade de ver o Pedro antes da cesariana. Quando ele chegou à minha cama, logo depois de eu ir para a enfermaria e depois de ele ter acompanhado a chegada dos gémeos à UCIN, não aguentámos e chorámos de emoção, stress e preocupação assim que nos vimos.

Nesse mesmo dia, horas depois, uma enfermeira absolutamente espectacular levou-me a Leonor ao quarto para eu a conhecer e relaxar. Foi muito importante para me descansar e sobretudo para eu levar a minha recuperação a sério e não tentar saltar etapas só para os poder ir ver.

No dia seguinte fui visitá-los, de cadeira de rodas. O choque inicial de entrar na sala, de ver o Duarte na incubadora, sem lhe poder tocar decentemente, foi duro. Achei-os tão pequeninos, tão desprotegidos.

Leonor

Duarte

Depois, calmamente e com muita rapidez tudo avançou. Eles saíram da incubadora no dia seguinte, foram para um berço onde continuaram monitorizados e com alimentação via sonda. Eu habituei-me ao apito dos monitores, aos fios. Peguei-lhes ao colo. Pouco depois comecei a extrair leite e no final da semana experimentamos pô-los a mamar. A segunda semana já custou menos e começámos a ver a evolução deles e o aumento de peso.

Depois de eu ter alta, três dias depois do parto, organizámos o nosso dia-a-dia para ir visitar os gémeos, estar com o Gonçalo e permitir-me descansar. Íamos à UCIN duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde, junto das horas das refeições e erámos nós que fazíamos tudo: trocávamos a fralda, tirávamos os sinais vitais e dávamos o biberão (por vezes tentávamos pô-los a mamar antes).

Quando na manhã de Domingo em que fizeram duas semanas nos disseram que se quiséssemos teríamos alta, eu nem cabia em mim de felicidade.

Não tenho nada, absolutamente nada a apontar à UCIN. Fomos tratados por toda a gente com um cuidado espectacular. Senti que nos apoiaram sempre, promovendo o nosso contacto com os bebés. Despreocuparam-nos desde o início. Responderam a todas as nossas perguntas, mesmo que repetidas. Trataram deles com excelência, mas sempre com carinho, independentemente do estado do serviço, do tempo e do cansaço.

Todas as pessoas — enfermeiros, médicos, auxiliares — fazem daquele serviço um sítio de excelência cuja missão é salvar a vida a bebés, mas também apoiar os pais numa altura em que estão tão fragilizados.

Na semana em que os gémeos nasceram saiu uma notícia sobre o novo salário do Messi, uma escandaleira qualquer com muitos zeros. Numa das vezes em que estávamos a sair, no caminho para casa o Pedro comentou comigo a injustiça que era um jogador da bola ganhar milhões e as pessoas que salvam a vida de bebés diariamente às vezes serem maltratadas na opinião pública por reivindicarem ganharem um pouco mais e fiquei a pensar nisso durante muitos dias.

Deixo, mais uma vez, o meu muito obrigada a toda a UCIN pelo trabalho fenomenal que fazem todos os dias. A UCIN é um dos exemplos fabulosos do nosso sistema de saúde e todos os dias que passei aquelas portas percebi porque é que pago impostos.

A todas as mães cujos bebés, prematuros ou não, possam vir a precisar de passar uns dias na UCIN deixo alguns conselhos (que pessoas que passaram pelo mesmo me deram e que foram muito importantes para mim), não esquecendo que têm por base a minha experiência na UCIN da Maternidade Bissaya Barreto em Coimbra:

  • O bebé está bem entregue, não há sítio melhor para ele. Ninguém quer os bebés na UCIN para sempre, por isso assim que puderem ter alta, terão.
  • Perguntem tudo o que quiserem, não há perguntas estúpidas e serão todas bem respondidas.
  • Logo no primeiro dia recebem um postal com uma foto do bebé e com um número para o qual podem ligar sempre que quiserem para perguntar por bebé. Eu fartei-me de chorar quando o recebi, mas adorei o gesto.
  • Só os pais e os avós é que podem visitar os bebés. Os pais têm um horário bastante alargado de visita (das 8h30m às 24h). Os avós só podem estar por períodos de 15 minutos, duas pessoas de cada vez entre as 16h30 e as 20h. Os avós não podem pegar nos bebés, é mesmo só visitar. Se pensarmos que o serviço tem imensos bebés e espaço e pessoal limitado,  percebe-se as limitações de logística, mas de qualquer forma quando se tem uma tia babada como os meus filhos têm a sorte de ter é bom ter esta noção e deixar a ideia para não partir corações na altura!
  • Os bebés vestem a roupa do serviço, sobretudo por questões de logística, mas também por questões de higiene. É daquelas coisas que não tem importância nenhuma, mas para mulheres em pleno festival hormonal custa um pouco não vestir logo as roupinhas que comprámos, lavámos e arrumámos com tanto carinho para os primeiros dias. Não vale a pena dar valor a isso, quando o bebé tiver alta há muito tempo para o abonecar!
  • Não tenham problemas de não ir logo visitá-los se acharem que não conseguem e ponderem ir de cadeira de rodas se for necessário. Eu fui de cadeira de rodas e mesmo assim senti-me mal com a emoção e o calor, nunca teria aguentado ir pelo meu próprio pé no primeiro dia!
  • A Maternidade, após a alta da mãe, disponibiliza um quarto noutra enfermaria que permite à mãe permanecer lá. Além disso, durante a estadia do bebé na UCIN a mãe fica com estatuto de «Mãe Acompanhante» que permite também ter senhas para fazer as refeições no refeitório da Maternidade.
  • Para as mães trabalhadoras que vão usufruir de licença de maternidade, notem que o tempo que o bebé estiver na UCIN não conta como licença, mas sim como baixa por acompanhamento, se assim quiserem. Basta informarem-se junto da Secretária Clínica da UCIN que presta toda a informação relevante.
  • Aproveitem quando tiverem alta para ir a casa descansar, se viverem próximo da maternidade. Aconselho mesmo a ir para casa, se houver essa possibilidade. Custa voltar para casa sem o bebé, mas quanto mais recuperada a mãe estiver, mais pode ajudar quando for à UCIN. Eu voltei para casa e por mais que me tenha custado foi essencial para descansar e recuperar da cesariana!
  • Tentem extrair leite e peçam apoio, as enfermeiras da UCIN darão todo o que precisarem. Se não conseguirem, não há problema, leite adaptado não é veneno e eles crescem bem também.
  • Pensar positivo: os bebés vêm de lá ensinados – dormem e comem com horários, é uma maravilha!
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Gémeos Maternidade

A insustentável leveza dos meus bebés

Os gémeos fazem hoje uma semana. Continuam nos cuidados intensivos.

Eu tive alta a meio da semana. Fiz o mesmo caminho de saída da maternidade que fiz quando o Gonçalo nasceu, andei com a mesma dificuldade de pós-cesariana e com as mesmas saudades de casa, mas sem os meus filhos. Senti-me roubada, é duro.

Sinto-me culpada de não estar lá sempre, mas sei que em casa tenho o Gonçalo e descanso melhor. Os dias são passados a ir lá, estar com eles, brincar com o Gonçalo e extrair leite.

Os meninos estão bem, evoluem a olhos vistos. Mas ainda não sabem comer e são muito pequenos. É difícil adaptar-nos às novas dimensões de bebés, mas ao mesmo tempo decorre tudo com naturalidade, adoro pegar-lhes.

A UCIN, embora só tenha gente bonita, não é um sítio bonito.

Todos os dias contamos gramas, andamos para trás e para a frente, com calma, sem esperanças de datas.

Mas estamos animados e apaixonados. Todas as minhas dúvidas se dissiparam no momento em que nasceram: não é possível gostar mais de um filho que outro, sou mãe de três, tenho um meu coração fora do corpo espalhado por três pares de mãos pequeninas.

 

 

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Gémeos Maternidade

Quando descobri que ia ter 3 filhos antes dos 30 anos

Nunca imaginei ter um filho antes dos 30 anos. No fundo, não tínhamos muitos planos em relação a isso, mas sempre achei que ainda era cedo. No entanto, em 2015 engravidei sem o planear e depois do pânico inicial habituámo-nos muito bem à ideia. Foi com sofrimento que lidámos com a perda desse bebé, mas apercebemo-nos que estava na hora e não demorámos a voltar a tentar.

Quando fiz 28 anos estava grávida do Gonçalo, que nasceu meses depois. Claro que depois de engravidar achei que era cedo demais, que não estava preparada, que havia mil coisas para fazer antes, que não tinha a estabilidade de que precisava, etc. Acho que todos estes medos são normais e talvez os tivesse independentemente da idade — no fundo era só medo de não estar à altura do desafio.

O Gonçalo nasceu e tornei-me mãe. Não a que imaginava, não a que achava que devia ser, mas a que sou. E mesmo depois das noites mal dormidas, dos momentos de «o que é que eu estou a fazer», aí estava eu, uma mulher que ainda se vê como miúda, confortável no seu papel de mãe do Gonçalo.

Borrifei no diz que deve ser, e acabei por me sentir bem com o que era. Mais, a minha parte mãe era capaz de ser a faceta de mim de que mais gostava. Senti que não a privilegiei demasiado em relação às outras, e, apesar de a minha família ter passado por um ano muito difícil com a perda de duas pessoas, a dinâmica de namoro não se viu muito afectada. Com a ajuda preciosa dos nossos pais, eu e o Pedro retomámos a normalidade que nos haviam prometido que nunca mais voltava. Jantares fora, cinemas, até uma viagem grande sem filho fizemos.

Confortavelmente mãe de um, comecei a achar que se calhar ficaria pelo filho único, ao contrário do que sempre tinha imaginado. Adoro a minha irmã e queria dar um irmão ao Gonçalo, mas no fundo suspeitava que íamos ficar bem assim. Não pensava muito nisso porque ainda era muito cedo, mas cada vez que perguntavam (sim, porque logo depois de parir toda a gente acha apropriado perguntar «e então, quando é que vem o segundo?») eu, secretamente, pensava que se calhar o Gonçalo seria filho único.

No dia 4 de Junho, depois de um atraso na menstruação (que não me preocupou porque depois do Gonçalo nunca mais tinha sido regular), e de uma semana de enjoos, cedi à pressão do meu marido para fazer um teste de gravidez, convencida de que daria negativo. Mas não deu.

Pânico. Outro bebé? Mas o Gonçalo é tão pequeno. Eu entrei em parafuso, ele riu-se e pareceu-me até ficar entusiasmado.

Já tínhamos perdido um bebé, por isso não quis valorizar muito antes de fazer uma ecografia. Marquei consulta para dias depois, fui sozinha porque o Pedro tinha uma reunião inadiável. Enquanto me fazia a ecografia a médica exclamou algo. Pensei logo no pior, perguntei se tinha perdido o bebé. Tinha um leve sentimento de culpa, porque não tinha tido qualquer cuidado pré-natal e já estava de 9 semanas. A médica pediu-me para ter calma. Depois disse:

— Pois, era o que me parecia, são dois.

Como assim dois?

Explicou-me que eram dois bebés, gémeos falsos. Dois sacos, duas placentas. São dois.

SÃO DOIS?

Comecei, segundo me recordo, a hiperventilar de forma discreta. Atendendo a que me perguntaram se tinha acompanhante na sala de espera, e que veio uma auxiliar para o meu lado acalmar-me, talvez não tenha sido assim tão discreta.

EU TENHO UM BEBÉ DE 9 MESES! E NASCEU DE CESARIANA! Isto não me está a acontecer…

Saí do consultório e liguei logo ao Pedro, que me rejeitou a chamada. Tinha esperança que a reunião onde estava já tivesse terminado, mas percebi que não.

Fui para o carro chorar-rir. Não chorei como se chora numa tragédia, nem me ri como numa comédia. Chorei e ria ao mesmo tempo. Aquele choro/riso nervoso de «isto é mesmo verdade?». Não podia contar a mais ninguém antes de lhe contar a ele. Sabia que me devolveria a chamada assim que pudesse, o que aconteceu meia hora depois. Durante esses infindáveis minutos tentei processar sozinha que daí a meses seria mãe de três bebés.

Quando finalmente falámos ouvi o barulho inconfundível do alta voz do automóvel. Perguntei-lhe se podia parar o carro. Disse-lhe de rajada:

— São dois. São gémeos.

Do outro lado um breve silêncio, um riso desconfortável:

O quê?

SÃO GÉMEOS. DOIS BEBÉS. EU ESTOU GRÁVIDA DE DOIS BEBÉS.

Ele riu-se. Disse que não acreditava. Que loucura. E depois, com a sua boa disposição e descontracção habitual:

Agora é que temos mesmo que trocar de carro.

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