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Love is all you need

Love is all you need

(Des)sintonia

Vejo muita gente à procura do tal. Tanto me elogiam a sorte. Perguntam-me como é que aguentamos. Leio sobre a sintonia do casal, sobre a partilha. Farto-me de ver floreados que todos querem. Esqueçam a sintonia. Nós não temos sintonia. Nós discutimos. Nós pomos pausa em discussões para dar banhos, para dar jantar, para viver. Nós entramos em conflito sobre a maneira como educar, como reagir. Nós cobramos tarefas, tempo, saídas, trabalho. Nós somos rancorosos e teimosos. Nós funcionamos. Nós acordamos e esbarramos no corredor a trocar de turnos. Nós somos uma máquina oleada de logística. Nós planeamos. Nós fazemos listas. E nós perdoamos. O cansaço, as rotinas, o trabalho, a vida. Não sei nada sobre relações duradouras, sobre amores para a vida, sobre companheirismo. Não sei nada sobre os outros, sobre a vida. Só sei sobre nós. Sei que todos os dias, ele acorda antes de mim, trata de tudo e depois sai para trabalhar. E sei que volta todos os dias. E a mim custa-me vê-lo sair não (só) porque fico sozinha, tantas vezes sem ajuda, mas porque fico sem ele.
No fim-de-semana vínhamos em viagem e eu disse-lhe «adoro uma música que está sempre a dar, mas não consigo dizer qual é, não sei nem uma única palavra.» Ele respondeu «vê se é esta» e pôs no telemóvel. Eu disse «olha que não… não me parece». Era. Chegou o refrão e ri-me «é esta, é». Ele sabia e fez um sorriso delicioso de quem tem sempre razão— gosto destes sorrisos porque geralmente são meus. Vinte minutos depois estávamos em casa e eu a bufar porque ele se lembrou de ir andar de bicicleta com o miúdo em plena hora de almoço. PLENA HORA DE ALMOÇO. Eu fiquei sozinha com os gémeos a arrumar malas e a fazer o almoço. Mas depois pensei: esta pessoa conhece-me tão bem que descobre a que me refiro por mero pensamento e acalmei-me. Acham mesmo? Sabem de que é que me serviu ele ter descoberto a tal música? De nada, passei-me na mesma e barafustei like a motherfucker. Isto é muito giro ter a nossa alma gémea, mas quando a coisa aperta uma pessoa tem simplesmente vontade de a esganar como às almas menos gémeas.
As normas do amor mandam nunca nos deitemos chateados. Eu também já fui jovem e inocente e dizia o mesmo, mas agora digo-vos se se chatearem, deitem-se. De manhã as parvoíces deixam de fazer sentido, o dia traz lucidez e o descanso tira importância a pormenores que são mesmo detalhes. Eu deito-me chateada, tem dias que ainda acordo amuada, eu discuto, eu grito, eu digo que estou cansada. Mas deito-me todos os dias apaixonada, todos os dias me levanto enamorada. Que se lixe a sintonia, eu quero a confusão, eu quero o cansaço, eu quero a verdade. Eu gosto disto assim. E dele também. A todos os que perguntam como é que aguentamos: ele sabia que eu tinha mau feitio bem antes dos três, agora é só um bocadinho mais. Isto das relações é como as mães: não há perfeitas, só há as reais. E também como a mãe, a minha é a melhor do mundo.

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Love is all you need Tudo e Nada

Depois dos três, os trinta

Eis que chegaram os trinta. De mansinho, com anúncios suaves nas cruzes, chegaram para ficar. Gosto de números redondos, ligo a estas datas porque gosto sempre de parar e pensar como foi o ano e o que quero para o seguinte. Ficaram algumas coisas por fazer (tinha prometido entregar a dissertação do Mestrado em Tradução até aos 30, mas com tanta criança foi impossível) e fiz mais do que alguma vez imaginei. Apesar de gostar de traçar objectivos, sei que são flexíveis, moldáveis, que a vida tem vida própria e não me preocupo quando a minha vida não tem nada que ver com o que eu achava que ia ser há dez anos.

 

Gosto de fazer anos e de comemorar por isso fiz questão de comemorar. Na verdade, ansiava por uma saída à noite com jantar à maneira com amigos porque além de não ser frequente nos dias de hoje, nos últimos três anos as comemorações foram sempre moderadas: no meu aniversário há três anos estava grávida (de um bebé que acabei por perder), há dois anos estava grávida do Gonçalo, e há um ano grávida dos gémeos (embora ainda não soubesse que eram dois).

 

No dia do aniversário, estive em família e depois fui passar a noite à Quinta das Lágrimas, a gozar uma prenda fabulosa que me ofereceram.

 

Recebi imensas coisas que amei, família e amigos mimaram-me até mais não.

 

A minha irmã começou o dia por fazer uma surpresa maravilhosa: preparou o pequeno-almoço. Acordei e era este o cenário cá em casa:

O Gonçalo delirou. Ovos mexidos de manhã? Uepa!

 

 

No sábado fomos jantar ao Sapientia Boutique Hotel e depois fomos à famosa festa Revenge of the 90’s. Foi uma noite gira, gostei mesmo muito.

O bolo? Como sempre a minha irmã superou-se e fez esta obra de arte que além de bonito estava delicioso:

 

Obrigada a todos que tornaram o meu aniversário tão bom e que durantes estes trinta anos estiveram sempre ao meu lado. Tenho muitos planos para os próximos trinta.

Para responder às várias pessoas que brincando me perguntaram se planeava ter quatro antes dos quarenta: não. Filhos ficamos por aqui. Mas tenho muito que fazer e o desafio enorme de os ver e fazer crescer.

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Love is all you need Tudo e Nada

01.06

Hoje fazemos 5 anos de casados e 11 de namoro. A semana passada falámos em divórcio. Já viste, tínhamos guarda partilhada, tu uma semana, eu outra! Sim, passávamos uma semana de cão com eles sozinhos, mas depois a outra… Ver séries à noite, filmes, ir ao cinema… Mas depois as nossas séries, tinha que ver sem ti? E jantar, pedia pizza para um? Falámos de divórcio mas esquecemo-nos que tínhamos que estar separados. Separados não, sempre juntos.

Passar da sintonia de 2 a pais de 3 em 2 anos, não é fácil. Precisamos de férias. Deles, não um do outro. Não imaginava fazer isto tudo sozinha, nem com outra pessoa. Nós, sempre juntos. Não sou a miúda com quem começou a namorar, nem a mulher com quem casou. Às vezes sou só cansaço, sou só sono. E refilo, e respondo mal, e queixo-me, mas estamos sempre juntos, ele sempre ao meu lado, nunca contra mim.

Desde que fomos passar o fim-de-semana fora que não dormimos uma noite inteira juntos. Umas horas com os gémeos, um vai ao Gonçalo, o outro aos gémeos, e ora troca, e agora tu, agora deixa vou lá eu, e passam-se dias e semanas em que falamos de uma divisão para a outra e comentamos coisas com trinta interrupções. Mas ele abraça-me quando nos encontramos na cama e faz-me ter ataques de riso quando preparamos os biberões do gémeos à noite. Costumam elogiar-me o sentido de humor para lidar com este caos, mas não sabem que isso é uma cena nossa. Antes de ser um blogue, é uma conversa de whatsapp em que mandamos vir com a vida e nos rimos das nossas tretas ou simplesmente provocamos uma oportunidade de pôr aquele GIF. Não há dia nenhum desde que estamos juntos em que não me tenha feito rir, mesmo os em que me fez chorar, quase sempre me fez rir, até as nossas discussões têm piadas. Há piadas só nossas porque só nós as percebemos e outras que são só nossas porque se forem do mundo temos a CPCJ amanhã de manhã à porta.

Há 11 anos, quando o conheci na queima das fitas, levava o grão na asa e arrastei-a para ele, mas não fazia ideia de que ele seria o pai dos meus três filhos. Tão-pouco agora sei se daqui a outros 11 estaremos juntos. Ninguém sabe. Mas suspeito que sim. Sempre juntos.

O ano passado fizemos 10 anos de namoro. Fiz-lhe uma surpresa que envolveu andar pela cidade a apanhar cartas que lhe escrevi e deixei em locais que nos faziam sentido. Ele disse-me que achava que última ia terminar com «e agora vamos ser quatro». Eu ri-me e disse-lhe que no dia seguinte compraríamos um teste de gravidez para ele parar de dizer que eu estava grávida. Tinha-lhe escrito «ainda agora começámos», mas não fazia ideia de que sim estava grávida e que o teste que comprámos foi das poucas vezes que não tinha razão. Não sabia que íamos ser mais, nem sabia que nunca chegaríamos a ser quatro, que 5 era afinal o nosso número. Hoje fazemos 5 anos de casados. Venham mais 5, a 5, mas sempre a dois, juntos. Ainda agora começámos.

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