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Aproveitar é engodo

O que me irrita nesta cena do aproveita que depois eles crescem, a filosofia moderna da parentalidade e dos conselhos das recém-mães é que explora aquela fragilidade da melancolia de recordar um filho bebé.

Ter um filho é maravilhoso. Mas é uma altura de merda. Não conheço mais outra coisa na vida que seja tão de extremos, por isso é que é tão difícil. Porque é óptimo, nasce-nos o filho, sangue do nosso sangue, a nossa cria, um bebé, o ser mais fofo e lindo do mundo e nós, as mães, quais lobas, só queremos lambê-lo, mimá-lo, guardá-lo. Mas nasce-nos também a mãe, a maluca, a cansada, a quero estar aqui, mas quero fugir, a que tem saudades de comer cereais ao jantar a beber uma mini e ver uma série. Então nasce a cisão, o bom e o mau, duas metades da mesma vida, duas metades do mesmo espelho, dentro de nós, na nossa sala, na nossa vida. E por isso, às vezes estamos lá a olhar para aquele ser lindo, maravilhoso, nosso, porra, ainda é parte de nós, ainda há dias lhe cortavam o cordão umbilical que era da minha carne, mas não estamos, porque estamos a chorar o banho que não tomámos, a série que não vimos, a noite de copos a que não fomos, a reunião de trabalho a que faltámos, o cinema a que não fomos, o restaurante novo que não conhecemos, a barriga que nunca mais teremos, o estar sozinha sem se sentir só. Algures depois desta merda toda passar, um dia dias depois, ou meses ou até anos, vemos uma foto dessa altura que foi tirada no segundo bom, aquela foto dele a dormir, lindo, pacífico, tirada momentos antes de se chorar de novo encostada à parede da cozinha porque deixámos cair o telemóvel e ele acordou com o barulho, momentos antes que já não existem, que a memória apagou porque esquecemos tudo, nesse dia olhamos para a foto de paz daquele ser que amamos, que está maior, que já não é bebé, e queremos voltar e temos saudades. E as saudades vestem o casaco da culpa e dão à luz a ideia de que não aproveitámos, afinal, temos tantas saudades. Então mandamos aproveitar quem pode, esquecidas que não se aproveita só se vive e que as saudades são só saudades e temo-las de tudo. Eu também já fui assim. Perdi-me nas fotos do meu filho bebé e pensei que não o tinha cheirado, não o tinha aproveitado, que passei o tempo todo preocupada com ele, com o sono, com a vida. E prometi aproveitar, deitei-me grávida todas as noites e prometi aproveitar os meus filhos que nasceriam daí a pouco, comprometi-me a ser melhor, a aproveitar tudo até o que se esquece. E  depois eles nasceram e nasci eu de novo, a mãe, a maluca, a cansada. Que só os quer a dormir, que tem saudades de estar sozinha, sem estar só. E não aproveitei.

Um dia, esta, a mãe, a cansada, leu alguém mandá-la aproveitar, que eles crescem, que eles saem do colo, que eles depois não nos querem. E cansou-se desta vida de António Variações, só estou bem aonde não estou, só quero aquilo que não tenho, só sei que é bom depois de passar, só sei que devo aproveitar quando o tempo já partiu. Não. Eu aproveitei. Eu mimei, eu lambi as crias, eu adormeci-as ao colo, eu admirei-as. Mas eu também chorei, quis fugir, quis gritar. Tenho saudades deles mais pequenos, tenho saudades de eles se aninharem, tenho saudades de serem só meus, de os descobrir nos olhos acabados de abrir e de lhes dizer a mamã está aqui, a mamã está aqui, não vou a lado nenhum. Mas aproveitei, e não vou deixar que saudade nenhuma me tolde a vista. Gozei e não vou deixar que ninguém se aproveite da fraqueza da saudade para me dizer que não aproveito tudo. Eles crescem, felizmente. Aproveita. Tem um filho, ama-o, lembra-te que és capaz de tudo e o tempo faz o resto.

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Maternidade

Neste dia

Na primeira foto, em 2016, grávida de 40 semanas certas, confiante que o fim da seca da gravidez estava para breve e que iria conhecer o meu amor rápido. Não esperei muito mais, foi no dia seguinte. A ideia era tirar uma foto no ano seguinte, no mesmo dia, e mostrar a minha espectacular recuperação pós-parto, aquela que na altura estava empenhada em ter. A segunda foto, é a tal, no mesmo dia, em 2017. Grávida, de gémeos, de 21 semanas, na recuperação pós-parto menos aconselhável de sempre. A promessa ficou então para o ano seguinte, ou seja, para hoje. E como tantas outras promessas, fica por cumprir. Não há foto porque também já não há ilusões. Não há foto porque não recuperei como queria, não há foto porque não estou como antes queria estar hoje. Isto da aceitação é um processo e a maior parte do tempo não estou preocupada, sei que tenho tempo e gosto-me assim. É verdade que já fui mais magra, já tive a barriga lisa, mas também é verdade que não me gostava, queria mais disto e menos daquilo, vivia numa insegurança típica da idade e da falta de juízo. E a confiança também é bonita. Mas também tenho dias em quero lá saber se as maleitas de que me queixo foram consequência de fazer crescer três bebés, quero as barrigas lisas que vejo a banhos. Quando prometi fotos impossíveis achava que recuperar no pós-parto era sobre o peso, mas aprendi que é sobre não maldizer este corpo que nunca me deixou, nunca fraquejou. Pode estar dois números acima do habitual, três acima do que quero, mas nunca me deixa, nem quando a cabeça desliga e alma precisa de descanso. Um corpo que acorda automaticamente e embala, que sem lhe pedirem licença aguentou duas gravidezes no espaço de 9 meses, o corpo que fez nascer e alimentou três bebés e esteve em esforço, em risco. Recuperar nos pós-parto é agradecer. Não dá para fotos, mas dá para recordar. Há dois e um ano estava assim, grávida. Hoje estou feliz.

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Gémeos Maternidade

Quando a vida tem outros planos para os planos que tinha para a vida

Comecei a escrever o blogue porque quando engravidei dos gémeos tive medo e fiquei em pânico e não encontrei nada que me falasse a verdade. Leio muitos blogues, não lia muita coisa sobre maternidade, mas passei a ler desde que tive o Gonçalo e quando procurei como orientar uma casa com três bebés maioritariamente só via coisas lindas e textos enormes como a ligação dos irmãos é óptima. Não lia o que está por detrás das fotos lindas, a vontade de fugir e a verdade sobre gravidezes não planeadas. Depois criei o blogue e na dúvida de assumir ou não quem era, decidi mostrá-lo a toda a gente e agora tenho pudor de escrever determinadas coisas porque a grande maioria dos que me lê, conhece-me. Bastou-me contar a minha história e dizer que a gravidez dos gémeos não foi sequer planeada e que chorei quando os soube a crescer dentro de mim sem pedir licença para aparecer logo quem me dissesse que não devia dizer isso, que parecia mal. Pode parecer mal, mas ter um filho não planeado não é a mesma coisa do que ter um filho planeado. Não, não estou a dizer que se ama diferente, estou só a dizer que não é a mesma coisa. Ter gémeos não planeados com um filho com pouco mais de um ano, não é a mesma coisa que ter um filho planeado. Eu gostava de ter lido isto, por isso é que o escrevo. Hoje sei que chorei porque os amei assim que soube. Hoje sei que foi medo de não lhes poder dar tudo o que um filho meu merece. Filho meu não chora para se habituar e não fica na cama a gritar porque tem que aprender a dormir sozinho. Filho meu tem colo, tem mimo, tem leite, tem sestas ao colo e namoro de final de dia. Uma para dois, para três.

Foi de dias como hoje de que tive medo. Dias em que só parecem querer chorar, que tenho que ir tomar banho e fechar a porta para não os ouvir chorar se acordarem porque se os ouvir sairei mais uma vez a correr, molhada, a escorregar pelo chão, a pingar o soalho que depois terei que limpar, para pôr a chucha, ou acabar a trocar a fralda enrolada na toalha, não, fecho a porta, não demoro mais de 5 minutos, se chorarem choram 5 minutos, mas tem que ser, eu preciso de um banho, eu vou ficar louca. Foi destes dias de que tive medo, de deixar o cansaço vencer, de deixar chorar, não para se habituar, não para aprender, mas para esperar. E foi das noites como de anteontem, em que todos choravam, todos queriam colo e mimo. E foi das escolhas de todas as noites, do shiii por favor não acordes o teu irmão, em que a abanamos a cama, em que corremos para a sala, o mais longe para os irmãos não acordarem, não acordes os teus irmãos por favor, por favor. Ou de quando dou por mim a pedir a bebés um segundo, por favor eu só quero um segundo para acabar isto, ou quando abano a espreguiçadeira com mais força e tenho que me afastar e respirar e lembrar-me de que tu és bebé, tu não sabes, tu não tens culpa. As mães têm que ter colo sempre para os seus bebés, tem que aproveitar que eles crescem e depois não a querem, mas foi desta vontade de os ver grandes sem me quererem de que tive medo. Foi desta vontade absurda de dormir de que tive medo. Foi desta vontade de mandar tudo e todos à merda e fugir de que tive medo.

Mas aquilo que não li e hoje sei é que basta respirar fundo, um segundo de silêncio de todos,  reenquadrar e tudo fica mais fácil. Não acredito em Deus, mas acredito no carma. Não acredito em Deus, mas quando o Duarte nasceu sem respirar, naqueles segundos que pareceram horas de tortura prometi que se ficasse tudo bem e se os tivesse todos bem, seria tão sã quanto uma mulher, quanto uma mãe, consegue ser, e nunca me queixaria. Sabia bem que me queixaria, mas nunca a sério, nunca a sério. Prometi e prometo todos os dias em que grito que só quero um segundo e que fujo para o banho.

A todas as que procuram saber como é ter filhos não planeados: não é a mesma coisa que ter um filho planeado, não é. Mas não é mau. Tive medo de olhar para eles e culpá-los de me tirarem tempo do Gonçalo, tive medo de desejar que eles não existissem. Mas nunca os culpo, e já não há um mundo em que eles não existam. Às vezes penso “porque não esperaram mais um ano?” e outras em que lhes pergunto se não podiam ter vindo um de cada vez. E quando acordo de hora a hora à noite ou quanto tenho que adormecer com brown noises para poder dormir senão tenho o coro dos pequenos cantores, mas em mau, também não consigo ser positiva, mas a verdade é que tomo sempre banho a correr. Mesmo quando fecho a porta, tomo banho a correr. Mesmo quando digo, chega, nunca chega, nunca acho o off deste botão de lhes querer bem, de os querer com o melhor.

Esta gravidez não planeada foi a vida a borrifar-se na minha agenda e a fazer planos por mim. E, repito, não é mau. Nos últimos meses descobri uma mulher que não imaginava ter dentro de mim, descobri uma força que não conhecia e acho que cheguei a uma espectacular fase da vida em que verdadeiramente estou-me cagando para o que outros pensam e para o que deve ser. Quando planeei tudo planeei que ele só teria o melhor. O melhor é não ver televisão antes dos dois, é só fazer jogos didáticos, é brincar com a terra, ter contacto com a natureza. Mas depois chove e o shopping é fixe que não chove lá dentro e a Masha o Urso cala-o. Então fiz o que não deve ser, mas culpada, sempre com a carregar a mala da culpa, sempre em pensar que não era o melhor. E depois vieram os gémeos, aquele descuido que virou acontecimento, aquele não plano que virou evento. E eu descobri-me. Na loucura, no caos, apareceu a Ana, a mãe. Que sabe que não devem ver ecrãs antes dos 2 anos, mas que também acha que é melhor lanchar antes de tratar deles e por isso sim, eles vão ver patrulha pata para ficarem calados, dez minutos enquanto lancho. Porque se lanchar, serei melhor. Se lanchar brinco com eles na muda da fralda, se tiver fome vou fazer tudo a correr e deitar tudo a perder. No fundo é igual, mas sem culpa. No fundo, faço igual, mas com desculpa. No fundo, desespero tanto quanto desesperei antes, mas agora já sei.

Se tens uma gravidez não planeada lê isto e sabe que talvez alguns dos teus piores medos se concretizem. Outros nunca. Respira fundo, todos os dias e depois arregaça as mangas. Nunca me esqueço do que abdiquei e abdico todos os dias por eles, mas todos os dias tomo de novo essa decisão de consciência. Talvez fique mais fácil. Agora não é fácil, mas não é mau. Agora não é fácil, mas nunca é impossível. E todos os dias é bom. Todos os dias é muito bom. Não foram um plano, mas são uma vida.

 

[Este texto tem quase três meses, deixei-o a marinar para só o publicar quando tudo ficasse melhor. Hoje está tudo melhor. Hoje não foi um dia mau. Ou eu é que já não estou mal.]

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Maternidade Tudo e Nada

Os amigos desaparecem depois de teres filhos

Ouvi isto muitas vezes antes de ser mãe. Há uns tempos li este artigo sobre amizades que terminam depois de se ter filhos.

 

Um filho representa uma grande mudança na nossa vida, não tenho dúvidas sobre isto. As nossas prioridades mudam, os nossos horários são diferentes e claro, a nossa disponibilidade não é a de outrora.

 

Para mim qualquer relação dá trabalho, e a amizade não é excepção. Não é um trabalho de esforço, é um trabalho natural, mas envolve sempre cedências. E como tal, depois de ser mãe acho que há trabalho de ambas as partes para manter a amizade, mas não é impossível.

 

Os meus amigos não desapareceram. As minhas amigas não foram a lado nenhum (nunca vão). Quando fui mãe, elas estiveram lá, ainda que não ao meu lado, à distância de um telefone, com uma emoção genuína, que nunca esquecerei.

 

Desde então tive falta em muitos eventos, mas não sinto que tenha mudado nada. Dá trabalho? Claro que sim. A eles agradeço adaptarem-se aos meus horários, fazerem o esforço de me vir visitar sempre que podem, de me perdoarem não estar em cima de todos os acontecimentos, como antes. Eu tento não perder conversas de WhatsApp e organizar-me para estar com eles. Não é fácil, mas tento. O ano passado fui a uma despedida de solteira grávida dos gémeos. Custou-me, só me apetecia estar na cama a dormir, mas queria muito estar com elas e fiz o esforço. E adorei.

 

Nós na despedida. Eu ainda tinha medo de anunciar a gravidez e então colocava-me estrategicamente a esconder o pancil 🙂

O artigo que li falava do facto de os amigos não perceberem que os recém-pais quando têm tempo livre preferem passá-lo a dois ou a dormir em vez de ir sair com os amigos. Percebo bem isto. A verdade é que depois de ter filhos a vontade de sair à noite desapareceu, todo o meu tempo livre por mim era passado no cinema ou a dormir. Mas sempre que faço o esforço de sair, não me arrependo. E as minhas amigas percebem-me, não escondem que gostavam que eu pudesse participar em mais coisas, mas nunca me cobraram a mudança das minhas prioridades, perceberam e tentam sempre amenizar o impacto que isso tem nas nossas vidas. As amizades vivem dos momentos que passamos juntos, da vida que partilhamos, mas sobrevive fases mais distantes se houver esforço de compensar isso.

 

Claro que há coisas que só os amigos com filhos percebem, e com eles as nossas combinações passam a ser mais fáceis, é um facto. Eu e o meu marido temos a sorte de ter amigos bem próximos que estão na mesma fase da vida que nós. E na verdade até fizemos novos amigos depois de sermos pais, precisamente porque passámos a ter outras coisas em comum com outras pessoas.

 

No entanto, do círculo das minhas melhores amigas eu sou a única que já tenho filhos. É claro que às vezes gostava que elas percebessem melhor os meus dramas, mas nem por isso senti que não estão capazes de conselhos ou de perceber o que passo. Quando desesperei no pós-parto do Gonçalo foi com elas que falei tantas vezes porque embora não tivessem nenhum conselho milagroso típico de mãe, também não tinham nenhum julgamento: nunca me disseram que era por eu estar a dar de mamar assim ou pôr a dormir assado. Ouviram-me, disseram que não imaginam o que é, deram força e namoraram o meu bebé como tias babadas que são. Se eu as tivesse excluído de alguns queixumes, se tivesse pensado que elas nunca me entenderiam só por não serem mães, nunca tinha percebido que isso não é verdade.

GAM com quase 4 meses. Amigas de uma vida.

 

Há uns dias uma das minhas amigas mais antigas veio visitar-nos, ainda não conhecia os gémeos. Já tivemos mais de um ano sem nos ver, somos amigas há mais de 15 anos. Não caímos na farsa de ficar amigas com conversas de WhatsApp intermináveis com promessas de cafés que nunca acontecem e perguntas esporádicas de «está tudo bem?», não, falamos de tempos em tempos por WhatsApp como se nos tivéssemos visto naquele dia «viste aquele trailer?», «sabes quem é que se vai casar?» com a presunção de proximidade física típica de outras eras da nossa relação. Ela veio e passou cá a tarde, falámos enquanto os miúdos dormiam, enquanto lanchavam, enquanto lhe demos banho. Ela ajudou, tirou fotos, esperou e foi assim, em movimento, que fomos pondo a escrita em dia. Apesar de já não estar com ela com calma há meses sem ser em comemorações onde não há muito tempo, parecia que os tempos em que nos víamos todos os dias tinham sido ontem. Claro que se eu pudesse tinha ido ao cinema com ela como fazíamos antes e ela também o teria preferido, estou certa. Mas a minha nova realidade não impediu uma boa tarde entre amigas.

 

As amizades não têm porque acabar depois dos filhos. Mas é preciso ter vontade que isso não aconteça. Não sou a melhor amiga do mundo, tantas vezes me esqueço de coisas importantes, são muitas as conversas que perco e outras tantas as coisas a que tenho que falhar, mas tento ter sempre algum tempo e entendo os amigos como prioridade, nunca como item prescindível. Tiro tempo para os meus amigos, cuido deles como melhor sei e como melhor posso. Não posso esperar que a vida deles mude para me acomodar, tento incluir-me quando posso, excluir-me quando não dá e pedir adaptações sempre que sinto que não é demais. De cedência em cedência a coisa compõe-se e não sinto problema que a distância – que veio bem antes das crianças – não tenha há muito trazido.

 

Os amigos a sério ficam. Os amigos a sério nunca vão.

 

Quando os gémeos nasceram foram quinze dias para os cuidados intensivos. No fim-de-semana a seguir a terem nascido eu já estava em casa. Uma das minhas melhores amigas queria passar para me dar um beijo quando eu estivesse em casa e eu confessei-lhe que não me apetecia ver ninguém. Estava preocupada com eles, mas sobretudo triste por não os ter comigo e tinha um circo hormonal dentro de mim, só me apetecia chorar. Ela disse que não importava e que ficava para outra altura. Saí para ir ver os gémeos à UCIN, deixei o Gonçalo com os meus pais e irmã e quando cheguei a casa tinha um ramo de flores em cima da minha cama com um bilhete. Ela tinha ligado à minha irmã, pedido para passar enquanto eu estivesse fora porque não me queria ver para não se impor. Deu um beijo ao Gonçalo, ofereceu-lhe um presente e deixou-me flores e umas palavras. Chorei quando (a) li,  feliz com a surpresa, a receber o abraço que me quis dar e arranjou maneira de entregar, mas sem estar surpreendida porque conheço bem aquela amiga, pessoa com quem conto a toda a hora. Isto é amizade, daquelas que não vai a lado nenhum. É este o trabalho que dá, que não é grande esforço quando se gosta, mas que é tudo quando se precisa.

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Maternidade

Pais, a amamentação também é para vocês

Diz que é o mês ou a semana do aleitamento materno. Não vou falar da amamentação em específico, há por aí muitas pessoas a falar isso, sobre como não desistir, etc., por isso quem quiser é procurar. Hei-de falar de amamentar gémeos que foi algo que me fez espécie desde que soube que estava grávida deles e que connosco não funcionou, mas fica para outra altura.

Falo-vos antes do papel do pai na amamentação. Como também o é num pós-parto de paz, para mim, o pai pode ser essencial na amamentação bem sucedida.

Vamos então à hora do bitaite. Coisas que acho que os pais podem fazer que ajudam e muito:

– Ajudem a decidir

Para mim, a amamentação é uma decisão, não é obrigação e é da mulher e apenas da mulher dado que é ela que vai sofrer as consequências físicas. Mas o processo decisório pode e deve ser conjunto. Apoiem, procurem informações e ajudem a decidir. Respeitem a decisão, qualquer que seja, mesmo que seja contrária à vossa.

– Interessem-se

Muitos pensam, «ela é que dá de mamar, é coisa de mulher, não quero saber» ou, talvez até mais comum, «mamas para mim é para brincar por isso enquanto estiverem fechadas para balanço é um não assunto». Isto pode criar logo uma clivagem entre o casal que não é recomendável numa altura em que se está em privação de sono. Depois de decidir dar de mamar eu cá acho que é bom procurar uma série de informações para não ir completamente em branco porque depois se surgirem dificuldades, e surgem tantas vezes, é mais fácil saber o que fazer. Por isso, participem também nesta saga e informem-se em conjunto, falem sobre isso. Saibam o que é livre demanda, o que são picos de crescimento, quais as dificuldades que podem existir no início, o que são mastites, a quem se pode pedir ajuda, tudo. Não deixem de ouvir quando a mulher fala de máquinas de extracção, quando partilha os planos para fazer armazenamento de leite para quando for trabalhar, o que for. As mamas são dela, mas o puto é dos dois e se é algo que beneficia o puto também beneficia o pai por isso ter interesse é bom e não custa assim tanto.

– Partilhem mesmo quando achem que não dá para partilhar

Se a mulher é que dá de mamar como pode o homem ajudar? Pode pegar na criatura e pô-la a mamar, por exemplo, para deixar a mãe dormir. Quando estão em casa pode trocar as fraldas todas. Pode oferecer-se para a deixar dormir no quarto e ir com o bebé para a sala ou outro quarto até à mamada seguinte, quando a mãe está a ficar sem forças. Pode oferecer-se para ficar totalmente responsável pelo bebé uma noite ou dia se a mãe conseguir extrair leite. Pode não sobrecarregar a mãe com mais nada e fazer a parte dos dois da lida da casa, se conseguir, ou pedir a alguém que o faça. Pode fazer tanto. Imaginem que eram operados e estavam em convalescença em casa, que ajuda gostavam de ter? Pronto, nas alturas de maior drama ou pelo menos no primeiro mês, é isso que podem fazer.

– Cuidado com o que dizem

Não se anda num campo de minas a correr, pois não? Então se não querem ficar sem uma falangeta não digam a uma mãe que quer muito dar de mamar e que gostava de não dar leite adaptado que se calhar o leite dela é fraco e o vosso amigo do café deu um biberão de leite adaptado ao filho dele e ele calou-se. Não digam nada de que não tenham a certeza, não transmitam bitaites sem fundamento e escolham a forma adequada para falar disso a uma mulher que tem uma tonelada de hormonas à bulha dentro dela e acha sempre que está a fazer tudo mal e por isso está muito sensível.

– Promovam o riso para descomprimir

Eu sei que vocês nunca se imaginaram a ajudar a vossa mulher a colocar uma máquina que a faz parecer uma vaca leiteira a funcionar, mas nem ela. Rir é a solução. Brinquem, façam piadas. Eu continuo sempre a achar piada à quantidade de vezes que passámos a dizer mamada com um carácter absolutamente assexuado. Never gets old.

– Abordem a questão de dar de mamar em público

Tentem perceber se a mãe se sente à vontade de dar de mamar em público ou não e ajudem a facilitar a logística. Se tiverem visitas e a mãe quiser privacidade convidem as pessoas a ir beber um café à cozinha e dêem-lhe paz, se estiverem na rua, tentem perceber se há um sítio para a mulher dar de mamar mais resguardada, sei lá, sejam proactivos, não façam àquela cara de «e agora?» que não ajuda ninguém. Se a mãe não se importa de estar em público, não fiquem vocês constrangidos. São só mamas, achar mal ver uma mama a alimentar um bebé é uma coisa meio «eu sou um animal e não me controlo» e não é evoluído da vossa parte.

– Festejem

Há uma felicidade algo animal em ver um puto crescer com o nosso leite. Festejem com a mulher depois de irem ao médico ou à pesagem. Qualquer coisa como «Eu sei que não é sempre fácil, mas já viste como ele está crescido e forte? Que bom que estás a conseguir.». Eu acabei de ler isto e pensei imediatamente que isto parece uma tirada do Gustavo Santos e sinto-me mesmo uma parola. Esta dica tem assim uma ponta de carência e fraqueza, mas o pós-parto deita uma gaja abaixo, até as mais duras. Uma vez fomos a uma consulta e o pediatra dos putos disse-me: «Que força, Ana. Que mãe incrível que está a ser.» E eu chorei. Às vezes uma boa lamechice faz falta.

– Juntos vencem o mundo

É certo e sabido que há sempre gente, às vezes até da família, que sabe qual é a solução para amamentação e quer por tudo ou que deixem de dar de mamar ou que o façam de outra forma. Às vezes quando é com a família do pai as mães sentem-se completamente sozinhas e sem poder de resposta. Criem uma frente unida. Não é preciso criar discussões, mas lembrem as pessoas que vos estão a chatear que vocês estão a ser seguidos por profissionais e que o resto é decisão vossa. Se a mãe não for a única a ter que responder a bitaites e se sentir que estão do lado dela vai sentir-se muito melhor. Não deixem que discussões sobre o que «a tua tia-avó que nem nos conhece acha sobre as minhas mamas» vos façam perder tempo que podem passar em paz e a descansar.

 

 

Isto é obviamente o que eu acho. Outras mulheres quererão é que as deixem sozinhas, mas do que vou falando com amigas a partilha com o pai e a vontade dele em participar é muito importante.

Sejam parte da solução e não do problema. (Achavam que o Gustavo Santos que há em mim tinha ficado só ali em cima, não?)

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Maternidade Tudo e Nada

Marias Bitaites

Ora, já se sabe que quando nasce uma mãe nasce uma multidão de Marias Bitaites. Eu já encontrei estas subespécies:

A Ai-o-meu-não:
«Ai o teu filho não come bem? Ai o meu não, logo a primeira vez que lhe dei comeu o prato todo tive que ir aquecer mais!»
«O teu não dorme bem? Ai o meu não, desde que veio da maternidade que dorme 10 horas à noite, eu às vezes até tenho saudades dele!»
«O teu filho está na fase das birras? Ai o meu não, nem sei o que são birras, ele é muito calminho, nunca chorou.»

Die, bitch.

A positiva:
«Sabes, isto não são birras, são eles a comunicarem. E nós temos que ouvir, é só isso.»

Não toutóbir.

A saudosista:
«Ainda vais ter saudades disto, a sério, o meu tem 3 meses e eu já estou cheia de saudades de quando ele nasceu.»

Eu percebo, eu tenho imensas saudades… de quando eles ainda não tinham nascido!

A sabe-tudo:
«O bebé não gosta do banho? Isso é alergia à água. Tens que cristalizar a água que basicamente consiste em ferver a água, deixar evaporar TODA, depois voltar a ferver, abençoar, congelar e depois deixar entre 3 a 5 dias a descongelar e dar banho com essa água. Vais ver que passa.»

What.the.fuck?

A que tem uma prima que também lhe aconteceu isso, mas na volta não:
«A minha prima teve uma bebé que também passou por isso. Mas foi menos tempo, ou mais, já não me lembro. E acho que ficou tudo bem. Ou não, espera, não, ela teve que ser operada, foi isso. A sério, foi isso, ela depois ainda teve que ser operada. Mas depois ficou tudo bem. Ou não, já não me lembro bem, mas acho que ela ainda hoje tem lesões.»

Aaaaah obrigada, pá. Obrigada.

A papa descontos-promoções-preços baixos:
«Espera lá esta fralda que eu estou aqui a ver é da Dodot? Sabias que as de marca branca e são 0,2567 cêntimos mais baratas e são iguais? A sério, SÃO FEITAS NA MESMA FÁBRICA. Nunca mais compres disto, estás a perder 0,2567 cêntimos de cada vez e isso vezes 7 por dia são 7 vezes 0,2567 e no final do ano – acredita que eu já fiz as contas – é uma viagem ao Brasil, a sério.»

Espera, não apontei, são de onde? Viagem ao Brasil, mas não estávamos a falar de fraldas? Ai fónix, queres que eu vá ao Brasil com eles, tu és doida?

A que fala para o bebé e não para nós:
«Ai tens que dizer à tua mãezinha que já não te deve pôr chuchita que isso é para bebés e tu és crescidote.»
«Ai ainda de fraldita, quando é que pedes à mamã para te fazer o desfralde???»

Are you talking to me? É que o meu sensor de recados indirectos escafodeu por isso não percebi.

A que te quer criticar mas não consegue então elogia de forma reles:
«Sabes, no fundo gostava de ser como tu, assim depreendida e relaxada, eu sou muito protectora parece que não consigo desligar-me deles nunca e que os amo mais que tudo, percebes?»

Olha eu cá não quero ser como tu, odeio cabras passivo-agressivas.

A que acha que isto é um jogo e faz sempre raise:
«Ai estás aí a queixar-te, mas tu ainda tens imensa ajuda. Eu não tenho avós e empregadas e ainda faço tudo o que estás a fazer enquanto me balanço numa corda numa daquelas biclas só com uma roda.»

Eia, xau, eu não tinha percebido que isto era um concurso, se soubesse tinha treinado as lamúrias, vim sem estudar.

A que nem quer dizer nada mas depois diz tudo:
«Pois, olha, eu na altura nem quis dizer nada, mas eu sempre achei isso. Sempre. Os pediatras hoje em dia ainda aconselham isso, mas cá para mim é maligno. Mas pronto, quem sou para dizer, é só o que aconselham os mais recentes estudos, mas eu não quero estar aqui a dizer que estás a fazer mal, eu é que como sei estas coisas não consigo ficar calada.»

Mas olha que calada eras uma poeta.

 

Eu, Maria Bitaites, me confesso. É por bem, às vezes quero tanto ajudar que acabo a mandar postas.
Mas não vamos é exagerar, sim? Deixem as mães em paz!

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Dia dos avós

Dos meus

Quis o tempo que crescesse apenas com uma avó, a minha avó paterna, a minha avó Helena, a quem chamei sempre só avó porque a minha avó Rosalina morreu antes de eu nascer. Os meus avôs morreram quando eu era pequena. A minha avó era uma avó tão avó como só os avós sabem ser. Hoje consigo olhar para trás ver que era mãe (e sogra), mas para mim enquanto crescia era só avó, era só minha e da minha irmã (e, mais tarde, da minha prima). Duvido que os meus pais gostassem sempre de tudo o que nos fazia, mas eu adorava. Eu queria, a minha avó dava. Eu queria, a minha avó não desistia até me conseguir dar. Eu existia, ela era feliz. Tenho muitas saudades dela, todos os dias penso que adorava mostrar-lhe muitas coisas. Foi também o meu primeiro luto, e foi com ela que aprendi que nunca estaremos prontos para dizer adeus de quem gostamos e nunca o faremos de forma definitiva. Hoje, neste dia dos avós, e em tantos outros, penso nela e em como me formou e penso que gostava muito de lhe dar um beijo, agradecer-lhe e pedir-lhe um bollycao.

E porque já muito falaram sobre isto e infinitamente melhor:

«No fim de semana, muito antes da hora do almoço, ela fritava batatas, punha num prato, e depois cobria com a tampa de uma panela. O vapor condensava-se no interior da tampa e depois a [h]umidade chovia sobre as batatas. Por isso, as batatas ficavam moles.

Na casa da minha avó, nunca comi batatas que não fossem moles. Quando hoje me põem no prato batatas estaladiças eu penso: essa pessoa sabe fritar batatas, mas ela não me ama. Não fez as batatas com aquela antecedência. Arriscou que as batatas não estivessem prontas quando eu quisesse almoçar.»

Ricardo Araújo Pereira, para a Folha de São Paulo, para ler aqui.

 

 

Dos dos meus filhos

A minha mãe e a Leonor, a minha sogra e o Duarte e o meu pai e o Gonçalo. Avós e netos.

Os avós dos meus filhos são os nossos pais. Isto, além de ser uma verdade de La Palice, é a base de tudo e não há como o esquecer. Os avós dos meus filhos fazem muito por eles, mas muitas vezes fazem muito para eles por nós. Muitos dizem-me que quando os netos nascem nós deixamos de existir para os pais. Por aqui só achará isso quem não sabe ver. Por detrás da euforia, do entrar sem nos cumprimentarem e correram para os ver, os nossos pais estão lá, preocupados connosco, com a nossa sanidade, com o nosso sono, com o nosso casamento, com os nossos trabalhos. Os nossos pais perdem noites com as nossas preocupações e é por nós que fazem muito. São muitas vezes bons avós por serem excelentes pais.

Pelos netos, os avós fazem tudo. O amor dos avós não tem igual. Eu adoro ver os meus filhos terem aquilo que eu tive, avós como só os avós sabem ser. Os meus filhos têm uma sorte imensa de poder ter os avós que têm. Não conheço melhor. O nosso grande azar é termos perdido um elemento do quarteto. Dói-me mais do que consigo dizer que os meus filhos não venham a conhecer o Avó Raul, o meu sogro,  não oiçam as suas histórias por ele e não o ajudem a colar postais. A vida não é muitas vezes justa e o que queremos dela, mas é a que temos. E, apesar disso, o que temos é muito bom.

Os avós são avós, são cuidadores, são apoio, são a nossa força e por isso não merecem só um dia, mas todos de agradecimento.

Dia dos avós, quando se tem avós como estes, são todos os dias. Queridos filhos, que sorte!

 

 

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Gémeos Maternidade

Leonor, a motard

Como disse aqui, a Nonô tem uma plagiocefalia e braquicefalia diagnosticadas desde os 2 meses.

Ambas são deformações do crânio. No caso da Leonor são posicionais, ou seja, resultam da posição que a Leonor adoptou no útero e que depois tentou manter o que a levou a ficar com a cabeça torta.

A plagiocefalia é o desvio lateral da cabeça e a braquicefalia é o achatamento da parte de trás da cabeça.

O diagnóstico foi feito aos 2 meses na Unidade de Intervenção Precoce da Maternidade Bissaya Barreto onde os gémeos são seguidos por terem estado na UCIN. Nós não reparámos, quando percebemos ficámos chocados como é que não tínhamos visto antes. Costumam ser os pais a reparar no diferente formato da cabeça, mas no nosso caso isso não aconteceu. É inevitável não nos sentirmos culpados por não termos visto antes.

Desde então tudo tem sido um caminho longo e foi precisamente a fazer uma ecografia de rastreio para levar tudo certo a um especialista que se detectou a displasia da anca.

Tentámos muito não ter que chegar a esta fase, mas o desvio da Leonor é grande e a opinião médica é que agora só é corrigível com o uso de capacete (banda ortopédica).

Fomos colocá-lo a semana passada. Em princípio terá que usar cerca de 4 meses.

Alerta: esta é a história da Leonor, é o que faz sentido para a Leonor e é o caminho que nós achamos que funcionará para ela. Nem todas as situações são iguais e nem todas as coisas funcionam em todas as crianças. Tenham paciência com a minha falta de paciência, mas não me chateiem com a história da prima da Josefina que também tinha isto e foi só mudar o berço de lugar e pôr uma almofada que ficou boa e não me digam que isto é exagerado porque mais ninguém sem sermos nós conhece a situação em profundidade.

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Maternidade Passear

Ir de férias e não levar o filho

Há cerca de um ano estava a embarcar para Punta Cana para uma semana tudo incluído sem filhos. O Gonçalo tinha 10 meses, quase 11, e decidimos passar férias sem ele.

Na altura houve muita gente que me disse que não conseguia fazer férias sem filhos. Uns porque não tinham onde deixar os filhos e outros porque não conseguiam deixar os filhos (devo dizer que a maior parte das vezes consegui ouvir um tom de «como é que consegues deixar o teu filho tão pequeno, não tens saudades, que espécie de mãe és tu?»).

Na altura em que marquei as férias não sabia que estava grávida, descobrimos entretanto e como a viagem estava paga não deixámos de ir. A minha obstetra disse que preferia que eu tivesse férias em Portugal, mas que, estando a viagem paga, não havia porque não ir. Fui grávida de 15 semanas e obviamente tive alguns cuidados: além dos alimentares que já tinha porque não sou imune à toxoplasmose, não bebi nada sem ser água engarrafada por causa do gelo, não estive junto de águas paradas por causa dos mosquitos e não andei de barco por causa da trepidação. De resto, não tive mais dificuldades.

Aquela mão na barriga para que deixar claro que estava grávida e não com o pior pós-parto da história
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Gémeos Maternidade

Férias sem filhos vs Férias com filhos

Orçamento sem filhos: X. É muito dinheiro, mas viajar é a coisa que gostamos mais de fazer e é um tudo incluído.

Orçamento com filhos: X. Porra, temos que ir em Setembro, com este dinheiro não dá para mais. Bolas, não dá para um hotel porque como somos 5 tínhamos de pagar dois quartos, então temos de arrendar uma casa. E ainda temos de gastar mais em alimentação. Vai ser apertado, não podemos comer fora nem um dia que seja.

O dia sem filhos: Acordar sem despertador, mas cedo porque gostamos de aproveitar o dia inteiro de praia, aí entre as 8h e 9h e ir tomar o pequeno-almoço com calma, sem pressas. Depois de beber um café, espreitar as notícias do dia e seguir para a praia. Escolher o chapéu, estender a toalha, e começar o dia de decisões: Vou primeiro à água ou leio um pouco? Oiço música ou passeio à beira-mar? Seco à sombra ou será que já posso secar ao sol? Bebo um cocktail ou mais uma cerveja? Vou ao mar no final deste parágrafo ou no final deste capítulo? Será que já estou morena o suficiente para pôr fato-de-banho ou continuo a usar bikini para ficar sem marcas?

O dia com filhos: Tic tac, motherfucker, são 7 da manhã e já está tudo de pé. Biberões para os gémeos e pequeno-almoço para o Gonçalo e rápido que eles parece que já estão capazes de matar cachorro a grito. Comer a torrada que ficou mais queimada com um bocado de manteiga e começar a pôr cremes. Felizmente preparámos o saco na noite anterior, agora é só pegar e arrancar. É *só* pegar no saco das toalhas de praia, no chapéu, no saco dos brinquedos, no saco da muda de fraldas, na carteira, colocá-los no carrinho e estamos prontos a sair. Sair. Saí daí, Gonçalo, não coloques isso na boca, pará, anda, por favor, vamos para a praia, não queres ir à praia, anda lá, pára, santa paciência, anda lá, estamos quase a chegar, por favor. Duarte, não te mandes do carro. Leonor, está sol pára de pôr a capota para baixo porque tu és muito branquinha, anda lá, pára, eu sei que queres brincar ao esconde-esconde, mas estão 30.º graus, por favor, pára. Gonçalo, o que é que disse? Anda lá, já chegámos. Montar o chapéu. Gonçalo, pára de chorar, eu sei que tens areia nos pés, estás na praia o que é que querias? Tudo na toalha, estejam quietos, andem lá, só dois segundos, deixem a mãe tirar a roupa. Quem é que quer ir à água? Yeeah. Olha que giro, isto até é giro. Ai espera, tenho que voltar à toalha, esqueci-me das bóias. Gonçalo, pára, por amor da santa, está quieto dois segundos da tua vida para eu te pôr a porra da bóia ou juro que te deixo beber dois pirulitos para veres o que é bom para a tosse. Ai a porra do deus da parentalidade positiva ou consciente, ou lá o que é, que não me ajuda, põe a bóia, anda lá, vês, já está porque é que não tens calma? Ok. Estamos na água, fixe, está bom. Porque é que estás a chorar? Está fria, é? Ok, vamos para a toalha. Toalha. Toalha. EU DISSE TOALHA. Agora estás todo croquete, eu não disse que era na toalha? Porra. Ufa. Olha, agora que eles parecem estar todos quietos vai buscar uma cerveja para nós. São dez, o bar ainda não abriu. O quê? São só dez? F*da-se.

A noite sem filhos: Vamos jantar ao argentino? Ou ao mexicano? E depois queres ver um filme para o quarto ou beber uns copos no bar do hotel? E amanhã vamos dançar?

A noite com filhos: Fazer jantar. Dar jantar. Jantar enquanto eles se engalfinham. Historinha e adormecê-los. Olha que bem, a vantagem é que eles ficam muito cansados com a praia e assim adormecem logo e agora podemos curtir aqui este alpendre. Olha, queres ler um bocado ou aproveitar para ver um filme? Baby? Baby? Baby, vai para cama, sempre dormes melhor que aí na cadeira.

Regresso sem filhos: Que merda. As férias são tão curtas. Amanhã já trabalho, que dor.

Regresso com filhos: NUNCA MAIS. AMANHÃ JÁ TRABALHO, YEAAAAAAAAAAAAAAH.

 

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