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Tudo e Nada

Tudo e Nada

Isto de ter filhos que chegam antes do tempo

O episódio de ontem de This is Us — que francamente já anda muito chachada — vale pela maneira brilhante como falam da prematuridade. Há uns meses, uma pessoa que não conheço, em conversa de circunstância, perguntou se os gémeos eram prematuros (porque muitos são). Respondi-lhe que sim e que estiveram 15 dias na UCIN. Respondeu-me que isso não era nada, a Pipoca Mais Doce tinha tido a filha um mês. Eu sempre soube que não era nada, mas também nunca entendi escalas de sofrimento e acho mesmo que só quem não teve os filhos nos cuidados intensivos é que é capaz de dizer algo desta forma da boca para fora. Os meus filhos nasceram a dias de serem bebés pré-termo, uma fase da prematuridade já muito boa. Nasceram com um bom peso para gémeos e prematuros. Estiveram dias na incubadora e uns meros quinze dias na UCIN. 15 dias passam a voar no Caribe, por exemplo. Ao décimo uma pessoa fica farta da comida do resort, mas fica triste quando chega a hora de voltar e o bronze desaparece em dias. Aqueles 15 dias foram uma vida. Sei de cor o caminho para lá, podiam vendar-me à entrada da maternidade e eu chegava sem chocar em parede alguma até à porta que diz UCIN. O cheiro a desinfetante que colocava nas mãos antes de entrar lembra-me o momento em que conheci os meus filhos. Lembro-me de todos os pormenores da sala onde estavam e se soubesse desenhar sabia fazer o retrato perfeito da mãe do nosso vizinho de sala embora nunca mais a tenha visto. Acho que há uma proteção qualquer associada à maternidade que me envolveu de uma certa inconsciência e me fez crer sempre que tudo ia correr bem. Eu tinha uma gravidez de risco e mesmo tendo tomado certas precauções, nunca esperei nada de mal. Mesmo na manhã em que me romperam as águas e percebi que talvez a coisa estivesse mesmo a acontecer, quando me disseram que estavam a tentar atrasar o parto e talvez conseguissem pelo menos que eles fizessem 35 semanas eu pedi o computador, o livro e preparei-me para ficar uma semana internada à espera. Fiquei 8 horas. Só quando os tiraram de dentro de mim e eu perguntei se os podia ver e me explicaram como se eu tivesse três anos que eles eram prematuros e iam para os cuidados intensivos é que eu percebi. Eles eram meus, mas não estavam comigo. Eu sei que eles estavam onde estavam melhor. Eu sei que era do que eles precisavam. Mas eu fui mãe e não tinha filhos. Eu fui levada para uma enfermaria e o meu marido chegou-me de lágrimas nos olhos a dizer que eles eram minúsculos. Eu pedi fotos e estranhei quando ele me disse que não conseguiu. Não conseguiu, como? No dia seguinte, mais de 24 horas depois, percebi. Eles eram horríveis. Eu vi os outros bebés de 800gr cheios de fios e arrepiei-me. Eu vi-os. Mas a primeira vez que olhei mesmo para um bebé prematuro foi quando olhei para os meus. Não tinham pestanas. Não tinham sobrancelhas. Tinham fios. Não choravam. Nesse dia fazia qualquer coisa como um ano, três meses e uns dias que eu tinha tido um filho que veio parar ao meu colo com minutos. Que mamou. Que chorou. Que abriu os olhos e levantou a cabecinha quando lhe trocava uma fralda na maternidade para espanto das enfermeiras que disseram «ai que tu estás cheio de pressa de crescer». Os meus filhos estavam separados de mim por um vidro e tinham um tubo enfiado pelo nariz porque se dependesse deles não comiam. Isto agora é bastante simples de lembrar, mas na altura era chocante. Era chocante não ter vontade de lhes pegar, afinal, eles eram meus. Mas a primeira vez que lhes peguei nos cuidados intensivos tive tanto medo de os partir, de lhes puxar um fio, de eles deixarem de respirar e eu nem sentir que não me lembro de aproveitar, só de me doer imenso a cicatriz da cesariana porque eu estava tensa. Ao terceiro dia tive alta. Foi fácil combater o sentimento de «devia ficar aqui na maternidade para estar próximo deles» porque tinha outro bebé em casa à minha espera que não via há 4 dias porque ele estava doente e achámos por bem não o levar à maternidade. O Pedro foi buscar-me e fomos diretos para casa da minha sogra onde ele estava. Há três dias tinha sido operada e tinha uma sutura que parecia uma faca espetada no baixo abdómen, mas saí do carro toda ligeira e subi mesmo não sendo preciso. Voei para ele e nunca hei de esquecer o que seguiu. Entrei no escritório e ele estava sentado ao colo da minha sogra. Eu disse «olá, meu amor» e ele olhou para mim, naquilo que me soube a desilusão, e olhou para o lado. Não quis vir ao meu colo (que ofereci, embora o Pedro me pedisse para ter cuidado e o meu corpo também). Não me sorriu. Estava chateado de eu o ter deixado aqueles três dias (ou os últimos meses). O meu coração partiu-se. Não tinha casa: não tinha nenhum dos meus filhos nos braços e falhava a todos. Àquele que não tinha como explicar o que se passava. Aos outros porque estava ali, longe deles, porque não extraía leite, porque estava a encomendar comida para almoçar como se nada se tivesse passado. Naquele momento nasceu a mãe de três que sou, a malabarista que serei, o resto da vida, sempre dividida, sempre a ponderar concessões. Senti-me como quando comecei a trabalhar e perante a minha primeira tarefa mais difícil no escritório pensei «eles acham que eu sei de direitos reais e eu fiz aquilo em erasmus». Não sabia minimamente como me safar. Eu sou de ação, queixo-me que me canso, mas estou sempre a pensar na solução. E aquilo estava a custar-me horrores, mas foquei-me no final. E como há uns anos, estudei. Li sobre como aumentar a extração de leite. Pus o despertador para as 2h e 5h da manhã para extrair leite. Voltei a trocar a fralda ao Gonçalo mesmo quando ele chamava pelo pai. E li sobre esta coisa de não sentir os meus filhos bebés, mas antes ratinhos. Não chorei um único dia daqueles dias em que todas as manhãs e todas as tardes fui para os cuidados intensivos. Mas ontem, quando via a reação do Toby na série pensei «este era eu». Podem ter sido só 15 dias, mas doeram. Custa-me ainda hoje pensar que quando vi os meus filhos não lhes quis pegar (mas peguei). Passa. E não sei se é ou não normal, mas é a nossa história. Hoje olho para eles e acho que nem consigo ver os bebés que eram. Mesmo depois de virem para casa eram tão pequenos e sem movimento que assustava porque parecia que não queriam reagir. Agora olho para as fotos e já não assusta. Olho para eles e só me lembro do aperto que foi pensar que podia correr tudo mal. Mas não correu, está tudo bem e são feridas que deixam marca, mas que saram. Afinal, foram só 15 dias, não foi nada.

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Passear Tudo e Nada

Paris | Disneyland

Fomos e viemos em menos de um fósforo, foi há um mês e parece que foi há eras. Foi ótimo, mas estou certa que muito foi de estarmos sozinhos, de descansarmos e namorarmos, coisas que já não fazíamos há muito tempo. O objetivo primordial da viagem era ir à Disney. Ambos já lá tínhamos estado com os pais. Além disso, eu também queria mudar de ideias sobre Paris, cidade que não me tinha deixado especialmente deslumbrada quando lá estive, há anos.

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Séries Tudo e Nada

This is me

Há dias perguntavam-me como é que eu tinha tempo para ver séries. No fundo, não tenho. Ontem, às 9h30 adormeci o último bebé acordado e estava livre. Trabalhei quase uma hora, às 22h20 estava toda lampeira no sofá pronta ver o regresso de This is Us quando descubro que os cabrões da Fox Life trocaram o prime time para as 23h10. Ora, era óbvio que devia pegar neste corpinho admoestado por semanas de privação de sono e atirar com ele na cama, mas liguei de novo o computador, continuei a trabalhar com a desculpa que compensava de manhã e dormia um pouco mais como se eu tivesse licença dos meus filhos para dormir até tarde. A Leonor, depois de ter feito uma noite de pausa no seu mestrado em «aterrorizar as noites dos meus pais», pediu desculpa por vacilar e dormir uma noite de doze horas. «Não se preocupem, não volta a acontecer». Quando terminei a série, corri para a cama, deitei-me e estava no parlapié com o Pedro a dizer que sim senhora, adoro a série, sim senhora há coisas que já não são o mesmo, mas sim senhora aquilo é tv de qualidade, quando a Leonor diz «queres ver o que é tv de qualidade, mãe?» Esgar. Chucha. Esgar. Chucha. Choro. Chucha. Trago-a? Leite? Gritos. Gritos. Ok, porra, trá-la antes que ela acorde os irmãos. Grande merda, devia ter vindo para a cama quando pude. A série não é assim tão boa. Disse para o Pedro: «Olha vai para o sofá da sala, isto vai ser difícil e tu precisas de descansar». Muito embalo, passeio e transferências para a cama sem sucesso depois, ponderei se não estaria com a fralda suja e eis que descobri que estava cheia de chichi no body (não perceptível debaixo das calças e collants). Ai filha, desculpa, a mãe troca-te já a roupa. O Pedro volta da sala porque a bem dizer também não se consegue adormecer quando existe alguém a gritar como no Psycho e trocamos a fralda debaixo de várias ordens de desespero um para o outro. Terminamos a operação e agora ela está tão possuída pelo demo que urge dar-lhe um biberão para acalmar a franga. A menina malha os seus 210 ml de leite por entre tosses e ranhos e no fim aceita finalmente ficar na cama ao lado da nossa sem chorar, a ver TV. Pedro vai para a sala, eu tento dormir com a luz da TV, ela que adormeça quando lhe apetecer. Antes de adormecer só penso «não sei como é que os irmãos não acordaram com o chavacal que ela montou». AI CARALHO, PORQUE É QUE PENSAS ESSAS COISAS, ANA, PORQUÊ? Aproximadamente dois segundos depois recebi uma SMS do Duarte a dizer «lol, mãe, lol» e por SMS quero obviamente dizer através de gritos histéricos de quem não come há três horas, mas sente que passaram 20. E depois de lhe dar o biberão que constatámos, adivinhem lá? Que o puto também estava molhado! Ora, mais uma troca/tortura básica capaz de acordar a terra, lá adormeceu. Não trocámos nem uma palavra, ele voltou para o sofá, nem ousei sequer pensar no mais velho e no estado semi-comatoso em que é preciso uma pessoa estar para não acordar com aquele nível de putedo, porque já acredito em tudo e acho que os meus filhos me lêem os pensamentos. Deitei-me eram quase duas da manhã e desmaiei. Pouco depois, meio a dormir desliguei a TV pois a miúda já tinha adormecido também. Passei a noite a acordar para lhe pôr a chucha. Conclusão: this is me, até vejo séries, mas claramente não devia.

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Tudo e Nada

2018

Adoro balanços de fim de ano. Sou uma pessoa que funciona por objectivos por isto aproveito esta altura — e a dos meus anos — para alinhar as coisas. Ou era. Porque nos últimos anos o lema foi «going rogue». Sou organizada e pessoa de regras, mas a melhor que instituí foi se as listas ficarem por fazer, que fiquem, se a organização se furar, que fure e se o caos quiser entrar, abrir-lhe-ei as portas. Não vos vou dizer que foi o ano que quis. Teve muitas coisas boas. Superámos imensa coisa. Ajudaram-me muito para poder descansar uns quantos dias e passear outros. Tenho fotos lindas. Mas não se fotografa a saudade. Não saí do país. Não dormi. Não fui a um único concerto, nem a uma peça de teatro. Fui só quatro vezes ao cinema. Faltei a ajuntamentos vários de amigos. Tenho três livros há meses na mesinha de cabeceira que quero mesmo ler e nem os abri. Continuo com a dissertação por entregar. Ainda não fiz a minha Master Class do Aron Sorkin. Chorei rios de água. Desesperei. Tive vontade de atirar os meus filhos à parede porque nalgumas noites de cansaço vi tudo vermelho. Mas joguei ao esconde-esconde com a loucura e continuo a ganhar, sei onde ela está e deixo-a lá. Agarrei-me ao sol que nasce sempre, mesmo nos dias mais feios. Saí para dançar duas noites apenas, eu que adoro tirar o pó dos ossos. Passei 6 noites fora com o meu marido sem filhos, precisava de 20. Discuti muito com ele, mais do que em toda a nossa vida e às vezes por coisas que não valiam dois segundos. Não mandei aquela pessoa que me disse que eu precisava de emagrecer «pelo Pedro também» à merda e às vezes lembro-me. Assim como não mandei a pessoa que no shopping me disse para não tirar fotos à Leonor de capacete e tapar o arnês com roupa. Já sei que me vão mandar não pensar nestas pessoas, mas quando uma pessoa está frágil, esconder as lágrimas por comentários estúpidos custa. Por isso em 2019 vou mandar mais pessoas à merda e chorar menos, prometo. Prometo também tentar não trabalhar aos fins-de-semana e namorar mais. Não quero mais filhos, mas quero mais destes.

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Tudo e Nada

Sabes lá, porra, sabes lá

Já me disseram uma vez quando me queixava da logística que sabiam como era e eu não disse, mas pensei para mim «sabes lá, porra, sabes lá». É, eu já tive só um filho, e as coisas mudam, mas fiz uma viagem de carro 13h com ele, outra de avião, viajámos sem ele, saíamos de casa quase todos os dias e jantava fora frequentemente com ele e sem ele. Com dois bebés quando tenho um almoço de família preciso de dois minutos no espelho da casa de banho a dar-me uma pequena pep-talk com muitos «tu consegues, Ana, é só sair de casa, não é andar de avião, são 4 km, não é esta merda que te vai deitar abaixo e ter o esgotamento”. A logística de ter gémeos é um inferno que devia dar para colocar no CV como demonstração de grande capacidade de conformação, logística, mediação de conflitos, e por aí fora. Já nem falo do dinheiro (lágrimas), mas da logística, o não poder pegar num ao colo e correr para dentro do restaurante sozinha, porque há outro à espera no carro  é daquelas coisas que só mesmo quem passa é que sabe. Eu nunca sonhei com este mundo, aliás, nunca levei a sério as vezes infinitas que o meu pai dizia que eu ou a minha irmã íamos ter gémeos atendendo à genética que possuíamos, e quando pensava nisso só pensava «ui, não é para mim». E de facto, não é. Porque a verdade é que em vez de fazer face às adversidades, suar e dizer asneiras, eu eliminei-as. É difícil viajar? Não viajamos. É difícil jantar fora? Nunca o faremos. É difícil almoçar todos os fins-de-semana com amigos? Passará a ser de quatro em quatro meses. Foi o caminho que encontrámos para manter a sanidade e não aceito que ninguém o critique porque os sapatos podem ser bonitos, mas quem anda com eles sou eu. Sabes lá, porra, sabes lá.

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Sobre a festa do primeiro aniversário dos gémeos

Então sobre ontem: decidimos fazer uma festa de aniversário aos putos daquelas mais para adultos do que para crianças, embora parte do nosso grupo de amigos já se tenha reproduzido por muitos. Assumo sem pudor que o único motivo pelo qual avançámos com a festa foi pela conhecida síndrome «segundo filho» que nos leva a fazer as mesmas coisas que fizemos ao primeiro ainda que não haja vontadinha nenhuma. Decidi marcar cabeleireiro para contrariar a falta de cuidado dos últimos tempos. Já estava de pratas no cabelo quando me avisaram que a coisa ia demorar 4h. Portanto, ia sair dali à hora a que a festa começava. Não sabia se devia chorar ou rir. Enchi-me de coragem e mandei sms ao marido que pensou que estava a gozar. Ao menos levei o computador para trabalhar e não se perdeu tudo. 4h depois, bastante mais pobre e com um cabelo que não gosto porque quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré e nos outros balayages é chique, em mim ficou só parecido com madeixas dos anos 90 mas em mau, saí do cabeleireiro, corri para casa, e arranjei-me em exactamente em 10 min e 19s. Não cronometrei ao segundo, mas pus o Sinnerman da Nina Simone a tocar e vesti o casaco no preciso momento em que a música terminou. No Thomas Crown Affair é o tempo que leva a assaltar um museu, na minha vida foi o tempo que consegui roubar para me vestir e pintar, sempre sempre a safar. Depois de entrar no carro e de me enganar duas vezes num caminho que conheço desde os 15 anos, constatei que se calhar não posso passar tanto tempo sem andar de carro porque fico com a capacidade de andar na cidade de um turista. A viagem demorou dez minutos, aí ao oitavo o meu corpo disse-me «Ana, aparentemente sobreviveste 30 anos sem saber que para fazer coisas, nomeadamente conduzir, é necessário respirares, pelo que enfiares-te numa cinta que parece querer que os teus órgãos se unam para sempre é parvo». Tive de estacionar longe, porque os lugares perto estavam ocupados pelos convidados da minha festa, como é óbvio e irónico, e tentei correr para a porta. Aqui pensei: foda-se, eu tenho de ser estudada. Acho que sou um exemplo perfeito dos efeitos da privação de sono. A sério, eu era uma pessoa com uma boa capacidade de tomar decisões, acho mesmo que a perspicácia era uma das minhas melhores qualidades. Agora, só tomo decisões de merda. Tenho três filhos que não param quietos e decidi vestir uma saia lápis. Muito justa, o que não abona a favor da minha elegância, e com elasticidade que permite um diâmetro de ação tão reduzido que andar fica difícil, correr uma utopia. Juntei-lhe saltos altos. Objecto de estudo, definitivamente. Assim que pus o pé na festa pensei que o meu corpo ia entrar em paragem cardiorrespiratória, mas a primeira pessoa que me viu disse «estás tão linda» e a seguir o meu filho mais novo chorou quando olhou para mim, o que decidi entender como um elogio. Do depois nada mais há a dizer porque a tristeza torna-me poeta, o caos com a mania que sou engraçada e a felicidade muda.

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Luto

Antes de o saber só na teoria e não na prática, achava que da definição de luto constava «fase». E as fases entendem-se passageiras. Mais ou menos demoradas, mas que passam. Agora que se instalou, por mais que lute, sei a verdade: não é fase, é para sempre, fica como não fica a vida, que se vai. O início é doloroso em permanência: o choque e a faca afiada espetada com pontaria no nosso ponto mais nevrálgico não deixam paz. O durante, longo como é tudo o que não tem fim, é apaziguador e simulado. Faz as vezes de normalidade, mascara-se de dia a dia e quando acorda escarafuncha para doer muito em pouco tempo.

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Um ano de blogue

Fez há dias um ano que decidi criar este boteco e escrever sobre o que me apetece. Continuo satisfeita com a decisão, tenho conseguido deixar de ter vergonha de fazer uma das coisas que mais gosto: escrever (e fazer piadas!). Já conheci pessoas através do blogue e passei a falar mais com outras que já conhecia e, portanto, o balanço é bom e estimo continuar.

Não temam que me torne uma blogger como às bloggers, na verdade, já estive quase, quase para me deixar enamorar pelo estrelato, mas aprendi a dura lição da realidade: no dia seguinte a ganhar uns quantos seguidores novos no Instagram fui ao hipermercado e reparei em muitos olhares indiscretos. Pensei logo “Ai não posso, as pessoas reconhecem-me, deve ser da página!! Tenho de ir ao cabeleireiro, não tarda vou às tardes da Júlia.”. Levei as compras todas a perceber o que havia sucedido, tinha a camisa toda aberta e andei a passear o meu soutien novo de renda pelos corredores de pensos higiénicos e enchidos. Não foi o Insta que me fez render olhares, foi mesmo o meu mamaçal a chamar a atenção, já devia ter aprendido que não há uma alma amiga que diga «então e esse botãozinho maroto?»…

Para comemorar o primeiro aniversário não há passatempos, nem códigos de desconto, mas aproveito para responder a uma das coisas de que mais me falam: o nome da blogue. Estive indecisa entre vários nomes tristes, porque originalidade para nomear coisas é algo que não me assiste. Escolhi Três antes do Trinta não, ao contrário do que alguns já me disseram, por achar que é raro ter três filhos antes dos trinta (porque sei bem que não é, é pouco comum no contexto das minhas relações, mas não é geral), mas sim porque eu ter três filhos antes dos trinta continua a ser uma das maiores surpresas da minha vida. Nunca fui uma pessoa maternal, nunca entendi a maternidade como obrigatória e quando era mais nova dizia até que não sabia se queria ser mãe. Entretanto, cresci, apaixonei-me e percebi que queria ter filhos, mas na verdade sempre disse que só seria mãe depois dos trinta, tinha planeado a coisa como planeio tudo na vida. O meu filho mais velho foi planeado, mas foi algo antecipado depois de perdermos um bebé que não tinha sido planeado (mas muito desejado). Percebi que estava preparada na altura pela maneira como fiquei feliz quando descobri que estava grávida e depois triste quando o perdi. Fui mãe de filho único com um pós-parto de loucos, senti-me enganada pelas visões românticas da maternidade e estava decidida a esperar no mínimo três anos para lhe dar um irmão (isto se conseguisse dormir até lá). Mas a vida deu-me a volta e engravidei sem o planear (sim, eu sei que tendo sexo uma pessoa arrisca-se, mas quando determinados métodos conceptivos falham como as notas de 500 é surpresa) e logo de gémeos. Portanto, em menos de nada, eu, que não me imaginava mãe antes dos trinta, que nunca sonhei ter três filhos, acabei mãe de três aos 29 anos. E foi assim que a coisa surgiu. As pessoas têm sempre tendência de ver críticas em todo o lado e até no nome do blogue já conseguiram pegar: eu não sou defensora da maternidade antes dos trinta, ou crítica da maternidade mais tarde, o nome é sobre mim e não sobre os outros.

 

Entretanto, passado um ano, já somos uns quantos por aqui, pela página de Facebook e pela página de Instagram e alguns perguntam-me o que quero da coisa e eu continuo sem saber. Os mais cuscos estão convencidos que já choveram artigos vários de fraldas e afins e que cada vez que falo de alguma coisa recebo imenso guito. Amigos, não, nada, continuo a pagar tudo o que consumo e é certo que já tive imensas propostas imperdíveis, mas foram só duas e incluíam vender a alma a 33 posts em troca de artigos que eu não ia ali abaixo levantar nem que me pagassem. [Uma nota para dizer que adoro que «as agências» adorem o meu blogue, mas não tenham conseguido sequer perceber que sou de Coimbra e odeio pessoas, pelo que um evento num shopping na grande Lisboa não entra na minha definição de i-m-p-e-r-d-í-v-e-l] Por esse motivo, continuo a ser uma mera influenciadora dos meus filhos e mesmo esses não fazem nada do que eu lhes digo.


Vamos a mais um ano! Prometo se continuar por aqui mais um ano faço um giveaway à grande: três miúdos lindos uma semaninha em vossas casas… Mal podem esperar, não é?

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Maria Bitaites Internautas

Depois de ter feito o post das Marias Bitaites – Edição Gémeos, muitos me pediram para fazer a versão reunião de pais e grupos de mães no Facebook. Pronto, foram só duas pessoas, mas foram duas pessoas de quem eu gosto muito, por isso valem por muitas, certo? Ora, de reuniões de pais não percebo. Não estou especialmente entusiasmada com essa fase da vida, acho que vou ter muito material, mas a verdade é que para já vivo na ignorância.
Já relativamente a grupos de mães no Facebook………… Eu boto o olho em tudo e raramente comento algo, a maioria das vezes simplesmente remeto-me ao silêncio gozador. Mas que já vi cenários de horror, já. E por isso aceitei o repto.
Aqui estão então as Maria Bitaites Internautas:

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Coisas que irritam Tudo e Nada

No is no

Aqui há uns anos, quando o Obama foi eleito Presidente dos Estados Unidos li uns artigos sobre racismo na América e lembro-me de pensar «não, nós não somos assim racistas». Em conversa com alguém muito tempo depois apercebi-me da dura realidade: somos igualmente racistas, simplesmente nos EUA fala-se disso, aqui não. Quando o Trump foi eleito apesar de existirem gravações dele a dizer que apalpava as mulheres pela rata (entre outros episódios), eu pensei «nós, não somos assim misóginos, machistas». Estão a ver onde é que vai dar, não estão?
Nós últimos dias, a propósito da questão da acusação de violação do Ronaldo, ver a propagação de comentários «é, achava que ia beber chá para o quarto», «ó Ronaldo, usavas vaselina para não fazer dói-dói», «acabou-se o dinheiro e agora quer mais», muitas vezes de mulheres e muitas vezes acompanhados de demonstrações claras de nem terem procurado saber os contornos do caso, é desanimador e faz-me concluir que sim, somos.
Aquando de decisões como as do acórdão da «sedução mútua» nunca falta quem os censure munido de argumentos como «eu tenho uma filha e não é este mundo que quero para ela» como se fosse preciso ser-se mulher, ter filha, mãe ou namorada para se ser feminista e como se o futuro que deixamos aos filhos fosse o único móbil para defender um mundo melhor para hoje. Hoje uso eu esse argumento: é isto que querem ensinar às nossas filhas? Se subires ao quarto, é porque tens de dormir com ele, quer queiras quer não! Se usares decotes, já sabes que os homens se podem usar do teu corpo. Se gostares de sexo, tens de gostar de tudo. Se disseres que sim, não podes mudar de ideias, não vale de nada dizer não. É assim? E é isto que queremos ensinar aos nossos filhos? Se ela aceitar ir contigo para o quarto, podes servir-te do corpo dela como quiseres. Se ela aceitar ir jantar, já sabes que está no papo e podes ser violento para o concretizar. Se ela disser sim a um beijo, considera-a disponível para tudo. Se ela estiver de decote, é porque quer que a comas. É assim?
Não sou daquelas pessoas que defende que o mundo está cada vez pior. Continuo a defender que o mundo em que os meus filhos nasceram é incomensuravelmente melhor do que aquele em que eu nasci: o desenvolvimento, o progresso da tecnologia ao serviço da nossa saúde, locomoção, felicidade, a quebra de barreiras importantes, a conquista de liberdades e a defesa dos direitos civis nos países desenvolvidos melhoraram o mundo nestes últimos 30 anos. No entanto, ao ver estas reacções lembro-me que ainda falta muito.

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