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Tudo e Nada

Tudo e Nada

Maria Bitaites Internautas

Depois de ter feito o post das Marias Bitaites – Edição Gémeos, muitos me pediram para fazer a versão reunião de pais e grupos de mães no Facebook. Pronto, foram só duas pessoas, mas foram duas pessoas de quem eu gosto muito, por isso valem por muitas, certo? Ora, de reuniões de pais não percebo. Não estou especialmente entusiasmada com essa fase da vida, acho que vou ter muito material, mas a verdade é que para já vivo na ignorância.
Já relativamente a grupos de mães no Facebook………… Eu boto o olho em tudo e raramente comento algo, a maioria das vezes simplesmente remeto-me ao silêncio gozador. Mas que já vi cenários de horror, já. E por isso aceitei o repto.
Aqui estão então as Maria Bitaites Internautas:

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Coisas que irritam Tudo e Nada

No is no

Aqui há uns anos, quando o Obama foi eleito Presidente dos Estados Unidos li uns artigos sobre racismo na América e lembro-me de pensar «não, nós não somos assim racistas». Em conversa com alguém muito tempo depois apercebi-me da dura realidade: somos igualmente racistas, simplesmente nos EUA fala-se disso, aqui não. Quando o Trump foi eleito apesar de existirem gravações dele a dizer que apalpava as mulheres pela rata (entre outros episódios), eu pensei «nós, não somos assim misóginos, machistas». Estão a ver onde é que vai dar, não estão?
Nós últimos dias, a propósito da questão da acusação de violação do Ronaldo, ver a propagação de comentários «é, achava que ia beber chá para o quarto», «ó Ronaldo, usavas vaselina para não fazer dói-dói», «acabou-se o dinheiro e agora quer mais», muitas vezes de mulheres e muitas vezes acompanhados de demonstrações claras de nem terem procurado saber os contornos do caso, é desanimador e faz-me concluir que sim, somos.
Aquando de decisões como as do acórdão da «sedução mútua» nunca falta quem os censure munido de argumentos como «eu tenho uma filha e não é este mundo que quero para ela» como se fosse preciso ser-se mulher, ter filha, mãe ou namorada para se ser feminista e como se o futuro que deixamos aos filhos fosse o único móbil para defender um mundo melhor para hoje. Hoje uso eu esse argumento: é isto que querem ensinar às nossas filhas? Se subires ao quarto, é porque tens de dormir com ele, quer queiras quer não! Se usares decotes, já sabes que os homens se podem usar do teu corpo. Se gostares de sexo, tens de gostar de tudo. Se disseres que sim, não podes mudar de ideias, não vale de nada dizer não. É assim? E é isto que queremos ensinar aos nossos filhos? Se ela aceitar ir contigo para o quarto, podes servir-te do corpo dela como quiseres. Se ela aceitar ir jantar, já sabes que está no papo e podes ser violento para o concretizar. Se ela disser sim a um beijo, considera-a disponível para tudo. Se ela estiver de decote, é porque quer que a comas. É assim?
Não sou daquelas pessoas que defende que o mundo está cada vez pior. Continuo a defender que o mundo em que os meus filhos nasceram é incomensuravelmente melhor do que aquele em que eu nasci: o desenvolvimento, o progresso da tecnologia ao serviço da nossa saúde, locomoção, felicidade, a quebra de barreiras importantes, a conquista de liberdades e a defesa dos direitos civis nos países desenvolvidos melhoraram o mundo nestes últimos 30 anos. No entanto, ao ver estas reacções lembro-me que ainda falta muito.

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Tudo e Nada

Tem calma

Basicamente uma pessoa anda aí e pensa que há mães como há mulheres, todas diferentes, mas vai-se a ver e afinal só há dois tipos: mãe-galinha e a mãe-relaxada. E ou se é uma ou se é outra. A mãe-galinha é demais: é tudo em bom, mas demais. Ama tanto que sufoca, preocupa-se tanto que exagera, cuida tanto que não dá espaço. A mãe relaxada deixa tudo andar, não se preocupa, vive a vida. E, como em tudo nesta merda da maternidade, ou se é uma ou outra.
Volta e meia, alguém me diz a propósito de alguma coisa com os meus filhos que tenho de ser mais relaxada, mais descontraída que não ando a aproveitar. Quando alguém me diz que eu «tenho de ser» de determinada maneira fico logo com comichão, apetece-me mandar essa pessoa à merda, mas aguento-me porque sei viver em sociedade. Eu devo ser relaxada? Mas quem é que disse que eu não sou relaxada? E… quem é que disse que eu quero ser relaxada? E o que é ser relaxada? E quando é que devo ser relaxada? E como… vocês percebem. Depois a sentença: «Estás em stress com tudo, tens de deixar a vida levar, o teu stress passa para eles, sabes, por isso é que eles não dormem/comem/cagam/falam”. Ora, fica o disclaimer: eu não sou relaxada, não sei ser e não quero ser. Nunca fui. Não sei ser assim com os miúdos porque não sei ser assim com ninguém. O meu pai abeira-se de uma cena mais alta (e fá-lo tantas vezes só para se me meter comigo) e eu passo-me, fico com dores de barriga porque tenho medo de alturas. O meu marido todos os dias faz 200 km e tem que me mandar mensagem SEMPRE que chega e sai, mesmo se estivermos amuados, já fiz pausa em discussões para perguntar se ele chegou bem. Se tenho alguém de quem gosto no ar fico com o coração apertado até os saber em terra. Sempre. Sou assim, acho que herdei isto.
Isto para dizer, se há suspeitas de os meus filhos terem alguma coisa sim, eu vou ler tudo o que há na net sobre isso. Sim, vou preocupar-me, mesmo que não seja nada. Sim, consome-me. Mas não sei ser de outra maneira e não estou a tentar.
Por outro lado, eles têm febre ou fazem uma alergia alimentar e eu não vou a correr para o pediátrico até para espanto dos médicos, como já aconteceu. Vigio e velo, mas não entro em pânico. E caem e eu não grito logo. E sacudo o pó de feridas, dou beijinho e digo para seguirem com a brincadeira depois de quedas aparatosas no parque.
Ser relaxada e ser mãe-galinha para mim é dia-a-dia, é tão normal como ser trabalhadora e preguiçosa, que sou. É possível ser-se um pouco de tudo, não somos apenas uma coisa só porque perante determinado cenário somos de certa forma.
Não digam a ninguém que está preocupado com alguma coisa, especialmente se for grave, para relaxar. É que toda a gente sabe que tem o efeito contrário, por isso eu vou achar que estão a fazer de propósito só para irritar.
Se uma pessoa confidencia que está preocupada com algo, menorizar o problema tentando-lhe dizer que tem que se acalmar não é de amigo. Dizer «isso não é nada, vocês estão a exagerar» não é de amigo. Não digam que mandam relaxar porque querem as pessoas calmas, não se enganem. Se querem ser amigos digam «de que é que precisas?» ou oiçam. Às vezes quando uma pessoa está preocupada a desabafar está só à procura de ser ouvida, não de ser aconselhada.

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Maternidade Tudo e Nada

Os amigos desaparecem depois de teres filhos

Ouvi isto muitas vezes antes de ser mãe. Há uns tempos li este artigo sobre amizades que terminam depois de se ter filhos.

 

Um filho representa uma grande mudança na nossa vida, não tenho dúvidas sobre isto. As nossas prioridades mudam, os nossos horários são diferentes e claro, a nossa disponibilidade não é a de outrora.

 

Para mim qualquer relação dá trabalho, e a amizade não é excepção. Não é um trabalho de esforço, é um trabalho natural, mas envolve sempre cedências. E como tal, depois de ser mãe acho que há trabalho de ambas as partes para manter a amizade, mas não é impossível.

 

Os meus amigos não desapareceram. As minhas amigas não foram a lado nenhum (nunca vão). Quando fui mãe, elas estiveram lá, ainda que não ao meu lado, à distância de um telefone, com uma emoção genuína, que nunca esquecerei.

 

Desde então tive falta em muitos eventos, mas não sinto que tenha mudado nada. Dá trabalho? Claro que sim. A eles agradeço adaptarem-se aos meus horários, fazerem o esforço de me vir visitar sempre que podem, de me perdoarem não estar em cima de todos os acontecimentos, como antes. Eu tento não perder conversas de WhatsApp e organizar-me para estar com eles. Não é fácil, mas tento. O ano passado fui a uma despedida de solteira grávida dos gémeos. Custou-me, só me apetecia estar na cama a dormir, mas queria muito estar com elas e fiz o esforço. E adorei.

 

Nós na despedida. Eu ainda tinha medo de anunciar a gravidez e então colocava-me estrategicamente a esconder o pancil 🙂

O artigo que li falava do facto de os amigos não perceberem que os recém-pais quando têm tempo livre preferem passá-lo a dois ou a dormir em vez de ir sair com os amigos. Percebo bem isto. A verdade é que depois de ter filhos a vontade de sair à noite desapareceu, todo o meu tempo livre por mim era passado no cinema ou a dormir. Mas sempre que faço o esforço de sair, não me arrependo. E as minhas amigas percebem-me, não escondem que gostavam que eu pudesse participar em mais coisas, mas nunca me cobraram a mudança das minhas prioridades, perceberam e tentam sempre amenizar o impacto que isso tem nas nossas vidas. As amizades vivem dos momentos que passamos juntos, da vida que partilhamos, mas sobrevive fases mais distantes se houver esforço de compensar isso.

 

Claro que há coisas que só os amigos com filhos percebem, e com eles as nossas combinações passam a ser mais fáceis, é um facto. Eu e o meu marido temos a sorte de ter amigos bem próximos que estão na mesma fase da vida que nós. E na verdade até fizemos novos amigos depois de sermos pais, precisamente porque passámos a ter outras coisas em comum com outras pessoas.

 

No entanto, do círculo das minhas melhores amigas eu sou a única que já tenho filhos. É claro que às vezes gostava que elas percebessem melhor os meus dramas, mas nem por isso senti que não estão capazes de conselhos ou de perceber o que passo. Quando desesperei no pós-parto do Gonçalo foi com elas que falei tantas vezes porque embora não tivessem nenhum conselho milagroso típico de mãe, também não tinham nenhum julgamento: nunca me disseram que era por eu estar a dar de mamar assim ou pôr a dormir assado. Ouviram-me, disseram que não imaginam o que é, deram força e namoraram o meu bebé como tias babadas que são. Se eu as tivesse excluído de alguns queixumes, se tivesse pensado que elas nunca me entenderiam só por não serem mães, nunca tinha percebido que isso não é verdade.

GAM com quase 4 meses. Amigas de uma vida.

 

Há uns dias uma das minhas amigas mais antigas veio visitar-nos, ainda não conhecia os gémeos. Já tivemos mais de um ano sem nos ver, somos amigas há mais de 15 anos. Não caímos na farsa de ficar amigas com conversas de WhatsApp intermináveis com promessas de cafés que nunca acontecem e perguntas esporádicas de «está tudo bem?», não, falamos de tempos em tempos por WhatsApp como se nos tivéssemos visto naquele dia «viste aquele trailer?», «sabes quem é que se vai casar?» com a presunção de proximidade física típica de outras eras da nossa relação. Ela veio e passou cá a tarde, falámos enquanto os miúdos dormiam, enquanto lanchavam, enquanto lhe demos banho. Ela ajudou, tirou fotos, esperou e foi assim, em movimento, que fomos pondo a escrita em dia. Apesar de já não estar com ela com calma há meses sem ser em comemorações onde não há muito tempo, parecia que os tempos em que nos víamos todos os dias tinham sido ontem. Claro que se eu pudesse tinha ido ao cinema com ela como fazíamos antes e ela também o teria preferido, estou certa. Mas a minha nova realidade não impediu uma boa tarde entre amigas.

 

As amizades não têm porque acabar depois dos filhos. Mas é preciso ter vontade que isso não aconteça. Não sou a melhor amiga do mundo, tantas vezes me esqueço de coisas importantes, são muitas as conversas que perco e outras tantas as coisas a que tenho que falhar, mas tento ter sempre algum tempo e entendo os amigos como prioridade, nunca como item prescindível. Tiro tempo para os meus amigos, cuido deles como melhor sei e como melhor posso. Não posso esperar que a vida deles mude para me acomodar, tento incluir-me quando posso, excluir-me quando não dá e pedir adaptações sempre que sinto que não é demais. De cedência em cedência a coisa compõe-se e não sinto problema que a distância – que veio bem antes das crianças – não tenha há muito trazido.

 

Os amigos a sério ficam. Os amigos a sério nunca vão.

 

Quando os gémeos nasceram foram quinze dias para os cuidados intensivos. No fim-de-semana a seguir a terem nascido eu já estava em casa. Uma das minhas melhores amigas queria passar para me dar um beijo quando eu estivesse em casa e eu confessei-lhe que não me apetecia ver ninguém. Estava preocupada com eles, mas sobretudo triste por não os ter comigo e tinha um circo hormonal dentro de mim, só me apetecia chorar. Ela disse que não importava e que ficava para outra altura. Saí para ir ver os gémeos à UCIN, deixei o Gonçalo com os meus pais e irmã e quando cheguei a casa tinha um ramo de flores em cima da minha cama com um bilhete. Ela tinha ligado à minha irmã, pedido para passar enquanto eu estivesse fora porque não me queria ver para não se impor. Deu um beijo ao Gonçalo, ofereceu-lhe um presente e deixou-me flores e umas palavras. Chorei quando (a) li,  feliz com a surpresa, a receber o abraço que me quis dar e arranjou maneira de entregar, mas sem estar surpreendida porque conheço bem aquela amiga, pessoa com quem conto a toda a hora. Isto é amizade, daquelas que não vai a lado nenhum. É este o trabalho que dá, que não é grande esforço quando se gosta, mas que é tudo quando se precisa.

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Maternidade Tudo e Nada

Marias Bitaites

Ora, já se sabe que quando nasce uma mãe nasce uma multidão de Marias Bitaites. Eu já encontrei estas subespécies:

A Ai-o-meu-não:
«Ai o teu filho não come bem? Ai o meu não, logo a primeira vez que lhe dei comeu o prato todo tive que ir aquecer mais!»
«O teu não dorme bem? Ai o meu não, desde que veio da maternidade que dorme 10 horas à noite, eu às vezes até tenho saudades dele!»
«O teu filho está na fase das birras? Ai o meu não, nem sei o que são birras, ele é muito calminho, nunca chorou.»

Die, bitch.

A positiva:
«Sabes, isto não são birras, são eles a comunicarem. E nós temos que ouvir, é só isso.»

Não toutóbir.

A saudosista:
«Ainda vais ter saudades disto, a sério, o meu tem 3 meses e eu já estou cheia de saudades de quando ele nasceu.»

Eu percebo, eu tenho imensas saudades… de quando eles ainda não tinham nascido!

A sabe-tudo:
«O bebé não gosta do banho? Isso é alergia à água. Tens que cristalizar a água que basicamente consiste em ferver a água, deixar evaporar TODA, depois voltar a ferver, abençoar, congelar e depois deixar entre 3 a 5 dias a descongelar e dar banho com essa água. Vais ver que passa.»

What.the.fuck?

A que tem uma prima que também lhe aconteceu isso, mas na volta não:
«A minha prima teve uma bebé que também passou por isso. Mas foi menos tempo, ou mais, já não me lembro. E acho que ficou tudo bem. Ou não, espera, não, ela teve que ser operada, foi isso. A sério, foi isso, ela depois ainda teve que ser operada. Mas depois ficou tudo bem. Ou não, já não me lembro bem, mas acho que ela ainda hoje tem lesões.»

Aaaaah obrigada, pá. Obrigada.

A papa descontos-promoções-preços baixos:
«Espera lá esta fralda que eu estou aqui a ver é da Dodot? Sabias que as de marca branca e são 0,2567 cêntimos mais baratas e são iguais? A sério, SÃO FEITAS NA MESMA FÁBRICA. Nunca mais compres disto, estás a perder 0,2567 cêntimos de cada vez e isso vezes 7 por dia são 7 vezes 0,2567 e no final do ano – acredita que eu já fiz as contas – é uma viagem ao Brasil, a sério.»

Espera, não apontei, são de onde? Viagem ao Brasil, mas não estávamos a falar de fraldas? Ai fónix, queres que eu vá ao Brasil com eles, tu és doida?

A que fala para o bebé e não para nós:
«Ai tens que dizer à tua mãezinha que já não te deve pôr chuchita que isso é para bebés e tu és crescidote.»
«Ai ainda de fraldita, quando é que pedes à mamã para te fazer o desfralde???»

Are you talking to me? É que o meu sensor de recados indirectos escafodeu por isso não percebi.

A que te quer criticar mas não consegue então elogia de forma reles:
«Sabes, no fundo gostava de ser como tu, assim depreendida e relaxada, eu sou muito protectora parece que não consigo desligar-me deles nunca e que os amo mais que tudo, percebes?»

Olha eu cá não quero ser como tu, odeio cabras passivo-agressivas.

A que acha que isto é um jogo e faz sempre raise:
«Ai estás aí a queixar-te, mas tu ainda tens imensa ajuda. Eu não tenho avós e empregadas e ainda faço tudo o que estás a fazer enquanto me balanço numa corda numa daquelas biclas só com uma roda.»

Eia, xau, eu não tinha percebido que isto era um concurso, se soubesse tinha treinado as lamúrias, vim sem estudar.

A que nem quer dizer nada mas depois diz tudo:
«Pois, olha, eu na altura nem quis dizer nada, mas eu sempre achei isso. Sempre. Os pediatras hoje em dia ainda aconselham isso, mas cá para mim é maligno. Mas pronto, quem sou para dizer, é só o que aconselham os mais recentes estudos, mas eu não quero estar aqui a dizer que estás a fazer mal, eu é que como sei estas coisas não consigo ficar calada.»

Mas olha que calada eras uma poeta.

 

Eu, Maria Bitaites, me confesso. É por bem, às vezes quero tanto ajudar que acabo a mandar postas.
Mas não vamos é exagerar, sim? Deixem as mães em paz!

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Passear Tudo e Nada

Quinta das Lágrimas

Nos meus anos, como contei aqui, a minha tia ofereceu-me uma noite na Quinta das Lágrimas. Há muito que queria lá ficar. Para quem é de Coimbra, não faz muito sentido ir passar uma noite à Quinta das Lágrimas, porque uma escapadinha sabe sempre melhor quando se é para mais longe, mas eu sempre quis lá ficar. Já conhecia o restaurante (havia lá ido há anos com os meus pais), já lá tinha estado em festas e conhecia o jardim, mas queria lá estar como turista por isso fiquei muito feliz de lá passar a noite dos meus anos.

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Love is all you need Tudo e Nada

Depois dos três, os trinta

Eis que chegaram os trinta. De mansinho, com anúncios suaves nas cruzes, chegaram para ficar. Gosto de números redondos, ligo a estas datas porque gosto sempre de parar e pensar como foi o ano e o que quero para o seguinte. Ficaram algumas coisas por fazer (tinha prometido entregar a dissertação do Mestrado em Tradução até aos 30, mas com tanta criança foi impossível) e fiz mais do que alguma vez imaginei. Apesar de gostar de traçar objectivos, sei que são flexíveis, moldáveis, que a vida tem vida própria e não me preocupo quando a minha vida não tem nada que ver com o que eu achava que ia ser há dez anos.

 

Gosto de fazer anos e de comemorar por isso fiz questão de comemorar. Na verdade, ansiava por uma saída à noite com jantar à maneira com amigos porque além de não ser frequente nos dias de hoje, nos últimos três anos as comemorações foram sempre moderadas: no meu aniversário há três anos estava grávida (de um bebé que acabei por perder), há dois anos estava grávida do Gonçalo, e há um ano grávida dos gémeos (embora ainda não soubesse que eram dois).

 

No dia do aniversário, estive em família e depois fui passar a noite à Quinta das Lágrimas, a gozar uma prenda fabulosa que me ofereceram.

 

Recebi imensas coisas que amei, família e amigos mimaram-me até mais não.

 

A minha irmã começou o dia por fazer uma surpresa maravilhosa: preparou o pequeno-almoço. Acordei e era este o cenário cá em casa:

O Gonçalo delirou. Ovos mexidos de manhã? Uepa!

 

 

No sábado fomos jantar ao Sapientia Boutique Hotel e depois fomos à famosa festa Revenge of the 90’s. Foi uma noite gira, gostei mesmo muito.

O bolo? Como sempre a minha irmã superou-se e fez esta obra de arte que além de bonito estava delicioso:

 

Obrigada a todos que tornaram o meu aniversário tão bom e que durantes estes trinta anos estiveram sempre ao meu lado. Tenho muitos planos para os próximos trinta.

Para responder às várias pessoas que brincando me perguntaram se planeava ter quatro antes dos quarenta: não. Filhos ficamos por aqui. Mas tenho muito que fazer e o desafio enorme de os ver e fazer crescer.

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Love is all you need Tudo e Nada

01.06

Hoje fazemos 5 anos de casados e 11 de namoro. A semana passada falámos em divórcio. Já viste, tínhamos guarda partilhada, tu uma semana, eu outra! Sim, passávamos uma semana de cão com eles sozinhos, mas depois a outra… Ver séries à noite, filmes, ir ao cinema… Mas depois as nossas séries, tinha que ver sem ti? E jantar, pedia pizza para um? Falámos de divórcio mas esquecemo-nos que tínhamos que estar separados. Separados não, sempre juntos.

Passar da sintonia de 2 a pais de 3 em 2 anos, não é fácil. Precisamos de férias. Deles, não um do outro. Não imaginava fazer isto tudo sozinha, nem com outra pessoa. Nós, sempre juntos. Não sou a miúda com quem começou a namorar, nem a mulher com quem casou. Às vezes sou só cansaço, sou só sono. E refilo, e respondo mal, e queixo-me, mas estamos sempre juntos, ele sempre ao meu lado, nunca contra mim.

Desde que fomos passar o fim-de-semana fora que não dormimos uma noite inteira juntos. Umas horas com os gémeos, um vai ao Gonçalo, o outro aos gémeos, e ora troca, e agora tu, agora deixa vou lá eu, e passam-se dias e semanas em que falamos de uma divisão para a outra e comentamos coisas com trinta interrupções. Mas ele abraça-me quando nos encontramos na cama e faz-me ter ataques de riso quando preparamos os biberões do gémeos à noite. Costumam elogiar-me o sentido de humor para lidar com este caos, mas não sabem que isso é uma cena nossa. Antes de ser um blogue, é uma conversa de whatsapp em que mandamos vir com a vida e nos rimos das nossas tretas ou simplesmente provocamos uma oportunidade de pôr aquele GIF. Não há dia nenhum desde que estamos juntos em que não me tenha feito rir, mesmo os em que me fez chorar, quase sempre me fez rir, até as nossas discussões têm piadas. Há piadas só nossas porque só nós as percebemos e outras que são só nossas porque se forem do mundo temos a CPCJ amanhã de manhã à porta.

Há 11 anos, quando o conheci na queima das fitas, levava o grão na asa e arrastei-a para ele, mas não fazia ideia de que ele seria o pai dos meus três filhos. Tão-pouco agora sei se daqui a outros 11 estaremos juntos. Ninguém sabe. Mas suspeito que sim. Sempre juntos.

O ano passado fizemos 10 anos de namoro. Fiz-lhe uma surpresa que envolveu andar pela cidade a apanhar cartas que lhe escrevi e deixei em locais que nos faziam sentido. Ele disse-me que achava que última ia terminar com «e agora vamos ser quatro». Eu ri-me e disse-lhe que no dia seguinte compraríamos um teste de gravidez para ele parar de dizer que eu estava grávida. Tinha-lhe escrito «ainda agora começámos», mas não fazia ideia de que sim estava grávida e que o teste que comprámos foi das poucas vezes que não tinha razão. Não sabia que íamos ser mais, nem sabia que nunca chegaríamos a ser quatro, que 5 era afinal o nosso número. Hoje fazemos 5 anos de casados. Venham mais 5, a 5, mas sempre a dois, juntos. Ainda agora começámos.

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Coisas que irritam Tudo e Nada

Prioridades

Acho que mudei um pouco aquilo que achava sobre prioridades. Antes de engravidar achava que o mundo era um pouco mais sensível do que é — talvez porque eu e aqueles que me são próximos são — e era da opinião que o tema prioridades era uma questão de bom senso. Depois de engravidar apercebi-me que o bom senso que eu imaginava que existia, escasseia. Durante muito tempo não pedi para ter prioridade, não me sentia bem e na verdade, não necessitei. Da gravidez do Gonçalo devo ter utilizado a prioridade enquanto grávida umas duas vezes na farmácia e mesmo no final da gestação. Depois de o Gonçalo nascer também usei a prioridade umas quantas vezes quando tive que estar na fila com ele na segurança social, nos correios, etc… Ainda tive algumas chatices, funcionários antipáticos e sem vontade de reconhecer a prioridade e pessoas que não gostavam que eu tivesse prioridade que me chegaram a dizer «eu também tenho um filho, está na escola e tenho que o ir buscar!». Não discuti, não me irritei e confesso que até senti vergonha de pedir. Não sei bem porquê, de facto uma grávida não deve esperar o mesmo que os outros, por melhor que seja a gravidez, não é confortável. E um bebé até dois anos é impossível de aturar numa fila, eu não levo os meus porque dá jeito, levo-os porque tem mesmo que ser, por isso também percebo que se facilite a vida às pessoas. Já sei que há quem se tente aproveitar, mas duvido que alguém deixe de levar os miúdos para a escola para ir para a fila da loja do cidadão. É cortesia. Ou devia ser. Na verdade teve que passar a ser lei para se efectivar.

Na gravidez dos gémeos a coisa ficou diferente. Desde cedo que fiquei com uma grande barriga, desde cedo que me custava estar em pé e no último mês custava-me tudo. Nessa altura pensei: a prioridade existe, é um direito que me assiste, não vou tentar explicá-lo ou justificá-lo a quem não quer compreender. Vou usar do meu direito com educação.

 

Finanças. 15h30 da tarde. Eu grávida de gémeos de 32 semanas. Retiro a senha B32 e verifico que vai na B28. Não existem senhas prioritárias. Um cartaz informa que aqueles que têm direito à senha prioritária devem retirar a sua senha normalmente e dirigir-se ao balcão que está a atender essas senhas e solicitar o atendimento com prioridade. Foi o que fiz. A funcionária, com poucos modos, disse-me para aguardar na zona de espera (zona onde não existiam lugares sentados livres e onde ninguém se levantou para me dar o lugar, por sinal) que já me chamava.

Passado pouco tempo anunciou para a zona de espera:

«A senhora que solicitou prioridade, quem é?»

Eu identifiquei-me e avancei. Nisto, uma senhora passou-me à frente, indicou que também tinha prioridade e não sabia que era necessário pedir. A funcionária barafustou algo, eu disse que se existia alguém com prioridade à minha frente, claro que essa pessoa devia ser atendida, e cedi a passagem, indo-me sentar no lugar da senhora que se levantara. A senhora dirigiu-se ao balcão, mostrou um atestado e a funcionária, de forma muito mal-educada e bastante alto, informou-a «que isto não é assim», «atestado multiusos muitos têm», «isso não dá direito a prioridade».

E aos berros, perguntou-me:

«E a senhora, tem prioridade porquê?».

Incrédula, ri-me.

«Olhe, agradeço que pergunte, mas acho que se vê bem: estou grávida…».

«Ai e gravidez é prioridade? Não pode esperar sentada?»

Não sei como é que mantive calma. Senti-me meio humilhada. A funcionária tentou diminuir-me à frente de todos para não me dar prioridade, como que a dizer-me que eu não podia esperar porque era parva.

«Não, não posso». Aproximei-me dela, para não lhe gritar, com o respeito que não teve para comigo, e expliquei que tinha a certeza que tinha direito a ter prioridade por estar grávida e que não era eu que achava, era a lei. Das duas uma: ou me concedia prioridade, ou teria que escrever no livro de reclamações. Não vacilei. Embora tivesse ficado nervosa, fiquei irritada pela maneira como me tratou e deixei claro que sabia que tinha prioridade e não ia desistir.

A funcionária chamou a Directora de Serviço, que, antes de tudo, lhe pediu para ela falar baixo, demonstrado desde logo ter mais educação. Depois explicou-me o que eu tinha que fazer para ter direito a ter prioridade, como se EU estivesse a errar. Eu expliquei-lhe que foi assim que procedi, a funcionária é que entendia que eu não tinha direito a ter prioridade. Então a Directora indicou-lhe que eu estava «notoriamente grávida» e que tinha que ser atendida.

Dirigi-me para a cadeira do balcão da grandessíssima vaca que me atendeu munida da minha viola invisível para ela pôr no saco e não tirei um sorrisinho sarcástico da cara o tempo todo.

 

Mas depois de sair pus-me a pensar e achei toda a cena tão escusada. Tão triste. Não nego que o facto de ter aparecido uma senhora que, de facto, não tinha direito a prioridade possa ter baralhado a funcionária, mas a senhora não foi mal-educada, só tinha que ser informada. A funcionária é que foi mal-educada com a senhora e comigo, tentando ridicularizar o exercício de um direito que me assiste. Talvez se eu não conhecesse a lei tão bem, e se não tivesse algum à vontade com leis porque as estudei, me deixasse intimidar e me sujeitasse a esperar numa sala de espera que se tinha tornado hostil. Ninguém gosta de esperar. Nem todos têm o bom senso de perceber que algumas pessoas têm direito a ser atendidas antes e ficam rancorosas. Se a hostilização surgir das pessoas que trabalham nos sítios pior é!

 

Já me cederam a vez várias vezes e quando posso esperar, quando os bebés estão a dormir ou quando estava grávida e não estava especialmente cansada, explicava que podia esperar e deixava-me estar na fila. Também me aconteceu pedir para ser atendida antes e a senhora que estava à minha frente dizer-me «desculpe, eu sei que tem prioridade, mas eu só quero uma coisa rápida e tenho o carro mal estacionado, importa-se?» e eu disse que não, esperei mais 1 minuto se tanto e a senhora foi atendida e saiu a voar. Com educação, toda a gente se entende. Eu pelo menos tento que assim seja. Mesmo quando tiro senha prioritária e passo à frente sem ter que pedir, tento ser rápida e agradeço às pessoas que me cedem a passagem. As Finanças não são um sítio onde se espere pouco tempo, eu estava exausta, tinha andando a tratar do Gonçalo de manhã e começava a sentir algumas contracções naquela altura e tinha pedido boleia à minha mãe porque já não me sentia confortável a conduzir, por isso não queria esperar, e tinha que ser eu a tratar daquele assunto. Podia esperar? Claro que podia. Não há dúvidas sobre isso. Podia esperar, não estava em trabalho de parto, nem tinha instruções para estar de repouso absoluto. Eles acabaram por nascer prematuros e só eu sei como me culpo por não ter abrandado mais um pouco no final, mas sim, naquele dia podia ter esperado. É delicado? É cortês? É digno de uma sociedade civilizada? Não acho.

 

Dias depois da cena das Finanças fui à Primark comprar coisas para a mala de maternidade. A fila estava a andar bastante rápido e tinha pouco mais que três pessoas porque fui a uma hora mais calma. Meti-me na fila normal e nem esperei. A funcionária atendeu-me e enquanto passava as coisas na caixa registadora disse-me «A senhora tem prioridade, não tem que esperar na fila. Para a próxima dirija-se à caixa n.º 1 que é imediatamente atendida».

 

Lembrei-me logo da outra cena. Folgo em saber que uma entidade privada trata a lei e os cidadãos com mais respeito que um organismo público.

 

Tenho este texto escrito há imenso tempo e vim agora editá-lo e publicá-lo porque tenho visto imensas pessoas com dúvidas sobre a lei em grupos de mães e lembrei-me.

Aproveito para deixar estas notas sobre a lei sobre o atendimento prioritário (Decreto-Lei n.º 58/2016, de 29 de Agosto):

  • Todas as entidades públicas e privadas devem prestar atendimento prioritário a determinadas pessoas.
  • Essas pessoas são:
    • Pessoas com deficiência ou incapacidade;
    • Pessoas idosas (com idade igual ou superior a 65 anos e que apresente evidente alteração ou limitação das funções físicas ou mentais);
    • Grávidas; e
    • Pessoas acompanhadas de crianças de colo (aquela que se faça acompanhar de criança até aos dois anos de idade).

A pessoa com direito a atendimento prioritário que o veja negado deve chamar a polícia.

Sobre a prioridade a crianças de colo, notem que a lei não diz crianças «ao colo», diz «de colo». É um conceito que se preenche com a idade da criança e não com a forma como a trazemos. Não há necessidade de pegar na criança só porque se fala em colo, por favor! Se disserem isso, estão errados. E não tem que ser a mãe.

Se quiserem saber mais procurem aqui e aqui.

Conheçam os vossos direitos, e vamos todos tentar que a lei seja cada vez menos necessária e tudo funcione com naturalidade. Para isso é preciso não esquecer que a lei concede um direito geral, indiscriminado, porque não há como adaptar a situações em específico. A ideia é proteger aqueles que precisam de protecção. Como sempre é susceptível de abusos. Nunca vi, mas oiço falar de pessoas que vão com os filhos só para passarem à frente, que são mal educadas e agem como se fosse tudo delas. É verdade que a lei concede o direito de atendimento prioritário, mas não é menos verdade que as pessoas à frente de quem se passa também têm direito a ser atendidas e estão a ceder a passagem porque se encontram em melhores condições de esperar. Isto significa duas coisas: que não as devemos maltratar para exercer o nosso direito e que o devemos exercer sempre que sintamos que efectivamente não estamos nas mesmas condições para esperar.

Be kind and amazing things will happen.

 

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Maternidade Tudo e Nada

Loucas são as noites que passo sem dormir*

Sabem aquelas pessoas que dizem que só precisam de dormir 4 horas e conseguem trabalhar? Ou que dizem que podem andar dias a fio sem dormir bem e recuperar tudo no fim-de-semana? Ou que não gostam de dormir muito? Ou que acham que as manhãs são para se começar cedo e com trabalho? Eu NÃO sou assim. De todo. Eu gosto de dormir. Eu gosto de dormir muito. Pior, eu preciso de dormir muito. Tiram-me horas de sono e eu só faço porcaria. Fico com uma memória terrível. Fico sem vocabulário, pareço o Trump a falar. Fico triste, deprimida. Nada para mim é tão exigente na maternidade como ter que funcionar (e às vezes agir rápido) com sono. Eu preciso de para cima de 10 despertadores para tirar o rabo da cama. Eu não sou pessoa de ouvir um choro e ter logo forças para me levantar e ir lá socorrer/acalmar/colocar chucha/alimentar. Não sou. Mas não tenho hipótese.

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