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Tudo e Nada

Passear Tudo e Nada

Porto. 2 dias. 0 filhos.

Comecei a planear a surpresa do aniversário do Pedro com mais ou menos mês e meio de antecedência. Eu adoro surpresas — mais de prepará-las do que ser objecto das mesmas. Sabia que o que ele mais queria era o mesmo que eu: uma escapadinha de fim-de-semana a dois. Nós adoramos passear e fazíamo-lo com frequência, por isso é uma das coisas das quais temos saudades. Praticamente todos os sítios que queria estavam lotados. Acabei por marcar um que já conhecíamos, mas que queríamos repetir: Tróia Design Hotel. Falei com a família, expliquei os meus intentos e toda a gente acedeu a ajudar-me e ficar com os meninos. Iria preparar a mala no dia anterior enquanto o Pedro trabalhava, pedia à minha irmã para a colocar na mala do carro sem ele saber e no dia seguinte sairíamos de manhã, sem alaridos, para ir buscar a prenda dele que lhe ia dar a entender que seria algo para a casa. Só quando entrássemos na auto-estrada é que ele iria saber que íamos para longe e só quando chegássemos a Tróia é que lhe diria que não íamos pegar no turno da noite de nenhum dos putos. Ia ser p-e-r-f-e-i-t-o.

15 dias antes, um encontro fortuito estragou a surpresa. O Pedro percebeu que eu tinha orientado toda a gente para ficar com os gémeos no fim-de-semana do aniversário e juntou dois mais dois. Lá se foi a minha surpresa… Ainda assim não sabia para onde íamos e garantiu-me que não ser surpresa não ia retirar piada nenhuma à coisa.

5 dias antes liga-me a dizer que tem uma formação no Porto na sexta e sábado de manhã.  Apeteceu-me chorar. Já sei que não fazer um fim-de-semana fora é um problema primeiro mundista do qual devia ter vergonha, mas naquele momento eu estava com o Duarte ao colo a lutar para dormir e só queria o meu fim-de-semana de namoro que deixara de fazer sentido com uma formação no Porto até às 13h. Fiquei chata e triste.

Mas depois, eu sou eu, e tenho a mania de não desistir. Inquiri a família se podiam ficar com as crianças não uma, mas duas noites. Cancelei o hotel. Marquei hotel no Porto e decidi: iríamos para o Porto, eu ficava no hotel enquanto ele estivesse em formação, e iríamos passar o fim-de-semana numa cidade onde já vivemos. Eu que queria um sítio novo desde o início, acabei num sítio que ainda tem tiques de casa. Ia ser p-e-r-f-e-i-t-o na mesma.

Assim foi.

O Porto será sempre uma das minhas cidades favoritas. Por mais chuva com que me receba (e no fim-de-semana foi uma recepção efusiva nesse aspecto), eu não consigo não morrer de saudades do caminho de casa, das manhãs domingueiras de brunch, dos passeios, dos jantares depois do escritório. Foi onde tivemos a nossa primeira casa (e segunda), e será sempre casa. Foram só três anos, mas foram três anos muito bons.

Iríamos jantar nos sítios que ainda não conhecemos, iríamos dormir num hotel pelo qual passávamos todos os dias e dizíamos que queríamos «ver por dentro». Seria um fim-de-semana a dois, num regresso a dois.

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Tudo e Nada

Mudanças

10 dias antes – Let’s do this shit! Escolher dia para mudar: check! Marcar empresa de mudanças: check! Agendar troca de serviço de TV: check! Estou super-organizada, vai tudo correr bem.

1 semana antes – Hora de começar a arrumar… tenho que comprar caixotes!

3 dias antes – Ok, se calhar tenho que começar mesmo a arrumar coisas. Vou fazer um caixote.

2 dias antes – Porra, tenho que fazer mais caixotes, rápido. 10 caixotes. Ok, se calhar são mais coisas do que pensava. Mas está quase, a nova casa compensa.

1 dia antes – Onde é que eu tinha a cabeça? Para que é que vou mudar? Caixotes. Quem é se lembra de deixar tudo para a última com três filhos? Caixotes. Caixotes. Gonçalo, sai daí. Caixotes. 10. 20. 30. 45 caixotes. Coisas. Roupa. Coisas. 52 caixotes. Onde é que eu tinha a cabeça? Mas como é que é possível acumular tanta coisa? Caixas de electrodomésticos com 5 anos? Caixas de coisas que já não tenho?  Eu sou louca.

Dia da mudança – Porra. Não tenho casa. A antiga não tem nada, a nova tem tudo, mas dentro de caixas. Nenhuma funciona como casa. As minhas coisas estão onde? Onde é que eu tinha a cabeça? NUNCA MAIS MUDO DE CASA.

Já avisei toda a gente que se eu voltar a dizer que vou mudar de casa é um sinal de código para pedir ajuda, estou a ser chantageada por pessoas muito poderosas que não me deixam comunicar. Portanto, se eu voltar a dizer que vou mudar de casa, chamem ajuda porque eu NUNCA MAIS MUDO DE CASA.

Amanhã deixo as minhas dicas todas sobre mudanças, adquiri muito conhecimento e como não vou usar mais vou passar a pasta a quem precise!

 

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Maternidade Tudo e Nada

Porque o nome não chega

Onde está o chouriço?

Olha, tens dois na despensa na prateleira do meio.

Isto podia ser a minha irmã a perguntar à minha mãe onde é que ela havia guardado esse maravilhoso enchido. Mas não. A minha irmã perguntava pelo Gonçalo. A minha mãe não percebeu e pensou que a minha irmã queria mesmo chouriço para cozinhar. A coisa ainda fica mais cómica: a minha irmã não percebeu imediatamente que a minha mãe não tinha percebido o petit nom e se referia a chouriços reais e não humanos e por isso pensou que os dois chouriços eram os gémeos e que a despensa era nome de código para descanso…. Foi um minuto de black out comunicacional hilariante.

Tudo isto porque a minha irmã chama chouriço ao sobrinho. Eu acho fofo. E vindo da minha irmã, claro que os nomes carinhosos tinham que ser referências a comida.

Eu chamo-lhe xuxulito. Não faz sentido, saiu-me uma vez, numa junção trapalhona de xuxu lindo e ficou. Xuxu também é muito utilizado. O pai chama-lhe putxitxo. A avó chama-lhe besnico.

A Leonor é princesa da solum, pequenitates ou a titica. Ao Duarte chamo muito xuxu e gordixo. Ao contrário do Gonçalo, ambos têm diminutivos (que eu sempre detestei, mas que agora uso imenso): Dudu e Nônô.

Por aí? Os miúdos também são tratados por comida? Há mais chouriços? 🙂

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Gémeos Organização Tudo e Nada

Truques que aprendemos com os gémeos

Toda a gente presume que por já se ter filho se sabe tudo, especialmente no nosso caso em que o primeiro filho ainda é bebé. Na verdade há coisas que temos que reaprender e outras que nunca soubemos. No nosso caso, em que o segundo filho são dois, há imensos truques que vamos aprendendo. Na própria UCIN aprendemos muitas coisas. E como os gémeos não mamam, e o Gonçalo mamou até aos seis meses, há imensas coisas sobre a logística dos biberões que vamos aprendendo.

  • Trocar a fralda antes do biberão e não depois. Ao Gonçalo trocámos a fralda sempre a seguir a mamar — nem sei bem porquê — e ele bolçava sempre imenso. Ao trocar antes evitamos as movimentações da muda de fralda e também podemos aproveitar a moleza pós-refeição para os colocar de novo na cama.
  • Colocar uma fralda de pano esticada na cama na zona da cabeça. Caso bolçem é só trocar e evitamos trocar os lençóis sempre que acontece. Esta é tão óbvia que me sinto mesmo mesmo burra de não me ter lembrado quando foi do Gonçalo.
  • À saída do banho, secá-los com um lençol ou com uma fralda de pano e não com uma toalha. Os lençóis e as fraldas de pano aquecem-se mais facilmente e aconchegam bebés tão pequeninos mais facilmente que as toalhas que são enormes (tenho a leve sensação de terem indicado assim nas aulas de preparação para o parto, mas não pusemos em prática com o Gonçalo não sei porquê).
  • Usar compressas para colocar por dentro da roupa quando bolçem e molhem a roupa exterior para impedir que o body interior se molhe. Se o exterior não tiver ficado muito molhado, assim conseguimos impedir que se molhe o interior e que tenhamos que trocar a roupa numa altura em que pode levá-los a bolçar ainda mais.
  • Fazer os biberões de leite para noite toda e colocá-los no frigorífico (tanto quando são biberões de leite adaptado como quando são biberões de leite materno, ficam já feitos, depois é só aquecer).
  • Aquecer os biberões de molho em água quente num recipiente. Saem directamente do frigorífico para o recipiente. Não há cá aquecedores de biberões, nem aquecer debaixo de água a correr, esta é a forma mais rápida. Coloca-se água a ferver num recipiente (nós usamos uma forma de bolos pequena) e fica a aquecer enquanto se troca a fralda).

E as que já sabíamos, mas voltámos a aplicar e têm sido fundamentais:

  • À noite, levar tudo para o quarto para evitar sair do quarto: fraldas, resguardo e toalhitas para caso seja necessário mudar a fralda; biberões, água e leite para preparar biberões e fraldas de pano e babetes.
  • Guardar a água quente num termo para não ter que aguardar que aqueça de todas as vezes.
  • Progressivamente começar a oferecer leite cada vez menos quente para se habituarem a beber o biberão à temperatura ambiente.
  • Ter o saco de muda de fraldas sempre pronto com os essenciais, para quando é necessário sair ser só colocar os biberões e as doses dos leites.

 

Alguém tem mais truques? O lema com gémeos é poupar tempo, aceitam-se sempre dicas!!

 

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Tudo e Nada

Síria

Ontem, abri o Facebook antes de me deitar e no meu feed apareceram as fotos de uma maternidade bombardeada na Síria que tinham sido publicadas num dos muitos grupos de mães do qual faço parte. Jamais esquecerei o que vi. Não consigo ter uma opinião formada sobre a partilha destas imagens tão violentas. Se, por um lado, sou sensível ao argumento de que o choque que provocam é mais eficiente que uma simples notícia e que esse choque convence muitos a agir, por outro é inegável que pouco podemos fazer e que a perturbação que nos causa é escusada. Não sei mesmo o que acho, porque fiquei mesmo transtornada com o que vi e preferia não ter visto, mas sei que foi o motor para, depois de dias a ver notícias horrorosas, tentar fazer algo.

É verdade que não podemos fazer muito. É verdade que muitos de nós mal poupam para os pequenos luxos. Mas, como uma amiga me disse por estes dias num email que apelava à acção, “são para nós pequenos nadas, mas podem ter um impacto maior do que o que pensamos”. Sugiro-vos o que me sugeriu a mim:

1. Fazer um donativo online através da UNICEF. É rápido (podem fazer por cartão de crédito, paypal ou MB), e é mais fácil do que qualquer compra online.

Aqui: http://www.unicef.pt/Crise-Siria_7-anos-conflito/

2. Assinar a petição online da Amnistia Internacional que reclama o fim imediato dos bombardeamentos a Ghuta Oriental. Também é muito simples, é só preciso o n.º do Cartão de Cidadão (que todos sabemos de cor).

Aqui: https://www.amnistia.pt/peticao/fim-imediato-dos-bombardeamentos-a-ghouta-oriental/

E também podem partilhar. A minha amiga fê-lo e chamou a minha atenção. Se eu conseguir chamar a atenção de uma pessoa que seja, já funcionou, e por aí em diante, uma corrente, paying it foward.

Escrevo-vos à beira dos meus dois filhos mais novos. Que não morreram numa maternidade bombardeada. Que não ficaram nos escombros sem vida. Que viram o dia de hoje nascer sem ouvir bombas. Que não perderam membros em explosões que ocorrem por motivos que nem eles nem eu conseguimos compreender. Escrevo-vos para expiar esta minha culpa de privilegiada, esta minha sorte que nem todos têm.

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Tudo e Nada

Fevereiro

Às vezes gostava de falar com a Ana que não tinha tempo para fazer as cadeiras todas na época normal e deixava duas para recurso e dar-lhe um estalo para ver se ela abria a pestana.
Este mês fui ao pediatra com os três no mesmo dia, fui às vacinas dos gémeos, mudei de casa, aceitei um projecto rápido mas que ainda assim deu trabalho, tive uma formação em Lisboa, tudo isto enquanto prestei funções naquele full-time básico de limpar três rabos.
Hoje, para a despedida do mês, fui ao carro buscar as compras que não pude trazer para cima antes porque vinha com o Gonçalo, quando reparei que o detergente se havia aberto no saco e tinha tudo o que era queijo e fruta com Fary porque ah e tal o ambiente, não há sacos de plástico para a malta dividir as coisas do estilo limpeza da casa/comida e mete-se tudo numa promiscuidade pouco dada a vazamentos de detergente. Quando subia, fiquei presa no elevador. Sem telemóvel. Ainda procurei as câmaras, mas, embora às vezes pareça, a minha vida não é uma sitcom.

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Tudo e Nada

Dos dias tristes

Este é o meu tio. Há um ano, ele acordou, levantou-se, fez a vida dele e o azar ia a correr num corredor e esbarrou de frente com o tempo e levou-o para sempre. Este era o meu tio. Assim, a rir, comigo, de mim. Não me lembro exactamente do que ríamos neste momento. Horas depois eu casava com o meu amor, de quem ele sempre gostou e que dizia ser um gajo porreiro. Neste dia, entre os risos, teve tempo de falar a sério, aconselhou-me a ter juízo, não ligar ao que não interessa e confiar nele sempre, “porque no fim de contas és só tu e ele contra o mundo”. Aqui, provavelmente, ele metia-se comigo por parecer crescida de vestido de noiva.

É difícil aceitar que ele não está. Que se carregar em “Titio” no telemóvel para lhe dizer que vou mudar de casa outra vez ele não vai atender e dizer «Outra vez? Foda-se, Ana, tu fazes mais nada?». Ele dizia muitas asneiras, não tinha medo delas, usava-as para rir, como tudo. Também o vi sem rir, claro, a vida não é só cocktails. Mas lembrar-me-ei sempre dele assim, a rir. A fazer(-me) rir. Guardo para sempre a sua maneira de ver a vida. Estamos cá para aproveitar, esta merda não tarda acaba, não és mártir, deixa-te merdas, curte a vida. Marbella? Xiiiii… Marbella! Tens que ir à Nikki Beach. Escreve o que te digo: N-i-k-k-i B-e-a-c-h.

Se existir céu, sei que estás lá à minha espera para mandar vir com a cortina do duche de minha casa em Barcelona.

(sim, eu olho por elas, para sempre)

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Tudo e Nada

Valentine’s (every)day

Às vezes o my valentine irrita-me. Ui, se irrita. Por exemplo, a arrumação do pijama, essa quezília com anos: todos os dias ele tira o pijama e enrola-o em vez de o dobrar. Na verdade, não é bem enrolar… Ele aplica-lhe uma centrifugação filha da mãe digna de um furacão. E coloca-o debaixo da almofada. Eu não vou por trás e dobro bem, deixo estar, nem falo disso, limito-me à ocasional laracha passivo-agressiva “achas que é assim que se dobra a porra do pijama”, mas fico com um tique nervoso na pálpebra direita só de saber que ao lado do meu pijama dobrado está uma bola de roupa.

“Ai, estás tão casada, que tédio. Queixar-te no dia dos namorados…”

Calma, senhores, a parte boa, a parte this is us da coisa, é que o conflito pijama irrita-me tanto quanto me faz feliz. Adoro que ele seja ele e dobre a roupa a correr. Adoro que quando mando a minha boca, ele responda sempre com uma piada estilo “Desculpa lá, sra. da zara, não tenho um doutoramento em arrumar roupa”. Sei lá, adoro as tretinhas da nossa vida. Adoro as bocas da roupa, adoro tentar passar as piores fraldas para ele, adoro quando ele me irrita e depois me faz rir. Adoro a normalidade da coisa, sem desassossegos. Adoro as surpresas, que adoro, mas quero ficar todos os dias pelas rotinas. Não percebo aqueles que têm medo da rotina, que exigem das relações as constantes subidas e descidas dos amores iniciais. Eu quero o dia-a-dia, quero mandar vir com a roupa, planear a próxima viagem, refilar que é ele que tem ir pôr uma chucha e chamá-lo para vir ver como o nosso filho é lindo a dormir, tudo isto no espaço de meia hora.

Meu amor, hoje… é um dia como os outros. Mesmo. Não fiques muito entusiasmado com a declaração de amor, vê se não chegas tarde que temos que dar banho aos gémeos. Vá, por ser dia dos namorados eu não vou mandar vir quando puseres o jogo a dar no telemóvel enquanto damos biberões.

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Tudo e Nada

Depois do fim

Faço listas por tudo. Faço listas para tudo. Mas isto não dá para pôr numa lista, entendes? Não consigo escrever na lista “mentalizar-me que aconteceu” logo ali por baixo de «responder aos e-mails». Às vezes ainda o oiço. Quando a minha avó morreu demorei dois anos a apagar o número dela do telefone. Não sei porquê, mas deixei o numero dela ali, “Vó”. Olhava para ele quando precisava, sem precisar, pois sempre o soube de cor.

Não posso pôr na agenda, não dá para estudar isto. Os dias nascem, a vida continua. Nós até ousamos ser felizes. Sorrimos. Gozamos a vida. Às vezes fazemos de conta que estamos a lidar bem com tudo, falamos dele, agimos em conformidade. Mas há coisas que não entram na rotina. Os clichés encaixam: as saudades matam, penso em si todos os dias, quem me dera que visse isto.

 

 

«Depois do fim

Os meus mortos visitam-me regularmente.

Demorei a dar por eles. Não tenho religião que me valhe ou guie, e acreditava que os mortos morrem no momento em que morrem, espera-os uma nuvem, uma labareda, ou só a terra onde se deitam a dormir para nunca mais.

Demorei a exigir que não podia ser só isto. Sou ao contrário: era mais conformado em jovem.

(…)

O corpo? O corpo chega aos outros sempre antes de nós, é portanto natural que parta antes de nós.

Por isso o meu velho está aqui comigo. Enquanto escrevo, verifica a sua colecção de selos, pega num, com a pinça, espreita com a lupa pequena, cataloga, está tranquilo. Claro que não posso dizer que o vejo claramente. Está numa penumbra e todo ele é linhas difusas.

Eles têm a idade que quiserem.

Nunca digo a ninguém que estão aqui comigo. Mas estão. Acredito. Eu, homem, sem nenhuma outra fé, acredito.

Devo-lhes isso.»

O Pianista de Hotel, Rodrigo Guedes de Carvalho

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Gémeos Maternidade Tudo e Nada

And now we are five

Os gémeos fizeram ontem seis semanas. Também fez uma semana que estamos de regresso a nossa casa.

Nós últimos meses da gravidez fomos viver para casa dos meus pais. Eu estava muito grávida, não podia fazer esforços e precisava de ajuda sempre que o Pedro não conseguia chegar a horas decentes. Os meus pais convidaram e não hesitei. Foram uma ajuda essencial (eles e a minha irmã que vive com eles).

Para nos albergar a todos foram necessários ajustamentos. Nós ocupámos a sala e o Gonçalo ficou no meu antigo quarto. Como a sala é longe do quarto, quando o Gonçalo acordava durante a noite eram os meus pais que o voltavam a adormecer. Não é comum acontecer (ou não era) e assim nós podíamos descansar e tratar dos gémeos (depois deles virem para casa). Foram mais que avós, foram mais que anjos.

A nossa estadia lá foi essencial para a minha recuperação, não tivemos que nos preocupar com refeições, com roupa, compras, nada. Sei bem que podia ficar o tempo que quisesse, embora tenhamos revolucionado aquela casa e sejamos mais cinco, os meus pais albergavam-nos de boa vontade mais tempo.

No entanto, desde que os gémeos fizeram um mês e eu me senti completamente recuperada começámos a falar de querer voltar e agendámos o regresso. Sabíamos que não ia ser fácil, mas precisávamos de vir para a nossa futura realidade para saber com o que tínhamos que lidar. Sou muitas vezes assim perante desafios, quando sei que tenho uma dificuldade pela frente quero enfrentá-la o quanto antes. Era assim na faculdade, mesmo que não me sentisse confiante com o estudo, só que queria que chegasse a data do exame. Quando estive grávida do Gonçalo temia o parto, tinha medo mesmo da dor, do que se iria passar, mas isso só fez com que não visse a hora de ele nascer, preferia ter que lidar com isso logo do que passar dias a imaginar.

Voltar para casa sem o apoio dos meus pais e irmã, sem a comidinha feita, a roupa lavada era mais difícil, mas era inevitável. Ia acontecer, esta é a nossa nova realidade por isso quis enfrentá-la o quanto antes. E como suspeitava, o Gonçalo é quem mais sofre com esta alteração e está a reclamar ser o centro das atenções. Ele, que dormia entre 10 a 11 horas seguidas por noite, sem despertares, tem acordado várias vezes durante a noite e nas últimas noites só aceita dormir se lá ficarmos com ele. Continuo a achar que por mais difícil que esteja a ser, passar por tudo isto o quanto antes é o melhor. Assim posso começar já a combater as dificuldades.

Por ora estamos concentrados em devolver normalidade ao Gonçalo, em habituá-lo às novas rotinas para que ele deixe de acordar durante a noite. Tratar dos gémeos, mesmo durante a noite, já está mais orientado. Temos uma máquina bem oleada de preparação de biberões e rotina e estação de mudança de fraldas. Ainda assim é sempre muito tempo que perdemos e que não dormimos. A privação de sono é dura e não deixa reféns, mata logo. Devo ter perdido 100 neurónios na última semana.

Mas estamos todos bem. O Gonçalo continua com a sua paixão por limpezas domésticas — que espero que evoluam para limpeza a sério, dava-me muito jeito — os gémeos continuam a crescer, e nós no limbo entre rifá-los e achar que não existem bebés mais bonitos no mundo.

It’s a wild world indeed.

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