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Tudo e Nada

Tudo e Nada

Sabes lá, porra, sabes lá

Já me disseram uma vez quando me queixava da logística que sabiam como era e eu não disse, mas pensei para mim «sabes lá, porra, sabes lá». É, eu já tive só um filho, e as coisas mudam, mas fiz uma viagem de carro 13h com ele, outra de avião, viajámos sem ele, saíamos de casa quase todos os dias e jantava fora frequentemente com ele e sem ele. Com dois bebés quando tenho um almoço de família preciso de dois minutos no espelho da casa de banho a dar-me uma pequena pep-talk com muitos «tu consegues, Ana, é só sair de casa, não é andar de avião, são 4 km, não é esta merda que te vai deitar abaixo e ter o esgotamento”. A logística de ter gémeos é um inferno que devia dar para colocar no CV como demonstração de grande capacidade de conformação, logística, mediação de conflitos, e por aí fora. Já nem falo do dinheiro (lágrimas), mas da logística, o não poder pegar num ao colo e correr para dentro do restaurante sozinha, porque há outro à espera no carro  é daquelas coisas que só mesmo quem passa é que sabe. Eu nunca sonhei com este mundo, aliás, nunca levei a sério as vezes infinitas que o meu pai dizia que eu ou a minha irmã íamos ter gémeos atendendo à genética que possuíamos, e quando pensava nisso só pensava «ui, não é para mim». E de facto, não é. Porque a verdade é que em vez de fazer face às adversidades, suar e dizer asneiras, eu eliminei-as. É difícil viajar? Não viajamos. É difícil jantar fora? Nunca o faremos. É difícil almoçar todos os fins-de-semana com amigos? Passará a ser de quatro em quatro meses. Foi o caminho que encontrámos para manter a sanidade e não aceito que ninguém o critique porque os sapatos podem ser bonitos, mas quem anda com eles sou eu. Sabes lá, porra, sabes lá.

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Tudo e Nada

Sobre a festa do primeiro aniversário dos gémeos

Então sobre ontem: decidimos fazer uma festa de aniversário aos putos daquelas mais para adultos do que para crianças, embora parte do nosso grupo de amigos já se tenha reproduzido por muitos. Assumo sem pudor que o único motivo pelo qual avançámos com a festa foi pela conhecida síndrome «segundo filho» que nos leva a fazer as mesmas coisas que fizemos ao primeiro ainda que não haja vontadinha nenhuma. Decidi marcar cabeleireiro para contrariar a falta de cuidado dos últimos tempos. Já estava de pratas no cabelo quando me avisaram que a coisa ia demorar 4h. Portanto, ia sair dali à hora a que a festa começava. Não sabia se devia chorar ou rir. Enchi-me de coragem e mandei sms ao marido que pensou que estava a gozar. Ao menos levei o computador para trabalhar e não se perdeu tudo. 4h depois, bastante mais pobre e com um cabelo que não gosto porque quem nasceu para lagartixa não chega a jacaré e nos outros balayages é chique, em mim ficou só parecido com madeixas dos anos 90 mas em mau, saí do cabeleireiro, corri para casa, e arranjei-me em exactamente em 10 min e 19s. Não cronometrei ao segundo, mas pus o Sinnerman da Nina Simone a tocar e vesti o casaco no preciso momento em que a música terminou. No Thomas Crown Affair é o tempo que leva a assaltar um museu, na minha vida foi o tempo que consegui roubar para me vestir e pintar, sempre sempre a safar. Depois de entrar no carro e de me enganar duas vezes num caminho que conheço desde os 15 anos, constatei que se calhar não posso passar tanto tempo sem andar de carro porque fico com a capacidade de andar na cidade de um turista. A viagem demorou dez minutos, aí ao oitavo o meu corpo disse-me «Ana, aparentemente sobreviveste 30 anos sem saber que para fazer coisas, nomeadamente conduzir, é necessário respirares, pelo que enfiares-te numa cinta que parece querer que os teus órgãos se unam para sempre é parvo». Tive de estacionar longe, porque os lugares perto estavam ocupados pelos convidados da minha festa, como é óbvio e irónico, e tentei correr para a porta. Aqui pensei: foda-se, eu tenho de ser estudada. Acho que sou um exemplo perfeito dos efeitos da privação de sono. A sério, eu era uma pessoa com uma boa capacidade de tomar decisões, acho mesmo que a perspicácia era uma das minhas melhores qualidades. Agora, só tomo decisões de merda. Tenho três filhos que não param quietos e decidi vestir uma saia lápis. Muito justa, o que não abona a favor da minha elegância, e com elasticidade que permite um diâmetro de ação tão reduzido que andar fica difícil, correr uma utopia. Juntei-lhe saltos altos. Objecto de estudo, definitivamente. Assim que pus o pé na festa pensei que o meu corpo ia entrar em paragem cardiorrespiratória, mas a primeira pessoa que me viu disse «estás tão linda» e a seguir o meu filho mais novo chorou quando olhou para mim, o que decidi entender como um elogio. Do depois nada mais há a dizer porque a tristeza torna-me poeta, o caos com a mania que sou engraçada e a felicidade muda.

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Tudo e Nada

Luto

Antes de o saber só na teoria e não na prática, achava que da definição de luto constava «fase». E as fases entendem-se passageiras. Mais ou menos demoradas, mas que passam. Agora que se instalou, por mais que lute, sei a verdade: não é fase, é para sempre, fica como não fica a vida, que se vai. O início é doloroso em permanência: o choque e a faca afiada espetada com pontaria no nosso ponto mais nevrálgico não deixam paz. O durante, longo como é tudo o que não tem fim, é apaziguador e simulado. Faz as vezes de normalidade, mascara-se de dia a dia e quando acorda escarafuncha para doer muito em pouco tempo.

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Tudo e Nada

Um ano de blogue

Fez há dias um ano que decidi criar este boteco e escrever sobre o que me apetece. Continuo satisfeita com a decisão, tenho conseguido deixar de ter vergonha de fazer uma das coisas que mais gosto: escrever (e fazer piadas!). Já conheci pessoas através do blogue e passei a falar mais com outras que já conhecia e, portanto, o balanço é bom e estimo continuar.

Não temam que me torne uma blogger como às bloggers, na verdade, já estive quase, quase para me deixar enamorar pelo estrelato, mas aprendi a dura lição da realidade: no dia seguinte a ganhar uns quantos seguidores novos no Instagram fui ao hipermercado e reparei em muitos olhares indiscretos. Pensei logo “Ai não posso, as pessoas reconhecem-me, deve ser da página!! Tenho de ir ao cabeleireiro, não tarda vou às tardes da Júlia.”. Levei as compras todas a perceber o que havia sucedido, tinha a camisa toda aberta e andei a passear o meu soutien novo de renda pelos corredores de pensos higiénicos e enchidos. Não foi o Insta que me fez render olhares, foi mesmo o meu mamaçal a chamar a atenção, já devia ter aprendido que não há uma alma amiga que diga «então e esse botãozinho maroto?»…

Para comemorar o primeiro aniversário não há passatempos, nem códigos de desconto, mas aproveito para responder a uma das coisas de que mais me falam: o nome da blogue. Estive indecisa entre vários nomes tristes, porque originalidade para nomear coisas é algo que não me assiste. Escolhi Três antes do Trinta não, ao contrário do que alguns já me disseram, por achar que é raro ter três filhos antes dos trinta (porque sei bem que não é, é pouco comum no contexto das minhas relações, mas não é geral), mas sim porque eu ter três filhos antes dos trinta continua a ser uma das maiores surpresas da minha vida. Nunca fui uma pessoa maternal, nunca entendi a maternidade como obrigatória e quando era mais nova dizia até que não sabia se queria ser mãe. Entretanto, cresci, apaixonei-me e percebi que queria ter filhos, mas na verdade sempre disse que só seria mãe depois dos trinta, tinha planeado a coisa como planeio tudo na vida. O meu filho mais velho foi planeado, mas foi algo antecipado depois de perdermos um bebé que não tinha sido planeado (mas muito desejado). Percebi que estava preparada na altura pela maneira como fiquei feliz quando descobri que estava grávida e depois triste quando o perdi. Fui mãe de filho único com um pós-parto de loucos, senti-me enganada pelas visões românticas da maternidade e estava decidida a esperar no mínimo três anos para lhe dar um irmão (isto se conseguisse dormir até lá). Mas a vida deu-me a volta e engravidei sem o planear (sim, eu sei que tendo sexo uma pessoa arrisca-se, mas quando determinados métodos conceptivos falham como as notas de 500 é surpresa) e logo de gémeos. Portanto, em menos de nada, eu, que não me imaginava mãe antes dos trinta, que nunca sonhei ter três filhos, acabei mãe de três aos 29 anos. E foi assim que a coisa surgiu. As pessoas têm sempre tendência de ver críticas em todo o lado e até no nome do blogue já conseguiram pegar: eu não sou defensora da maternidade antes dos trinta, ou crítica da maternidade mais tarde, o nome é sobre mim e não sobre os outros.

 

Entretanto, passado um ano, já somos uns quantos por aqui, pela página de Facebook e pela página de Instagram e alguns perguntam-me o que quero da coisa e eu continuo sem saber. Os mais cuscos estão convencidos que já choveram artigos vários de fraldas e afins e que cada vez que falo de alguma coisa recebo imenso guito. Amigos, não, nada, continuo a pagar tudo o que consumo e é certo que já tive imensas propostas imperdíveis, mas foram só duas e incluíam vender a alma a 33 posts em troca de artigos que eu não ia ali abaixo levantar nem que me pagassem. [Uma nota para dizer que adoro que «as agências» adorem o meu blogue, mas não tenham conseguido sequer perceber que sou de Coimbra e odeio pessoas, pelo que um evento num shopping na grande Lisboa não entra na minha definição de i-m-p-e-r-d-í-v-e-l] Por esse motivo, continuo a ser uma mera influenciadora dos meus filhos e mesmo esses não fazem nada do que eu lhes digo.


Vamos a mais um ano! Prometo se continuar por aqui mais um ano faço um giveaway à grande: três miúdos lindos uma semaninha em vossas casas… Mal podem esperar, não é?

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Tudo e Nada

Maria Bitaites Internautas

Depois de ter feito o post das Marias Bitaites – Edição Gémeos, muitos me pediram para fazer a versão reunião de pais e grupos de mães no Facebook. Pronto, foram só duas pessoas, mas foram duas pessoas de quem eu gosto muito, por isso valem por muitas, certo? Ora, de reuniões de pais não percebo. Não estou especialmente entusiasmada com essa fase da vida, acho que vou ter muito material, mas a verdade é que para já vivo na ignorância.
Já relativamente a grupos de mães no Facebook………… Eu boto o olho em tudo e raramente comento algo, a maioria das vezes simplesmente remeto-me ao silêncio gozador. Mas que já vi cenários de horror, já. E por isso aceitei o repto.
Aqui estão então as Maria Bitaites Internautas:

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Coisas que irritam Tudo e Nada

No is no

Aqui há uns anos, quando o Obama foi eleito Presidente dos Estados Unidos li uns artigos sobre racismo na América e lembro-me de pensar «não, nós não somos assim racistas». Em conversa com alguém muito tempo depois apercebi-me da dura realidade: somos igualmente racistas, simplesmente nos EUA fala-se disso, aqui não. Quando o Trump foi eleito apesar de existirem gravações dele a dizer que apalpava as mulheres pela rata (entre outros episódios), eu pensei «nós, não somos assim misóginos, machistas». Estão a ver onde é que vai dar, não estão?
Nós últimos dias, a propósito da questão da acusação de violação do Ronaldo, ver a propagação de comentários «é, achava que ia beber chá para o quarto», «ó Ronaldo, usavas vaselina para não fazer dói-dói», «acabou-se o dinheiro e agora quer mais», muitas vezes de mulheres e muitas vezes acompanhados de demonstrações claras de nem terem procurado saber os contornos do caso, é desanimador e faz-me concluir que sim, somos.
Aquando de decisões como as do acórdão da «sedução mútua» nunca falta quem os censure munido de argumentos como «eu tenho uma filha e não é este mundo que quero para ela» como se fosse preciso ser-se mulher, ter filha, mãe ou namorada para se ser feminista e como se o futuro que deixamos aos filhos fosse o único móbil para defender um mundo melhor para hoje. Hoje uso eu esse argumento: é isto que querem ensinar às nossas filhas? Se subires ao quarto, é porque tens de dormir com ele, quer queiras quer não! Se usares decotes, já sabes que os homens se podem usar do teu corpo. Se gostares de sexo, tens de gostar de tudo. Se disseres que sim, não podes mudar de ideias, não vale de nada dizer não. É assim? E é isto que queremos ensinar aos nossos filhos? Se ela aceitar ir contigo para o quarto, podes servir-te do corpo dela como quiseres. Se ela aceitar ir jantar, já sabes que está no papo e podes ser violento para o concretizar. Se ela disser sim a um beijo, considera-a disponível para tudo. Se ela estiver de decote, é porque quer que a comas. É assim?
Não sou daquelas pessoas que defende que o mundo está cada vez pior. Continuo a defender que o mundo em que os meus filhos nasceram é incomensuravelmente melhor do que aquele em que eu nasci: o desenvolvimento, o progresso da tecnologia ao serviço da nossa saúde, locomoção, felicidade, a quebra de barreiras importantes, a conquista de liberdades e a defesa dos direitos civis nos países desenvolvidos melhoraram o mundo nestes últimos 30 anos. No entanto, ao ver estas reacções lembro-me que ainda falta muito.

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Tudo e Nada

Tem calma

Basicamente uma pessoa anda aí e pensa que há mães como há mulheres, todas diferentes, mas vai-se a ver e afinal só há dois tipos: mãe-galinha e a mãe-relaxada. E ou se é uma ou se é outra. A mãe-galinha é demais: é tudo em bom, mas demais. Ama tanto que sufoca, preocupa-se tanto que exagera, cuida tanto que não dá espaço. A mãe relaxada deixa tudo andar, não se preocupa, vive a vida. E, como em tudo nesta merda da maternidade, ou se é uma ou outra.
Volta e meia, alguém me diz a propósito de alguma coisa com os meus filhos que tenho de ser mais relaxada, mais descontraída que não ando a aproveitar. Quando alguém me diz que eu «tenho de ser» de determinada maneira fico logo com comichão, apetece-me mandar essa pessoa à merda, mas aguento-me porque sei viver em sociedade. Eu devo ser relaxada? Mas quem é que disse que eu não sou relaxada? E… quem é que disse que eu quero ser relaxada? E o que é ser relaxada? E quando é que devo ser relaxada? E como… vocês percebem. Depois a sentença: «Estás em stress com tudo, tens de deixar a vida levar, o teu stress passa para eles, sabes, por isso é que eles não dormem/comem/cagam/falam”. Ora, fica o disclaimer: eu não sou relaxada, não sei ser e não quero ser. Nunca fui. Não sei ser assim com os miúdos porque não sei ser assim com ninguém. O meu pai abeira-se de uma cena mais alta (e fá-lo tantas vezes só para se me meter comigo) e eu passo-me, fico com dores de barriga porque tenho medo de alturas. O meu marido todos os dias faz 200 km e tem que me mandar mensagem SEMPRE que chega e sai, mesmo se estivermos amuados, já fiz pausa em discussões para perguntar se ele chegou bem. Se tenho alguém de quem gosto no ar fico com o coração apertado até os saber em terra. Sempre. Sou assim, acho que herdei isto.
Isto para dizer, se há suspeitas de os meus filhos terem alguma coisa sim, eu vou ler tudo o que há na net sobre isso. Sim, vou preocupar-me, mesmo que não seja nada. Sim, consome-me. Mas não sei ser de outra maneira e não estou a tentar.
Por outro lado, eles têm febre ou fazem uma alergia alimentar e eu não vou a correr para o pediátrico até para espanto dos médicos, como já aconteceu. Vigio e velo, mas não entro em pânico. E caem e eu não grito logo. E sacudo o pó de feridas, dou beijinho e digo para seguirem com a brincadeira depois de quedas aparatosas no parque.
Ser relaxada e ser mãe-galinha para mim é dia-a-dia, é tão normal como ser trabalhadora e preguiçosa, que sou. É possível ser-se um pouco de tudo, não somos apenas uma coisa só porque perante determinado cenário somos de certa forma.
Não digam a ninguém que está preocupado com alguma coisa, especialmente se for grave, para relaxar. É que toda a gente sabe que tem o efeito contrário, por isso eu vou achar que estão a fazer de propósito só para irritar.
Se uma pessoa confidencia que está preocupada com algo, menorizar o problema tentando-lhe dizer que tem que se acalmar não é de amigo. Dizer «isso não é nada, vocês estão a exagerar» não é de amigo. Não digam que mandam relaxar porque querem as pessoas calmas, não se enganem. Se querem ser amigos digam «de que é que precisas?» ou oiçam. Às vezes quando uma pessoa está preocupada a desabafar está só à procura de ser ouvida, não de ser aconselhada.

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Maternidade Tudo e Nada

Os amigos desaparecem depois de teres filhos

Ouvi isto muitas vezes antes de ser mãe. Há uns tempos li este artigo sobre amizades que terminam depois de se ter filhos.

 

Um filho representa uma grande mudança na nossa vida, não tenho dúvidas sobre isto. As nossas prioridades mudam, os nossos horários são diferentes e claro, a nossa disponibilidade não é a de outrora.

 

Para mim qualquer relação dá trabalho, e a amizade não é excepção. Não é um trabalho de esforço, é um trabalho natural, mas envolve sempre cedências. E como tal, depois de ser mãe acho que há trabalho de ambas as partes para manter a amizade, mas não é impossível.

 

Os meus amigos não desapareceram. As minhas amigas não foram a lado nenhum (nunca vão). Quando fui mãe, elas estiveram lá, ainda que não ao meu lado, à distância de um telefone, com uma emoção genuína, que nunca esquecerei.

 

Desde então tive falta em muitos eventos, mas não sinto que tenha mudado nada. Dá trabalho? Claro que sim. A eles agradeço adaptarem-se aos meus horários, fazerem o esforço de me vir visitar sempre que podem, de me perdoarem não estar em cima de todos os acontecimentos, como antes. Eu tento não perder conversas de WhatsApp e organizar-me para estar com eles. Não é fácil, mas tento. O ano passado fui a uma despedida de solteira grávida dos gémeos. Custou-me, só me apetecia estar na cama a dormir, mas queria muito estar com elas e fiz o esforço. E adorei.

 

Nós na despedida. Eu ainda tinha medo de anunciar a gravidez e então colocava-me estrategicamente a esconder o pancil 🙂

O artigo que li falava do facto de os amigos não perceberem que os recém-pais quando têm tempo livre preferem passá-lo a dois ou a dormir em vez de ir sair com os amigos. Percebo bem isto. A verdade é que depois de ter filhos a vontade de sair à noite desapareceu, todo o meu tempo livre por mim era passado no cinema ou a dormir. Mas sempre que faço o esforço de sair, não me arrependo. E as minhas amigas percebem-me, não escondem que gostavam que eu pudesse participar em mais coisas, mas nunca me cobraram a mudança das minhas prioridades, perceberam e tentam sempre amenizar o impacto que isso tem nas nossas vidas. As amizades vivem dos momentos que passamos juntos, da vida que partilhamos, mas sobrevive fases mais distantes se houver esforço de compensar isso.

 

Claro que há coisas que só os amigos com filhos percebem, e com eles as nossas combinações passam a ser mais fáceis, é um facto. Eu e o meu marido temos a sorte de ter amigos bem próximos que estão na mesma fase da vida que nós. E na verdade até fizemos novos amigos depois de sermos pais, precisamente porque passámos a ter outras coisas em comum com outras pessoas.

 

No entanto, do círculo das minhas melhores amigas eu sou a única que já tenho filhos. É claro que às vezes gostava que elas percebessem melhor os meus dramas, mas nem por isso senti que não estão capazes de conselhos ou de perceber o que passo. Quando desesperei no pós-parto do Gonçalo foi com elas que falei tantas vezes porque embora não tivessem nenhum conselho milagroso típico de mãe, também não tinham nenhum julgamento: nunca me disseram que era por eu estar a dar de mamar assim ou pôr a dormir assado. Ouviram-me, disseram que não imaginam o que é, deram força e namoraram o meu bebé como tias babadas que são. Se eu as tivesse excluído de alguns queixumes, se tivesse pensado que elas nunca me entenderiam só por não serem mães, nunca tinha percebido que isso não é verdade.

GAM com quase 4 meses. Amigas de uma vida.

 

Há uns dias uma das minhas amigas mais antigas veio visitar-nos, ainda não conhecia os gémeos. Já tivemos mais de um ano sem nos ver, somos amigas há mais de 15 anos. Não caímos na farsa de ficar amigas com conversas de WhatsApp intermináveis com promessas de cafés que nunca acontecem e perguntas esporádicas de «está tudo bem?», não, falamos de tempos em tempos por WhatsApp como se nos tivéssemos visto naquele dia «viste aquele trailer?», «sabes quem é que se vai casar?» com a presunção de proximidade física típica de outras eras da nossa relação. Ela veio e passou cá a tarde, falámos enquanto os miúdos dormiam, enquanto lanchavam, enquanto lhe demos banho. Ela ajudou, tirou fotos, esperou e foi assim, em movimento, que fomos pondo a escrita em dia. Apesar de já não estar com ela com calma há meses sem ser em comemorações onde não há muito tempo, parecia que os tempos em que nos víamos todos os dias tinham sido ontem. Claro que se eu pudesse tinha ido ao cinema com ela como fazíamos antes e ela também o teria preferido, estou certa. Mas a minha nova realidade não impediu uma boa tarde entre amigas.

 

As amizades não têm porque acabar depois dos filhos. Mas é preciso ter vontade que isso não aconteça. Não sou a melhor amiga do mundo, tantas vezes me esqueço de coisas importantes, são muitas as conversas que perco e outras tantas as coisas a que tenho que falhar, mas tento ter sempre algum tempo e entendo os amigos como prioridade, nunca como item prescindível. Tiro tempo para os meus amigos, cuido deles como melhor sei e como melhor posso. Não posso esperar que a vida deles mude para me acomodar, tento incluir-me quando posso, excluir-me quando não dá e pedir adaptações sempre que sinto que não é demais. De cedência em cedência a coisa compõe-se e não sinto problema que a distância – que veio bem antes das crianças – não tenha há muito trazido.

 

Os amigos a sério ficam. Os amigos a sério nunca vão.

 

Quando os gémeos nasceram foram quinze dias para os cuidados intensivos. No fim-de-semana a seguir a terem nascido eu já estava em casa. Uma das minhas melhores amigas queria passar para me dar um beijo quando eu estivesse em casa e eu confessei-lhe que não me apetecia ver ninguém. Estava preocupada com eles, mas sobretudo triste por não os ter comigo e tinha um circo hormonal dentro de mim, só me apetecia chorar. Ela disse que não importava e que ficava para outra altura. Saí para ir ver os gémeos à UCIN, deixei o Gonçalo com os meus pais e irmã e quando cheguei a casa tinha um ramo de flores em cima da minha cama com um bilhete. Ela tinha ligado à minha irmã, pedido para passar enquanto eu estivesse fora porque não me queria ver para não se impor. Deu um beijo ao Gonçalo, ofereceu-lhe um presente e deixou-me flores e umas palavras. Chorei quando (a) li,  feliz com a surpresa, a receber o abraço que me quis dar e arranjou maneira de entregar, mas sem estar surpreendida porque conheço bem aquela amiga, pessoa com quem conto a toda a hora. Isto é amizade, daquelas que não vai a lado nenhum. É este o trabalho que dá, que não é grande esforço quando se gosta, mas que é tudo quando se precisa.

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Maternidade Tudo e Nada

Marias Bitaites

Ora, já se sabe que quando nasce uma mãe nasce uma multidão de Marias Bitaites. Eu já encontrei estas subespécies:

A Ai-o-meu-não:
«Ai o teu filho não come bem? Ai o meu não, logo a primeira vez que lhe dei comeu o prato todo tive que ir aquecer mais!»
«O teu não dorme bem? Ai o meu não, desde que veio da maternidade que dorme 10 horas à noite, eu às vezes até tenho saudades dele!»
«O teu filho está na fase das birras? Ai o meu não, nem sei o que são birras, ele é muito calminho, nunca chorou.»

Die, bitch.

A positiva:
«Sabes, isto não são birras, são eles a comunicarem. E nós temos que ouvir, é só isso.»

Não toutóbir.

A saudosista:
«Ainda vais ter saudades disto, a sério, o meu tem 3 meses e eu já estou cheia de saudades de quando ele nasceu.»

Eu percebo, eu tenho imensas saudades… de quando eles ainda não tinham nascido!

A sabe-tudo:
«O bebé não gosta do banho? Isso é alergia à água. Tens que cristalizar a água que basicamente consiste em ferver a água, deixar evaporar TODA, depois voltar a ferver, abençoar, congelar e depois deixar entre 3 a 5 dias a descongelar e dar banho com essa água. Vais ver que passa.»

What.the.fuck?

A que tem uma prima que também lhe aconteceu isso, mas na volta não:
«A minha prima teve uma bebé que também passou por isso. Mas foi menos tempo, ou mais, já não me lembro. E acho que ficou tudo bem. Ou não, espera, não, ela teve que ser operada, foi isso. A sério, foi isso, ela depois ainda teve que ser operada. Mas depois ficou tudo bem. Ou não, já não me lembro bem, mas acho que ela ainda hoje tem lesões.»

Aaaaah obrigada, pá. Obrigada.

A papa descontos-promoções-preços baixos:
«Espera lá esta fralda que eu estou aqui a ver é da Dodot? Sabias que as de marca branca e são 0,2567 cêntimos mais baratas e são iguais? A sério, SÃO FEITAS NA MESMA FÁBRICA. Nunca mais compres disto, estás a perder 0,2567 cêntimos de cada vez e isso vezes 7 por dia são 7 vezes 0,2567 e no final do ano – acredita que eu já fiz as contas – é uma viagem ao Brasil, a sério.»

Espera, não apontei, são de onde? Viagem ao Brasil, mas não estávamos a falar de fraldas? Ai fónix, queres que eu vá ao Brasil com eles, tu és doida?

A que fala para o bebé e não para nós:
«Ai tens que dizer à tua mãezinha que já não te deve pôr chuchita que isso é para bebés e tu és crescidote.»
«Ai ainda de fraldita, quando é que pedes à mamã para te fazer o desfralde???»

Are you talking to me? É que o meu sensor de recados indirectos escafodeu por isso não percebi.

A que te quer criticar mas não consegue então elogia de forma reles:
«Sabes, no fundo gostava de ser como tu, assim depreendida e relaxada, eu sou muito protectora parece que não consigo desligar-me deles nunca e que os amo mais que tudo, percebes?»

Olha eu cá não quero ser como tu, odeio cabras passivo-agressivas.

A que acha que isto é um jogo e faz sempre raise:
«Ai estás aí a queixar-te, mas tu ainda tens imensa ajuda. Eu não tenho avós e empregadas e ainda faço tudo o que estás a fazer enquanto me balanço numa corda numa daquelas biclas só com uma roda.»

Eia, xau, eu não tinha percebido que isto era um concurso, se soubesse tinha treinado as lamúrias, vim sem estudar.

A que nem quer dizer nada mas depois diz tudo:
«Pois, olha, eu na altura nem quis dizer nada, mas eu sempre achei isso. Sempre. Os pediatras hoje em dia ainda aconselham isso, mas cá para mim é maligno. Mas pronto, quem sou para dizer, é só o que aconselham os mais recentes estudos, mas eu não quero estar aqui a dizer que estás a fazer mal, eu é que como sei estas coisas não consigo ficar calada.»

Mas olha que calada eras uma poeta.

 

Eu, Maria Bitaites, me confesso. É por bem, às vezes quero tanto ajudar que acabo a mandar postas.
Mas não vamos é exagerar, sim? Deixem as mães em paz!

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Passear Tudo e Nada

Quinta das Lágrimas

Nos meus anos, como contei aqui, a minha tia ofereceu-me uma noite na Quinta das Lágrimas. Há muito que queria lá ficar. Para quem é de Coimbra, não faz muito sentido ir passar uma noite à Quinta das Lágrimas, porque uma escapadinha sabe sempre melhor quando se é para mais longe, mas eu sempre quis lá ficar. Já conhecia o restaurante (havia lá ido há anos com os meus pais), já lá tinha estado em festas e conhecia o jardim, mas queria lá estar como turista por isso fiquei muito feliz de lá passar a noite dos meus anos.

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