Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba

Ir à casa de banho sozinha

Ora eu avisei que tinha rubricas pensadas e até avancei com uma, mas depois fui atropelada pela vida e coisa foi ficando em standby. Como sou uma pessoa optimista por natureza, vou retomar a ideia, correndo o risco de fazer mais uma estreia de uma série só de um episódio. Hoje apresento a «Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba» que em princípio sai às sextas-feiras, mas na volta não só para dar aquele gostinho de suspense. Agradeço as sugestões que me fizeram e maioria são coisas que já tinha pensado em incluir nesta rubrica, mas a estreia é com um que ninguém mencionou, mas que sei que faz sofrer muita mãe: Não conseguir ir à casa de banho sozinha. Há anos que vejo pessoas comentar que os filhos até para a casa de banho as seguem e se há regra que defini com clareza antes de ser mãe foi essa: casa de banho é o meu limite, não vão atrás de mim, prendo-os onde tiver de prender, não quero saber. Depois sucedeu algo que determinou que a minha vontade tinha validade: o meu filho mais velho aprendeu a abrir portas e sempre que se apanhava no parque arranjava maneira de afiambrar nos irmãos. Vai daí, certo dia sou uma pessoa que vai à casa de banho sozinha e no dia seguinte estou na casa de banho com o meu filho empoleirado em mim a ameaçar chorar se não o deixar ficar e eu, sensível às consequências do arraial cigano que ele monta (que passam essencialmente por acordar os irmãos) deixei e lixei-me porque a memória dos miúdos só é uma merda para as coisas que lhes dão jeito, para as que me facilitam a vida é melhor do que um computador. Agora acha que eu fechar a porta da casa de banho é um convite. E ele pouco fala, mas diz com perfeição cocó e opta por dizê-lo cinquenta e três vezes à porta da casa de banho enquanto suplica que eu tire o pé e o deixe entrar como se fosse imperdível o que se vai passar lá dentro. Não contente com a sua mera presença que incomoda por demais, o meu descendente ainda aproveita para fazer asneiras como enfiar-se no poliban, retirar todo o conteúdo do armário da casa banho, surripiar artigos caros de cosmética e enfiá-los pelo ralo do bidé no teste duro aos limites do amor materno. Eu só queria ir à casa de banho, tratar do meu negócio enquanto lambo o Instagram em paz, sozinha, e achava que era uma questão de organização e paguei pelas palavras e promessas feitas na inocência de quem não conhece a montanha russa da maternidade. Por isso sim, disse nunca e agora pumba.

No Comments
Coisas que irritam

Detox virtual e a ladainha do apelo ao apego

Vi este post do blogue A Box e pensei «é mesmo isto». Fala de um anúncio espanhol e em como a ideia é irritante.  O anúncio é este:

Esta é uma daquelas típicas campanhas que apela ao sentimento e nos enche de culpa por passarmos tanto tempo online e menos tempo com aqueles de quem gostamos.

Eu não gosto muito destes argumentos e perco a paciência com os velhos do restelo que passam horas a refilar com as redes sociais e com o tempo que passamos agarrados a smartphones (tantas vezes o refilanço é feito numa rede social através de um smartphone).

Em Setembro estive uma semana de férias com a família e aproveitei para fazer um detox virtual, maioritariamente porque desde que sou freelancer estou constantemente em horário de expediente e sentia-me cansada dessa disponibilidade permanente. Sabia que não podia ter a ligação à internet no telemóvel ligada se não iria estar sempre a verificar o email, pelo que acabei por decidir desligar o telemóvel durante a semana toda. Avisei a família, alguns amigos e desconectei.

Não vou negar que no primeiro dia me apercebi que pego muito no telemóvel, foram várias as vezes que meti a mão ao bolso para o ir buscar e não o tinha. Tirei fotos na mesma com a máquina fotográfica, mas fazia-me falta ler as notícias e verificar as piadas do feed do Facebook e do Instagram. Ao segundo dia habituei-me e a semana passou-se sem problemas. Até cheguei a achar piada à sensação de desconexão do mundo e das notícias do país que antes tínhamos quando íamos viajar para fora.

Porém não me senti mais presente com a minha família, não me enchi de mantras e alinhei os chakras como todos os que descobrem a luz prometem. Não dormi melhor, os miúdos continuaram a privar-me de tal benesse, e não me senti mais conectada comigo mesma. Na verdade, tive saudades de me distrair online, de falar com as minhas amigas, de consultar as notícias e de estar actualizada. E relativamente a estar absorta, continuei a escapar-me com ausências parciais em tudo o que era momento morto: em vez de ser ao telemóvel, fi-lo com livros, lia enquanto abanava o carrinho para os bebés adormecerem, enquanto esperava pelo almoço, enquanto os miúdos brincavam, basicamente sempre que podia. Li como já não lia há meses e tinha muitas saudades de fazer. Esta foi aliás a única lição que retirei do detox: tenho de diminuir as horas de écrans para retomar a leitura diária que tanto me apraz (algo que ando a cumprir a meio gás, tenho lido mais, mas ainda não todos os dias).

Posto isto, irrita-me esta moda de dizer que estamos ausentes, que não nos entregamos, que estamos sempre ao telemóvel. Já estive em jantares em que há algumas pessoas estão ao telemóvel, a ligar a alguém, a actualizar as redes, etc. Mas foram minutos. A maioria das vezes o que se passa quando janto com as minhas amigas é estarmos sem ligar aos telemóveis horas.

Relativamente à ideia do anúncio: passo muito menos tempo de qualidade com o meu marido do que gostava (isto é, sem ser a partilhar tarefas domésticas), ando aliás na luta para evitar trabalho após a hora de jantar para podermos ter serões quando os miúdos deixam e esses serões incluem ver séries e filmes e não consigo deixar de achar que isso é estar com a pessoa, partilhar algo. Estou com a minha irmã quase todos os dias e falo com ela por WhatsApp durante o dia todo. Se não fossem os smartphones e as redes sociais perdia ainda mais da vida dos meus amigos, especialmente dos que vivem longe. Faço km para estar com aqueles que amo, e fazem-nos por mim também, mas a distância apazigua-se muitas vezes através de um chat.

O mundo virtual não é nenhum poço de defeitos, sendo que também não é um de virtudes. É apenas um espelho aumentado da vida lá fora. Ajuda-me, distrai-me e aproxima-me de muitos. Esta vida na rede tem inúmeros defeitos e perigos, mas é uma excelente arma para lutar contra a distância. E como arma, dá jeito não virar o cano contra nós.

Por isso: sim, temos de ver-nos mais, mas sem culpas, sem dramas. Quando der e não porque tem de ser.  E temos de fazer o que gostarmos juntos e se isso for ver o feed do instagram ou vídeos no youtube, porque não? Temos é de deixar de dizer aos outros o que fazer e como se devem sentir.

Sobre o meu detox virtual, foi fundamental nas férias para serem férias de trabalho. E foi por isso que gostei dele. De resto, não achei nada de iluminador. Senti-me a mesma, a presente e a ausente, quando tem de ser e quando preciso.

No Comments
Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos

Se ganhasse o Euromilhões continuava a trabalhar

Já sabem que gosto de partilhar irritações, deixa-me mais leve e segundo a minha nutricionista eu preciso de perder peso, por isso tudo ajuda. Juntei umas quantas e inauguro hoje uma rubrica intitulada

«Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos».

[sim, vou passar a ter rubricas, sempre quis, deixem-me]

Nesta estreia debruçar-nos-emos sobre uma irritação que me tem acompanhado nesta última semana em que estive enterrada em trabalho e que oiço muita gente proferir sem consciência do estado de nervos em que me deixam quando o dizem: «Se ganhasse o Euromilhões continuava a trabalhar».

Ontem estive a trabalhar até às 3h da manhã a embalar a minha filha na espreguiçadeira com o pé, enquanto o meu marido dormia com o mais velho que também está doente e rezava a todos os santinhos em quem nem acredito para que o meu outro filho continuasse a dormir porque se acordasse não iria conseguir acabar o que tinha para fazer. E então porque passei e passo eu por isto? Plimplim. Money. Guito. Xelim. Sucede que a) não nasci rica b) não casei rica e preciso de dinheirinho para bancar esta casa. Assim sendo, tenho de vergar a mola. Se me saísse o Euromilhões continuava a vergar? Claro, adoro o que faço e precisava de ter uma ocupação. OPA, CARALHO, CLARO QUE NÃO, CLARO QUE NÃO QUE NÃO TRABALHAVA SE TIVESSE 10 000 000 € NA MINHA CONTA BANCÁRIA. Ocupação? Ocupação? Eu ando há eras para terminar a minha dissertação de mestrado, querem melhor ocupação? Tenho quase todos os filmes nomeados para os óscares deste ano para ver. Tenho pelo menos 3 séries altamente recomendadas para iniciar. Tenho 4 livros comprados que quero muito ler e ainda nem lhes toquei. ESTE ANO NÃO SAÍ DO PAÍS. E saía-me aquela quantidade de guito assustadora com zeros à direita, em vez de à esquerda como eu costumo ter, e eu ia continuar a trabalhar? A vergar a molinha que nem póbri? A andar atrás de clientes para me pagarem facturas todo o santo mês? Como dizer: NÃO. NO. NÉPIA. NUNQUINHA. Só espero que o Euromilhões nunca tenha saído a uma alma que diz uma coisa destas porque NÃO É JUSTO.

Há muita gente que diz isto para dar um ar de pessoa supé terra a terra, que não é materialista e no fundo não liga a dinheiro. Epá, enjoo. Tudo tanga. Eu não sou materialista, a sério que não, se fosse o meu marido não levava com queixumes de horas em aniversários «porque é que não me escreveste uma carta de amor em vez de uma prenda banal, porquê, porquê, já não me amas, antes escrevias…» Mas sou realista. E este computador onde vos escrevo está quase a parir e a sua troca exige capital. A renda da casa não se paga sozinha e deixo todos os meses em grandes superfícies o equivalente ao meu primeiro ordenado. Também gosto de laurear a pevide e não há agência de viagens que aceite valores morais como pagamento. Pelos motivos supra expostos: preciso de ganhar dinheiro e essa é razão pela qual trabalho. Não é para aquecer, não é porque gosto, nem é para ouvir dizer que sou uma excelente tradutora, é mesmo porque, como dizer, o saldo bancário não se alimenta sozinho. E se por sorteio esse saldo ficasse gordo eu iria trabalhar? Hell no, sista. Isso faz de mim materialista? Não.

 

PS – sim, jogo, não me limito a sonhar, todas as semanas ponho a minha chavinha à roda e sonho com o dia em que me sai e eu posso dar uso à minha lista mental perfeitamente definida de como, onde e quanto gastar porque eu sou uma pessoa com planos para todos os cenários. E vão por mim, eu rica é daqueles cenários que já passava a realidade que eu sinto-me com talento inato para a coisa.

Pronto e esta foi a primeira edição da rubrica «Frases feitas/Clichés/Coisas que muitas pessoas dizem que me deixam com tremeliques nervosos» que passará a sair todas as segundas perto de si num Instagram, Blogue ou página de Facebook se eu tiver tempo e material. Agora que penso nisso, talvez esta tenha sido uma edição única, mas, olhem, pelo menos, já cumpri o meu sonho de dizer que tenho uma rubrica.

Entretanto também tenho outra agendada que sairá em breve (ou no próximo ano, nunca se sabe) que se chama «Coisas que eu dizia que nunca faria quando fosse mãe e agora pumba».

No Comments
Maternidade

Contra caixas

Eu sou contra as caixas. Não as caixas mesmo, aliás, nessas sou viciada, tenho caixas e caixinhas para todos os tamanhos, mas contra as metafóricas, as das categorias que pomos em toda a gente, em especial nas mães. E vou andando descontraída sem me meter uma etiqueta, mas toda a gente me atribuí uma, como se eu não as tivesse todas dentro de mim. Se digo que sou mãe, acham que entendo a maternidade como paragem obrigatória da felicidade. Se digo que os meus filhos ainda não estão no jardim de infância, acham que sou contra a creche. Se digo que eles estão em casa comigo, acham que deixei de trabalhar e sou toda jogos didáticos e pedagogias com nomes difíceis. Se digo que o meu filho já anda na creche, é porque afinal sou como as outras que é capaz de o deixar com estranhos. Se pinto as unhas, é porque acho as outras mães que não se arranjam desleixadas. Se mostro que estou de pijama, é porque não gosto de moda. Se digo que dei de mamar, sou contra as que dão biberão. E se digo que dou biberão, sou contra a amamentação. Se digo que eles dormem na minha cama é porque sou contra dormirem longe dos pais. Se digo que eles foram dormir para o quarto deles aos quatro meses, sou contra o co-sleeping. Se digo asneiras, não sou uma mãe fofa. Se os encho de mimos e digo que eles são a coisa mais linda da minha vida, sou delicodoce. Se não dou açúcar aos meus filhos, sou extremista. Se não dou produtos biológicos e papas de aveia, sou das que enveneno os miúdos. Se ponho de castigo, não sou educadora. Se grito, não sou positiva. Se tenho calma, não sou real. Se choro é porque estou deprimida. Se rio é porque devo dormir bem. Se os visto à beto, sou demasiado chique. Se andam sempre de pijama, sou parola. Se tenho empregada, sou batoteira. Se faço tudo sozinha, sou corajosa e doida. Se viajo sem filhos, sou insensível. Se viajo com eles, devo ser mártir. Se gasto dinheiro, é porque sou rica. Se sou poupada, sou forreta.

Badarmerda para as etiquetas. Eu sou tudo e não sou nada. Que tipo de mãe és? Sou todas, sou cada uma delas, em cada dia diferente ou em todos a toda hora. Adoro caixas, mas não estou dentro de nenhuma.

 

No Comments
Coisas que irritam Maternidade

Os pais dos outros

Antes de ser mãe via o mundo a preto e branco. Birras no shopping? Má educação. Comer a ver vídeos no tablet? Inadmissível. Pais a ceder? Maus pais.

Depois fui mãe e apercebi-me que isto é lixado. A vida não é ideal. Idealmente eu tinha todo o tempo do mundo para estar com os meus filhos. E tinha também disponibilidade. Tempo e disponibilidade não são a mesma coisa. Às vezes tenho tempo, mas não tenho disponibilidade. Estou cansada do trabalho, das outras obrigações e estou carente de tempo para mim ou de descansar, de me distrair, de passear, de ler ou de ver séries. Não é por ter sido mãe que todas essas minhas necessidades deixaram de existir. Simplesmente deixaram de ser prioridade. É muito bonito dizer que temos de continuar a tratar de nós, arranjarmo-nos, sair, ir ao cinema, mas também é preciso que haja tempo, dinheiro e quem fique com as crianças e às vezes não há nada disso. Por isso há que ter prioridades e eles são a prioridade. Portanto, como dizia, quando tenho tempo, às vezes não tenho disponibilidade. E isso significa que faço tudo a correr. E significa que prefiro que vejam televisão para poder cozinhar mais rapidamente. E significa que se fizerem uma birra por um brinquedo eu dou para se calarem. E significa que o banho é rápido. E significa que o jantar tem de entrar. Não é sempre, mas às vezes. Muitas vezes, mais do que as que gostava, ou melhor, mais do que as que imaginava que ia gostar.

Os miúdos têm uma brutal inteligência emocional. Conhecem muito bem os seus cuidadores e dependem da atenção deles. Sabem como a conseguir, a bem ou a mal. E por isso, quando estou cansada, farta, ocupada, com trabalho por fazer e a coisa entra em modo automático, eles percebem e utilizam isso. Como? Com birras. E sim, eu, muitas vezes, cedo. Porquê? Porque não sou um robot, preciso de descanso, preciso que as coisas aconteçam e prezo silêncio. Claro que contrario os meus filhos — é impossível conviver com eles sem os contrariar — mas não acho que a base da educação seja essa.

Muitos dizem que os miúdos estão mal-educados, não têm pais que lhes dêem limites, não conhecem o não, não sabem como lidar com a frustração, etc. E eu concordo. Mas estou cansada desta sobranceria com que determinados pais falam de situações que vêem na rua e extrapolam para a regra. E estou cansada da falta de empatia entre pais. As pessoas que não têm filhos têm a distância típica da falta de conhecimento, que eu percebo porque também já fui assim. Mas a crítica constante dos pares deixa-me irritada.

Ao contrário dos maridos das outras, que são sempre o pináculo da criação, os pais dos outros são sempre uma merda. São permissivos, deixam fazer tudo, não têm tempo para os filhos, são autoritários, são desligados, são desleixados, são frios e são sempre, sempre a causa do mau comportamento  dos filhos.

A verdade é que estou constantemente a levar com quilos de informação que me quer obrigar a concluir pelo meu falhanço: todos os dias alguém partilha uma notícia que diz que um pediatra disse que os miúdos de hoje não serão os génios de amanhã porque são expostos a muita televisão e tablets, ou que não são capazes de lidar com a frustração porque têm muitos brinquedos, ou que não sabem brincar com outras crianças porque brincam com os pais ou que não gostam de exercício porque jogam muito computador, e por aí em diante. Esta obsessão com o questionar o que estamos a fazer com os miúdos esgota-me. Eu ando aqui a safar, não tenho grande tempo para me encostar a pensar nas consequências de determinadas coisas. Não sou maluca, tenho consciência que tipo de comportamentos favorecem o desenvolvimento da personalidade deles, mas sou humana e recorro a tudo o que posso para sobreviver. E às vezes ver televisão pode não ser o mais indicado, mas é o mais correcto porque é o que traz paz ao nosso lar e propicia a um ambiente calmo e saudável. E ceder a birras, que é globalmente considerado péssimo e olhado com desprezo, às vezes é importante para mim para poder fazer coisas incríveis como chichi.

Há dias fui passear com o Gonçalo e tudo correu bem até ele se passar porque eu não o deixei ir ao parque do centro comercial ao lado do qual passámos porque precisava de ir às compras. Ele fez uma birra indiscritível, não se calou por nada, eu fiquei nervosa, comecei logo a suar do buço, pus-lhe a chucha e ele jogou-a para o chão e tive de me afastar com ele a chorar. Ouvi um sibilante «que miúdo mal-educado» e também vi olhares de reprovação quando ele atirou a chucha ao chão de pessoas que estavam com miúdos no dito parque. A sorte vos impeça de ter filhos que façam isso, eu cá nunca me imaginei com um pequeno Hulk a arremessar tudo quanto lhe dou quando está com os azeites, e não, não é o que ele vê em casa que eu quando estou lixada digo asneiras, não atiro merdas pelo ar, por isso, por favor, sejam mais empáticos. Dias depois fomos lanchar e tudo correu bem até a comida chegar. Aí ele lembrou-se de que queria correr e chorou quando o impedi. Acabei com o choro dando-lhe o meu telemóvel para ele ver vídeos e fui novamente fulminada com o olhar por pessoas nas outras mesas. Não disseram nada, mas eu percebi que ter cedido à birra e ter-lhe dado o telemóvel foi o meu crime do dia. Eu só queria lanchar, tinha fome, mas pronto, basicamente fui pendurada numa cruz por estranhos por ter cedido a uma birra. Se o tivesse deixado chorar teria recebido tratamento igual.

Eu tenho três filhos e nos últimos meses na impossibilidade de me dedicar a buscas de perfeição e ter de ser apenas o Macgyver da maternidade, descobri-me relaxada, certa do que faço e não são os olhares de desconhecidos que me deitam abaixo, mas na impossibilidade de mandar as pessoas à merda na hora — a minha auto-terapia de agressividade impede-me — deixo aqui o meu manifesto. Os pais dos outros não são uma merda. Andamos todos ao mesmo e cuidado… ainda podes pagar pela língua. I know I did.

6 Comments
Maternidade

Perda gestacional

Antes de engravidar do meu filho mais velho, perdi um bebé. Hoje é o dia internacional da perda gestacional e estas coisas dos dias internacionais têm como objectivo sensibilizar para temáticas importantes e quebrar tabus, pelo que aproveito a deixa. Este é daqueles assuntos que todos reconhecem ser dolorosos e então fica remetido à surdina que não ajuda ninguém a curar.

Dar voz à minha história é explicar que acho que superei tudo bem. Não vos vou maçar com descrições dramáticas das vezes que chorei aquele bebé e o que senti quando depois tive o meu bebé arco-íris (o que chamam a bebés que vêm após perdas) porque não é sobre o depois que vos quero falar, é sobre o durante e porque arco-íris não é o meu estilo.

Passei por isso e passou. Mas doeu. Muito. Estava grávida de 9 semanas e já tinha partilhado a notícia com a família e amigos. Contei essencialmente porque me apeteceu e porque não percebia o porquê de esperar para partilhar. Ainda não percebo, todos os que souberam foram-me essenciais.

Tive uma hemorragia, fui para a maternidade, fizeram uma ecografia, não detectaram batimento cardíaco, mas explicaram-me que o ecógrafo das urgências não era o melhor para gestações ainda tão curtas e mandaram-me para casa esperar, pois podia estar a abortar, mas também não. Que voltasse daí a cinco dias ou se me sentisse mal, disseram. Vim absorta, não quis acreditar e tive esperança de que tudo estivesse bem. Voltei à maternidade passados três dias, farta de esperar. Encaminharam-me para o piso das ecografias e depois de entrar numa sala escura, de ter cumprimentado o médico e não ter obtido resposta, deitei-me numa marquesa e ouvi a sentença após segundos de análise: «esta gravidez foi interrompida». O quê? Interrompida? Por quem? O médico disse só que o feto não tinha batimento cardíaco e mandou-me sair. Até hoje não percebo a malvadez desta falta de tacto, não aceito que lidem assim com uma pessoa num dos seus piores momentos. [Fiz queixa deste médico, infelizmente não chegou a lado nenhum porque o médico faleceu meses depois.]

Fui então encaminhada de volta para as urgências onde me falaram melhor, explicaram o que se passaria a seguir, mas onde também ninguém quis perder muito tempo por não saber o que dizer. Eu fiquei demasiado presa à quantidade infinita de vezes que diziam que eu tinha abortado — as palavras são só palavras e às vezes não querem dizer nada, mas quando se está numa sala fria a saber que a vida que criámos dentro de nós estava finda, as palavras interessam e gostava que alguém se tivesse abstido de repetir aquilo vezes sem fim porque eu não fiz nada, simplesmente aconteceu. Num segundo tinha um projecto, no seguinte não. Num segundo era mãe, noutro não. Num segundo planeava onde pôr um berço, no seguinte contorcia-me de dores com as contracções ao lado do sítio escolhido.

Acho que falta formação aos técnicos para saberem lidar com estas situações. Posso ter tido azar e ter lidado com as pessoas erradas, mas pareceu-me mais ser o assunto errado. É preciso tratar o assunto com a importância que tem e não o desvalorizar sobre pena de aumentar o sofrimento de quem por lá passa em vez de o minimizar.

Odiei o tabu, o não se falar sobre isso, odiei passarem-me a mão no braço e ouvir que é muito comum, ainda és nova, vais ver que engravidas logo, depois nem te lembras. Eu prometia não esquecer e não queria pensar em engravidar de novo, nem sequer deixar de pensar no que tinha acontecido, queria falar sobre isso, explicar pelo que passei e ultrapassar. Evitar não deixa curar.

Todos me diziam que era comum, mas não é assim tão comum falar sobre isso. Na altura senti-me sozinha.

Passa, mas não se esquece.

A quem está a viver isso: sim, acontece com frequência. Não estás sozinha. É tabu, mas não devia ser.

Ah e não, não foi nada que fizeste.

7 Comments
Tudo e Nada

Maria Bitaites Internautas

Depois de ter feito o post das Marias Bitaites – Edição Gémeos, muitos me pediram para fazer a versão reunião de pais e grupos de mães no Facebook. Pronto, foram só duas pessoas, mas foram duas pessoas de quem eu gosto muito, por isso valem por muitas, certo? Ora, de reuniões de pais não percebo. Não estou especialmente entusiasmada com essa fase da vida, acho que vou ter muito material, mas a verdade é que para já vivo na ignorância.
Já relativamente a grupos de mães no Facebook………… Eu boto o olho em tudo e raramente comento algo, a maioria das vezes simplesmente remeto-me ao silêncio gozador. Mas que já vi cenários de horror, já. E por isso aceitei o repto.
Aqui estão então as Maria Bitaites Internautas:

1 Comment
Coisas que irritam Tudo e Nada

No is no

Aqui há uns anos, quando o Obama foi eleito Presidente dos Estados Unidos li uns artigos sobre racismo na América e lembro-me de pensar «não, nós não somos assim racistas». Em conversa com alguém muito tempo depois apercebi-me da dura realidade: somos igualmente racistas, simplesmente nos EUA fala-se disso, aqui não. Quando o Trump foi eleito apesar de existirem gravações dele a dizer que apalpava as mulheres pela rata (entre outros episódios), eu pensei «nós, não somos assim misóginos, machistas». Estão a ver onde é que vai dar, não estão?
Nós últimos dias, a propósito da questão da acusação de violação do Ronaldo, ver a propagação de comentários «é, achava que ia beber chá para o quarto», «ó Ronaldo, usavas vaselina para não fazer dói-dói», «acabou-se o dinheiro e agora quer mais», muitas vezes de mulheres e muitas vezes acompanhados de demonstrações claras de nem terem procurado saber os contornos do caso, é desanimador e faz-me concluir que sim, somos.
Aquando de decisões como as do acórdão da «sedução mútua» nunca falta quem os censure munido de argumentos como «eu tenho uma filha e não é este mundo que quero para ela» como se fosse preciso ser-se mulher, ter filha, mãe ou namorada para se ser feminista e como se o futuro que deixamos aos filhos fosse o único móbil para defender um mundo melhor para hoje. Hoje uso eu esse argumento: é isto que querem ensinar às nossas filhas? Se subires ao quarto, é porque tens de dormir com ele, quer queiras quer não! Se usares decotes, já sabes que os homens se podem usar do teu corpo. Se gostares de sexo, tens de gostar de tudo. Se disseres que sim, não podes mudar de ideias, não vale de nada dizer não. É assim? E é isto que queremos ensinar aos nossos filhos? Se ela aceitar ir contigo para o quarto, podes servir-te do corpo dela como quiseres. Se ela aceitar ir jantar, já sabes que está no papo e podes ser violento para o concretizar. Se ela disser sim a um beijo, considera-a disponível para tudo. Se ela estiver de decote, é porque quer que a comas. É assim?
Não sou daquelas pessoas que defende que o mundo está cada vez pior. Continuo a defender que o mundo em que os meus filhos nasceram é incomensuravelmente melhor do que aquele em que eu nasci: o desenvolvimento, o progresso da tecnologia ao serviço da nossa saúde, locomoção, felicidade, a quebra de barreiras importantes, a conquista de liberdades e a defesa dos direitos civis nos países desenvolvidos melhoraram o mundo nestes últimos 30 anos. No entanto, ao ver estas reacções lembro-me que ainda falta muito.

1 Comment
Love is all you need

(Des)sintonia

Vejo muita gente à procura do tal. Tanto me elogiam a sorte. Perguntam-me como é que aguentamos. Leio sobre a sintonia do casal, sobre a partilha. Farto-me de ver floreados que todos querem. Esqueçam a sintonia. Nós não temos sintonia. Nós discutimos. Nós pomos pausa em discussões para dar banhos, para dar jantar, para viver. Nós entramos em conflito sobre a maneira como educar, como reagir. Nós cobramos tarefas, tempo, saídas, trabalho. Nós somos rancorosos e teimosos. Nós funcionamos. Nós acordamos e esbarramos no corredor a trocar de turnos. Nós somos uma máquina oleada de logística. Nós planeamos. Nós fazemos listas. E nós perdoamos. O cansaço, as rotinas, o trabalho, a vida. Não sei nada sobre relações duradouras, sobre amores para a vida, sobre companheirismo. Não sei nada sobre os outros, sobre a vida. Só sei sobre nós. Sei que todos os dias, ele acorda antes de mim, trata de tudo e depois sai para trabalhar. E sei que volta todos os dias. E a mim custa-me vê-lo sair não (só) porque fico sozinha, tantas vezes sem ajuda, mas porque fico sem ele.
No fim-de-semana vínhamos em viagem e eu disse-lhe «adoro uma música que está sempre a dar, mas não consigo dizer qual é, não sei nem uma única palavra.» Ele respondeu «vê se é esta» e pôs no telemóvel. Eu disse «olha que não… não me parece». Era. Chegou o refrão e ri-me «é esta, é». Ele sabia e fez um sorriso delicioso de quem tem sempre razão— gosto destes sorrisos porque geralmente são meus. Vinte minutos depois estávamos em casa e eu a bufar porque ele se lembrou de ir andar de bicicleta com o miúdo em plena hora de almoço. PLENA HORA DE ALMOÇO. Eu fiquei sozinha com os gémeos a arrumar malas e a fazer o almoço. Mas depois pensei: esta pessoa conhece-me tão bem que descobre a que me refiro por mero pensamento e acalmei-me. Acham mesmo? Sabem de que é que me serviu ele ter descoberto a tal música? De nada, passei-me na mesma e barafustei like a motherfucker. Isto é muito giro ter a nossa alma gémea, mas quando a coisa aperta uma pessoa tem simplesmente vontade de a esganar como às almas menos gémeas.
As normas do amor mandam nunca nos deitemos chateados. Eu também já fui jovem e inocente e dizia o mesmo, mas agora digo-vos se se chatearem, deitem-se. De manhã as parvoíces deixam de fazer sentido, o dia traz lucidez e o descanso tira importância a pormenores que são mesmo detalhes. Eu deito-me chateada, tem dias que ainda acordo amuada, eu discuto, eu grito, eu digo que estou cansada. Mas deito-me todos os dias apaixonada, todos os dias me levanto enamorada. Que se lixe a sintonia, eu quero a confusão, eu quero o cansaço, eu quero a verdade. Eu gosto disto assim. E dele também. A todos os que perguntam como é que aguentamos: ele sabia que eu tinha mau feitio bem antes dos três, agora é só um bocadinho mais. Isto das relações é como as mães: não há perfeitas, só há as reais. E também como a mãe, a minha é a melhor do mundo.

1 Comment
Tudo e Nada

Tem calma

Basicamente uma pessoa anda aí e pensa que há mães como há mulheres, todas diferentes, mas vai-se a ver e afinal só há dois tipos: mãe-galinha e a mãe-relaxada. E ou se é uma ou se é outra. A mãe-galinha é demais: é tudo em bom, mas demais. Ama tanto que sufoca, preocupa-se tanto que exagera, cuida tanto que não dá espaço. A mãe relaxada deixa tudo andar, não se preocupa, vive a vida. E, como em tudo nesta merda da maternidade, ou se é uma ou outra.
Volta e meia, alguém me diz a propósito de alguma coisa com os meus filhos que tenho de ser mais relaxada, mais descontraída que não ando a aproveitar. Quando alguém me diz que eu «tenho de ser» de determinada maneira fico logo com comichão, apetece-me mandar essa pessoa à merda, mas aguento-me porque sei viver em sociedade. Eu devo ser relaxada? Mas quem é que disse que eu não sou relaxada? E… quem é que disse que eu quero ser relaxada? E o que é ser relaxada? E quando é que devo ser relaxada? E como… vocês percebem. Depois a sentença: «Estás em stress com tudo, tens de deixar a vida levar, o teu stress passa para eles, sabes, por isso é que eles não dormem/comem/cagam/falam”. Ora, fica o disclaimer: eu não sou relaxada, não sei ser e não quero ser. Nunca fui. Não sei ser assim com os miúdos porque não sei ser assim com ninguém. O meu pai abeira-se de uma cena mais alta (e fá-lo tantas vezes só para se me meter comigo) e eu passo-me, fico com dores de barriga porque tenho medo de alturas. O meu marido todos os dias faz 200 km e tem que me mandar mensagem SEMPRE que chega e sai, mesmo se estivermos amuados, já fiz pausa em discussões para perguntar se ele chegou bem. Se tenho alguém de quem gosto no ar fico com o coração apertado até os saber em terra. Sempre. Sou assim, acho que herdei isto.
Isto para dizer, se há suspeitas de os meus filhos terem alguma coisa sim, eu vou ler tudo o que há na net sobre isso. Sim, vou preocupar-me, mesmo que não seja nada. Sim, consome-me. Mas não sei ser de outra maneira e não estou a tentar.
Por outro lado, eles têm febre ou fazem uma alergia alimentar e eu não vou a correr para o pediátrico até para espanto dos médicos, como já aconteceu. Vigio e velo, mas não entro em pânico. E caem e eu não grito logo. E sacudo o pó de feridas, dou beijinho e digo para seguirem com a brincadeira depois de quedas aparatosas no parque.
Ser relaxada e ser mãe-galinha para mim é dia-a-dia, é tão normal como ser trabalhadora e preguiçosa, que sou. É possível ser-se um pouco de tudo, não somos apenas uma coisa só porque perante determinado cenário somos de certa forma.
Não digam a ninguém que está preocupado com alguma coisa, especialmente se for grave, para relaxar. É que toda a gente sabe que tem o efeito contrário, por isso eu vou achar que estão a fazer de propósito só para irritar.
Se uma pessoa confidencia que está preocupada com algo, menorizar o problema tentando-lhe dizer que tem que se acalmar não é de amigo. Dizer «isso não é nada, vocês estão a exagerar» não é de amigo. Não digam que mandam relaxar porque querem as pessoas calmas, não se enganem. Se querem ser amigos digam «de que é que precisas?» ou oiçam. Às vezes quando uma pessoa está preocupada a desabafar está só à procura de ser ouvida, não de ser aconselhada.

No Comments