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Maternidade

Pais, a amamentação também é para vocês

Diz que é o mês ou a semana do aleitamento materno. Não vou falar da amamentação em específico, há por aí muitas pessoas a falar isso, sobre como não desistir, etc., por isso quem quiser é procurar. Hei-de falar de amamentar gémeos que foi algo que me fez espécie desde que soube que estava grávida deles e que connosco não funcionou, mas fica para outra altura.

Falo-vos antes do papel do pai na amamentação. Como também o é num pós-parto de paz, para mim, o pai pode ser essencial na amamentação bem sucedida.

Vamos então à hora do bitaite. Coisas que acho que os pais podem fazer que ajudam e muito:

– Ajudem a decidir

Para mim, a amamentação é uma decisão, não é obrigação e é da mulher e apenas da mulher dado que é ela que vai sofrer as consequências físicas. Mas o processo decisório pode e deve ser conjunto. Apoiem, procurem informações e ajudem a decidir. Respeitem a decisão, qualquer que seja, mesmo que seja contrária à vossa.

– Interessem-se

Muitos pensam, «ela é que dá de mamar, é coisa de mulher, não quero saber» ou, talvez até mais comum, «mamas para mim é para brincar por isso enquanto estiverem fechadas para balanço é um não assunto». Isto pode criar logo uma clivagem entre o casal que não é recomendável numa altura em que se está em privação de sono. Depois de decidir dar de mamar eu cá acho que é bom procurar uma série de informações para não ir completamente em branco porque depois se surgirem dificuldades, e surgem tantas vezes, é mais fácil saber o que fazer. Por isso, participem também nesta saga e informem-se em conjunto, falem sobre isso. Saibam o que é livre demanda, o que são picos de crescimento, quais as dificuldades que podem existir no início, o que são mastites, a quem se pode pedir ajuda, tudo. Não deixem de ouvir quando a mulher fala de máquinas de extracção, quando partilha os planos para fazer armazenamento de leite para quando for trabalhar, o que for. As mamas são dela, mas o puto é dos dois e se é algo que beneficia o puto também beneficia o pai por isso ter interesse é bom e não custa assim tanto.

– Partilhem mesmo quando achem que não dá para partilhar

Se a mulher é que dá de mamar como pode o homem ajudar? Pode pegar na criatura e pô-la a mamar, por exemplo, para deixar a mãe dormir. Quando estão em casa pode trocar as fraldas todas. Pode oferecer-se para a deixar dormir no quarto e ir com o bebé para a sala ou outro quarto até à mamada seguinte, quando a mãe está a ficar sem forças. Pode oferecer-se para ficar totalmente responsável pelo bebé uma noite ou dia se a mãe conseguir extrair leite. Pode não sobrecarregar a mãe com mais nada e fazer a parte dos dois da lida da casa, se conseguir, ou pedir a alguém que o faça. Pode fazer tanto. Imaginem que eram operados e estavam em convalescença em casa, que ajuda gostavam de ter? Pronto, nas alturas de maior drama ou pelo menos no primeiro mês, é isso que podem fazer.

– Cuidado com o que dizem

Não se anda num campo de minas a correr, pois não? Então se não querem ficar sem uma falangeta não digam a uma mãe que quer muito dar de mamar e que gostava de não dar leite adaptado que se calhar o leite dela é fraco e o vosso amigo do café deu um biberão de leite adaptado ao filho dele e ele calou-se. Não digam nada de que não tenham a certeza, não transmitam bitaites sem fundamento e escolham a forma adequada para falar disso a uma mulher que tem uma tonelada de hormonas à bulha dentro dela e acha sempre que está a fazer tudo mal e por isso está muito sensível.

– Promovam o riso para descomprimir

Eu sei que vocês nunca se imaginaram a ajudar a vossa mulher a colocar uma máquina que a faz parecer uma vaca leiteira a funcionar, mas nem ela. Rir é a solução. Brinquem, façam piadas. Eu continuo sempre a achar piada à quantidade de vezes que passámos a dizer mamada com um carácter absolutamente assexuado. Never gets old.

– Abordem a questão de dar de mamar em público

Tentem perceber se a mãe se sente à vontade de dar de mamar em público ou não e ajudem a facilitar a logística. Se tiverem visitas e a mãe quiser privacidade convidem as pessoas a ir beber um café à cozinha e dêem-lhe paz, se estiverem na rua, tentem perceber se há um sítio para a mulher dar de mamar mais resguardada, sei lá, sejam proactivos, não façam àquela cara de «e agora?» que não ajuda ninguém. Se a mãe não se importa de estar em público, não fiquem vocês constrangidos. São só mamas, achar mal ver uma mama a alimentar um bebé é uma coisa meio «eu sou um animal e não me controlo» e não é evoluído da vossa parte.

– Festejem

Há uma felicidade algo animal em ver um puto crescer com o nosso leite. Festejem com a mulher depois de irem ao médico ou à pesagem. Qualquer coisa como «Eu sei que não é sempre fácil, mas já viste como ele está crescido e forte? Que bom que estás a conseguir.». Eu acabei de ler isto e pensei imediatamente que isto parece uma tirada do Gustavo Santos e sinto-me mesmo uma parola. Esta dica tem assim uma ponta de carência e fraqueza, mas o pós-parto deita uma gaja abaixo, até as mais duras. Uma vez fomos a uma consulta e o pediatra dos putos disse-me: «Que força, Ana. Que mãe incrível que está a ser.» E eu chorei. Às vezes uma boa lamechice faz falta.

– Juntos vencem o mundo

É certo e sabido que há sempre gente, às vezes até da família, que sabe qual é a solução para amamentação e quer por tudo ou que deixem de dar de mamar ou que o façam de outra forma. Às vezes quando é com a família do pai as mães sentem-se completamente sozinhas e sem poder de resposta. Criem uma frente unida. Não é preciso criar discussões, mas lembrem as pessoas que vos estão a chatear que vocês estão a ser seguidos por profissionais e que o resto é decisão vossa. Se a mãe não for a única a ter que responder a bitaites e se sentir que estão do lado dela vai sentir-se muito melhor. Não deixem que discussões sobre o que «a tua tia-avó que nem nos conhece acha sobre as minhas mamas» vos façam perder tempo que podem passar em paz e a descansar.

 

 

Isto é obviamente o que eu acho. Outras mulheres quererão é que as deixem sozinhas, mas do que vou falando com amigas a partilha com o pai e a vontade dele em participar é muito importante.

Sejam parte da solução e não do problema. (Achavam que o Gustavo Santos que há em mim tinha ficado só ali em cima, não?)

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