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Maternidade

Fundamentalismos

Odeio os infindáveis discursos do elogio ao antigamente em que se aplaude a era pré-internet. Eu estou bem assim, obrigada, gosto muito da internet (dependo dela para trabalhar) e adoro ter acesso a informação. Gosto das redes sociais, acho que a minha vida é melhor com elas, e gosto de grupos no Facebook (de mães, profissão, etc.) porque aprende-se sempre alguma coisa e há sempre gente com humor que partilha boas piadas.

Feito o aviso, preciso de dizer que às vezes passo-me da marmita com o que vejo e apetece-me correr tudo à chapada. É o babywearing, a amamentação, o rear-facing, as creches, o baby led weaning, o co-sleeping, o bed-sharing, a última coca-cola do deserto da pediatria/pedagogia/pedopsquiatria levada à loucura.

Não tenho nada contra nenhuma das coisas que enumerei, se lês para me pores numa cruz vai lá dar uma volta ao bilhar grande que eu não advogo nada contra. Mas como não sou entendida em nenhuma, também não tenho nada a favor que não a minha experiência. Mas irrita-me a maneira como especialistas com conhecimento adquirido no Facebook defendem e tentam impingir o extremo da sua estratégia (que muitas coisas, por mais termos em inglês que tenham, não passam disso) aos outros.

Irrita-me ver gente a criticar pessoas que andam com os filhos no carrinho porque não são iluminados e não carregam em babywearing porque colo é amor (mas tem regras, que tudo tem regras e tem que ser daquela maneira). E se quiserem dar alimentos crus aos vossos bebé bem como sopa, saibam que isso não é baby led weaning de verdade, é finger food e não é nada, para isso não vale a pena sequer tentar. E dar de mamar é renegar fórmula, cuspir-lhe em cima, porque mãe que é mãe dá mama, até querer, e sem mamilos de silicone que isso é o demo e nunca vão mamar direito com essas coisas. E dormir na cama dos pais é que é, se não gostas é porque és capaz de ouvir os teus filhos chorarem e és pior que bruxa. Não defendo nada nem sua coisa distinta e não acho que isto das pedagogias, filosofias, métodos e estratégias sejam simples, estanques e eficazes. Tenho três filhos e dois são gémeos e já fiz quase tudo com todos e a sua coisa distinta.

Eu não quero saber de equipas, odeio extremismos e categorias. Leio imensos livros, artigos na Internet e converso com outras mães tanto quando posso. Pego aqui, ali, junto tudo e deixo que o sono e o cansaço façam o resto. Co-sleeping? Tem dias. Treino do sono? Tem coisas (e não é deixar chorar e torturar). Baby led weaning? Sim, mas com sopa que toda a gente come sopa cá em casa e não vou abdicar disso se conseguir. Babywearing? Quando dá, mas o carrinho não me dá cabo das cruzes. Amamentei o Gonçalo até aos 6 meses, metade do tempo com mamilos de silicone e não consegui amamentar os gémeos e dou-lhes leite adaptado. O Gonçalo dormiu até aos 9 meses no nosso quarto, até aos 3 na nossa cama e os gémeos desde os 5 meses e meio que foram para o quarto deles e contam-se pelos dedos das mãos as noites que dormiram na nossa cama. Se por ter amamentado acho que toda a gente tem que amamentar? Não. Lamento, mas não funciona para todos. Tive imenso leite dos gémeos e não funcionou para nós. E não, não foi falta de informação. Do Gonçalo funcionou lindamente e adorei.

Isto para dizer: nada é igual para toda a gente porque nem para as mesmas pessoas as coisas são iguais. Por isso PAREM DE IMPINGIR AS VOSSAS ESCOLHAS A OUTROS. Todas as filosofias, todas, viram religião. Aposto que os defensores da parentalidade positiva não tinham em mente ter os seus defensores a discutir por esse Facebook fora para evangelizar outros. A parentalidade positiva deve fazer um bem incrível às crianças, mas aos adultos às vezes duvido pela agressividade com que vejo alguns a defenderem-na. A leviandade com se ataca pessoas que não defendem o mesmo que nós por esse motivo apenas deixa-me nervosa. Se alguém ousar dizer que não gosta de co-sleeping arrisca-se a ter que ouvir que é uma pessoa detestável. E a maioria das vezes não são ataques assumidos, são aquele passivo-agressivo digno de telenovela “eu prefiro que o meu filho durma comigo do que ouvi-lo chorar para dormir sozinho, acho uma crueldade” quando a pessoa nem sequer disse que é isso que faz. E isto vale para todos os lados, todas as posições sobre qualquer coisa têm só dois lados diametralmente opostos e defender uma coisa é renegar a outra para sempre.

E parem de achar que as coisas que vêem na rua são a única realidade daquelas pessoas. “Ai eu vejo pais que fazem as vontades todas aos miúdos, eles choram e eles dão, eles pedem e eles vão”. Antes demais, aprendamos a discutir. Quem disse que isto é parentalidade positiva? E quem disse que quem não deixa dormir na cama, não dá colo? E depois, quem somos na rua? Quem vos diz qual é a nossa realidade? Eu na rua sou das mais permissivas mães que existem. Tenho uma hiper-sensibilidade a incomodar os outros e odeio ver birras, portanto se estivermos em público e houver birras eu vou tentar terminá-la da forma mais rápida e eficaz. E sim, isso significa que a maioria das vezes cedo.

Eu já vi nestes grupos mães a indicarem que determinada coisa foi indicação do pediatra e outras mães, aparentemente sem formação na matéria, apenas munidas da sua experiência, a indicar que os pediatras deviam tirar o curso de novo, que os médicos de hoje não sabem nada. Acho isto um exagero perigoso. Não é preciso justificarmos as nossas decisões com uma evangelização extrema daquilo decidimos para nós. Porque não explicar como foi a nossa experiência, dizer que os médicos têm formações distintas e escolas de saber que às vezes são diferentes e aconselhar a procurar uma segunda opinião indicando artigos credíveis ou livros sobre a matéria para a pessoa, querendo, obter mais informação?

O que mais me irrita é a incapacidade de ver outros pontos de vista, de reconhecer validade a experiências diferentes e promover diálogos e não simplesmente elogios a determinada maneira.

E o argumento do amor deixa-me louca, acho uma manipulação tremenda. Vejo defender que maminha é amor, colinho é amor, carregar é amor como se fosse o contrário não fosse. Deixar dormir no berço também é amor, dar biberão também é amor e andar no carrinho também é amor. Tudo o que seja cuidar é amor e quem sabe o que é cuidar da melhor maneira são os pais, daquele bebé em específico, naquele momento em específico.

Não gosto de impingir nada e menos que me impinjam. Falemos todas do que funcionou connosco, naquele momento, naquele filho. Aconselhemo-nos, sugiramos coisas que isso sim é que é a maravilha das redes sociais, a capacidade de partilhar experiências com estranhos de forma rápida. Mas paremos com a catequização, como se fossemos só uma coisa sem poder ser um pouco de todas. Eu sou pela maminha, pelo biberão, pela cama dos pais, pela cama dos filhos, pelo quarto dos pais, pelo quarto deles, pelo adormecer ao colo, pelo adormecerem sozinhos, pelos white noises, pelo embalar no carrinho, pelo babywearing, pelos castigos, pelos limites, pelos exemplos, pelo apego, pelos abraços, pelo arregalar de olhos. Eu sou por tudo e por nada, pelo todo e pela parte, pelo nunca e sempre. E a maioria das vezes, francamente, sou pelo que funciona. Pedagogia? A que dá.

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